Ancorado na tradição e com os pés fincados no agora, CRUA lança A Canção Beiroa, tema de João Lóio, originalmente editado no álbum mais um dia (1987), e que hoje ganha nova vida. Não é só uma cover. É antes uma continuação onde o adufe marca o compasso e a voz primal convida ao encontro. Onde a música tradicional ibérica se cruza com os gritos urbanos do feminino contemporâneo.
Com produção de Miguel Simões e CRUA, a nova A Canção Beiroa canta-nos o salto, a guerra, a partida e o regresso. Mantém-se fiel à força poética da canção original, mas convoca um novo olhar. Onde antes se falava da emigração dos anos 80, hoje canta-se a imigração, as fronteiras reais e simbólicas, o preconceito que alastra e a urgência de afirmar que a rua é nossa. De todas e todos.
Realizado por Francisca Marvão e produzido pela Uma Ova Associação, o videoclipe de “A Canção Beiroa” é uma ocupação estética e política do espaço público. 16 pessoas migrantes e/ou refugiadas a residir no Porto emprestam os seus corpos, histórias e objectos pessoais para construir esta narrativa colectiva. Participam: James, Tamy, Manô, Pati, Nicole, Rania, Orlanda, Elina, Filó, Sadek, Gideon, Patrícia, Katherin, Allana, Kritika, e ainda as intérpretes Ana Beiradomar, Bárbara Trabulo, Diana Ferreira Martins, Liliana Abreu, Raquel Melo, Rita Só e Rita Sá. O vídeo é uma ode ao encontro e um manifesto visual contra o crescimento da extrema-direita e dos discursos de ódio. Por cada preconceito, uma canção. Por cada retrocesso, uma celebração.
“A Canção Beiroa” renasce não apenas como música, mas como proposta de futuro: um futuro com mais humanidade, mais pluralidade, mais escuta e mais festa. Chega pelas mãos e vozes de CRUA que aqui são Ana Beiradomar, Bárbara Trabulo, Diana Ferreira Martins, Liliana Abreu, Raquel Melo e Rita Só.
CRUA é um colectivo artístico de mulheres que canta com o corpo, com as raízes e com o agora. Nascido do desejo de reencontro com o repertório tradicional ibérico, CRUA parte da música de raiz e do adufe para criar um espaço contemporâneo onde o feminino se expressa sem filtros, cru, político, emotivo e ritual.
É no entrelaçar do rural e do urbano, do passado com o presente, que CRUA constrói a sua linguagem: vozes nuas, por vezes próximas do grito, outras da carícia, sempre em coro. Um cantar afectivo e percussivo, onde a herança musical das mulheres do campo encontra a urgência das mulheres da cidade.
Mais do que um projecto musical, CRUA é uma dramaturgia colectiva, onde a voz é corpo, o adufe é pulsação, e a tradição é questionada e celebrada. O palco ou a rua transforma-se em lugar de encontro, de resistência e de festa. Cada actuação é um ritual. Cada canção, uma oferenda. Cada presença, uma afirmação. Como quem faz da escuta um acto político, com o adufe ao peito e o coração na voz.
A ouvir, “A Canção Beiroa”. •


