“Come di” / Jorge Molder

O Centro Internacional das Artes José de Guimarães (CIAJG), em Guimarães, inaugura amanhã, dia 21 de março, às 17h00, três novas exposições que assinalam o primeiro ciclo expositivo sob a direção artística de Miguel Wandschneider: “Come di”, a primeira exposição retrospetiva sistemática de Jorge Molder, “Back Outside”, do artista escocês Aidan Duffy, e “Artes Tradicionais Africanas na Coleção de José de Guimarães”.

Com este novo ciclo de programação, Miguel Wandschneider aposta num horizonte claramente internacional, privilegiando um leque de escolhas diferenciadas, de modo a afirmar o CIAJG no contexto nacional e, desejavelmente, também num contexto internacional alargado.

Após a inauguração, surgirá a oportunidade para assistir ao filme Por aqui quase ninguém passa(1999), de José Neves, na Black Box do CIAJG (22 março, 12h00), e para participar na visita guiada por Miguel Wandschneider (29 março, 11h00), no âmbito da exposição “Come di”. Em torno da exposição “Back Outside”, contar-se-á com duas visitas guiadas: a 22 de março pelo próprio Aidan Duffy e a 12 de abril por Miguel Wandschneider, sempre às 11h00.

Primeira exposição retrospetiva da obra de Jorge Molder
Esta é a primeira exposição retrospetiva sistemática, ainda que assumidamente parcelar, da obra fotográfica de Jorge Molder (Lisboa, 1947), artista sobejamente conhecido em Portugal e com uma carreira internacional assinalável. A sua vasta obra, cobrindo um arco temporal de cerca de cinquenta anos, e pautada, desde o início, por uma sucessão de séries, algumas delas muito extensas, não se compadece com uma retrospetiva com sentido totalizante. Propõe-se, em contrapartida, uma exposição centrada no seu trabalho entre 1991 e 2003. 

A primeira baliza cronológica conduz–nos ao momento em que Jorge Molder começou a tomar a sua figura, muitas vezes o seu rosto, insistentemente, como objeto de representação, para encenar no estúdio um personagem, ou múltiplas declinações de um mesmo personagem, em grande medida abstrato e insondável – uma personificação do duplo. A segunda corresponde ao momento em que o artista adotou a tecnologia digital na produção das suas imagens. Essa figura recorrente vai sendo construída (dramatizada) através da pose, do gesto e da expressão, mas também da luz e da sombra – é puro artifício, portanto. 

Como o artista não se cansou de repetir ao longo dos anos, a autorrepresentação não é, nessas imagens, sinónimo de autorretrato. Em contraponto, é apresentado, no início da exposição, um conjunto de fotografias, realizadas entre 1981 e 1986, em que a figura do artista se esquiva ao olhar objetivante da câmara, mas que ele, na época, nomeou de autorretratos. A estes juntam-se duas séries datadas de 1986: retratos encenados – de esgrimistas, num caso, e de empregados de mesa, noutro – que configuram um marco no desenvolvimento da sua obra, prefigurando, mesmo se de maneira oblíqua, por via da encenação, o trabalho de autorrepresentação em que, alguns anos depois, Jorge Molder se iria concentrar. Dada a sua extensão, a exposição divide-se em duas partes consecutivas, podendo cada uma delas funcionar como uma exposição em si mesma.

Antologia das esculturas de parede de Aidan Duffy
A curta carreira do artista escocês Aidan Duffy (Glasgow, 1995) tem-se processado sobretudo na órbita do mundo da arte em Londres, cidade onde vive e trabalha, e onde fez os seus estudos artísticos. Aidan Duffy combina, de modo eminentemente intuitivo, objetos (ou partes de objetos) e materiais muito diversos, para criar assemblagens escultóricas de grande intensidade expressiva e apurado sentido de composição. O seu processo criativo tem início antes, por vezes muito antes, da produção material de uma determinada obra, na relação com os objetos que vai reunindo no seu ateliê, alguns descartados e encontrados na rua, outros comprados em leilões na internet ou em lojas de beneficência, outros ainda oferecidos por amigos e familiares. 

É extraordinária, e contraintuitiva, a sua capacidade para conjugar num todo harmonioso, não isento de sentido decorativo, coisas que não parecem combinar entre si. Como ele diz, “[tem] de haver acima de tudo um certo equilíbrio no que toca à forma, à textura e à cor.” As suas esculturas ganham um impressivo sentido antropomórfico pelo modo como, para citar novamente o artista, corporizam a expressão ou representação de certos estados emocionais e psicológicos “através da cor, do tom, ou mesmo do ritmo e do movimento”. Esta exposição, a primeira de Aidan Duffy num centro de arte, reúne uma ampla seleção das suas esculturas de parede, tendo estimulado a produção de todo um conjunto de novas peças, podendo ser vista como uma breve (e auspiciosa) antologia do seu trabalho.

Nova configuração expositiva da coleção de José de Guimarães
 O artista José de Guimarães (Guimarães, 1939) tem vindo a reunir, desde há mais de quatro décadas, uma coleção muito significativa de artefactos provenientes de diferentes culturas da África central e ocidental, e adquiridos no mercado europeu especializado na sua comercialização. O seu fascínio por esse tipo de objetos despertou no Museu de Angola, em 1967, pouco tempo depois de ter chegado a Luanda para cumprir o serviço militar. Esse acontecimento iniciático haveria de deixar impressas na sua obra marcas indeléveis e que perduram até hoje. Desde muito cedo, a sua paixão de colecionador fez-se acompanhar, e foi sendo alimentada, pela contínua aquisição de conhecimento através da visita a museus etnográficos de todo o mundo e de leituras acerca desses objetos e das culturas de onde são originários. 

Uma parte da sua vastíssima coleção de arte tradicional africana, que atualmente já ultrapassa os 3000 itens, encontra-se depositada no CIAJG, em cujo programa expositivo lhe foi conferido, desde o início, lugar de especial relevo. Ao longo dos anos, essas peças foram sendo mostradas ao lado de numerosas obras de José de Guimarães, de diferentes períodos, assim como de itens das suas coleções de arte antiga chinesa e de arte pré-colombiana (dos territórios atualmente do México, do Perú, da Guatemala e da Costa Rica), que o artista confiou igualmente ao CIAJG. O núcleo de arte tradicional africana que integra o acervo do CIAJG, complementado por alguns empréstimos significativos de José de Guimarães, é agora apresentado de forma autónoma, e numa articulação muito diferente.

A colocar na sua agenda cultural, a norte. •

+ CIAJG
© Jorge Molder

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