Uma divisão que subtrai

’18 Buracos para o Paraíso’, de João Nuno Pinto |
DA VAGA DE SALA – Especial IndieLisboa

Aquela entrada de Margarida Marinho ao volante do carro, de óculos de sol no rosto, a meter-nos pelo filme adentro, até que de repente embate em algo no caminho, transportou-me no imediato para  A Mulher sem Cabeça’  (2008), de Lucrecia MartelDe João Nuno Pinto’18 Buracos para o Paraíso’ (2025) esgotou o auditório Rui Emílio Vilar (Culturgest), esta quarta-feira à noite no IndieLisboa. O filme, com produção portuguesa, italiana e argentina, já estreou em festivais lá fora, inclusive já teve exibição comercial em Itália, e em Junho chegará às salas em Portugal. O carro que embateu em algo dirigia-se para uma herdade alentejana onde uma numerosa família se reúne à volta de uma mesa e de uma piscina; seguimos no imaginário do universo marteliano, agora remetidos para  ‘O Pântano’   (2001) – uma verdadeira obra-prima, pelo que é prudente salvaguardar sempre algumas distâncias face a tal preciosidade -,  e se dermos um salto até ao final de ’18 Buracos para o Paraíso’ não me parece nada descabido pensarmos ainda em ‘Nossa Terra’  (2025) – a mais recente longa-metragem de Martel -, quando se dá uma alternância muito bem conseguida entre a cena em slow motion dos protagonistas e de todos os outros, que se juntam entretanto na sala da casa, com as imagens dos quadros nas paredes, revestidos de pinturas que remetem para o colonialismo, com as armas dos colonos apontadas aos indígenas algures numa terra – poderia ser na província argentina de Tucumán, com a comunidade indígena Chushagasta. Mas, entre as películas de Martel, é efetivamente para ‘O Pântano’ que o filme português  mais nos remete, e diria que também para o belíssimo ‘Domingo’ (2018), dos brasileiros Fellipe Barbosa e Clara Linhart, muito influenciado pela guru Martel –  ainda poderíamos juntar neste comprimento de onda ‘O Verão do Skylab’ (2011), de Julie Delpy, ou ‘Festa em Família’ (2018), de Cédric Kahn. Todavia, o fracionamento que João Nuno Pinto decide introduzir em ’18 Buracos para o Paraíso’, dividindo-o em três partes, sob três perspetivas, a partir de três mulheres, com três ângulos da história no mesmo tempo e espaço, subtrai  ao filme homogeneidade e fluidez, afastando-se do caos natural em que prometia mergulhar, privilegiando uma arrumação metódica da narrativa.

Martel é uma autêntica maestra a deixar as histórias acontecerem a partir de aglomerados de pessoas, de famílias e grupos numerosos em que nunca se sabe bem – nem se precisa de saber – quem é quem; mais do que a personagem em si, e a obtenção de uma narrativa guiada ou ordenada, Martel dá efetiva primazia às inúmeras nano e micro-relações que vão acontecendo entre pessoas, sob gestos, olhares e ruídos, em camadas e subcamadas. Lembremo-nos de ‘O Pântano’, naquela grande casa de campo, com piscina – ainda que com água bem bolorenta -, de uma família burguesa decadente, um pouquinho à imagem da família que vemos em ’18 Buracos para o Paraíso’, observamos, sempre com tempo e espaço, um sem-número de conexões, interações: dos primos (crianças) mais pequenos; dos primos adolescentes; dos primos já jovens; de todos os primos juntos; da jovem filha da patroa com a empregada da mesma idade; de Mecha (a matriarca) com as empregadas a quem chama de índias; de Mecha com o marido; de Mecha com a prima; de Mecha com os filhos; do pai com os filhos; da família (quase) toda junta – é o tal caos natural que funciona organicamente e que ainda consegue expor, para reflexão, as questões de classe, de xenofobia e racismo, de sexualidade ou de fé religiosa. Em ‘Domingo’, filme brasileiro, essa gestão de caos natural num grande aglomerado de pessoas na história consegue ser, à sua maneira, bem conseguida, especialmente na forma como dilui e mescla patrões e empregados, seja no assédio sexual que o neto da patroa vai fazendo à jovem filha da empregada/caseira, seja com a omnipresença do discurso de tomada de posse de Lula da Silva a discorrer na televisão que captura a empregada, no início, e a patroa, no final.

Em ’18 Buracos para o Paraíso’ os muitos não-adultos presentes servem apenas como décor. A certa altura vemos e ouvimos uma das filhas de Catarina (Beatriz Batarda) a contestar a ideia da mãe em querer vender a herdade, largando uma ou outra tirada de contestação ambientalista, mas não foi mais do que um fogacho. A todos eles, crianças, adolescentes e jovens – irmãos e primos – resta-lhes aparecer, mas (quase) não existir. Ao contar com o portento de Beatriz Batarda e Margarida Marinho (Francisca), duas dos três irmãos herdeiros daquela quinta perdida no interior alentejano, percebe-se a tentação de lhes entregar muito do filme, inclusive uma das tais três frações ou fragmentos a cada uma delas – sob o ângulo de Francisca, a hippy chic narcisista, primeiro, e sob o ângulo de Catarina, a beta neurótica, depois. A derradeira fração é entregue a Susana (Rita Cabaço), filha da empregada/caseira de uma vida, que neste modus operandi que João Nuno Pinto criou tem toda uma pista para espraiar em linha reta o outro lado da herdade, de quem lá trabalha. Batarda e Marinho encarnam irrepreensivelmente os respetivos status, mas não me parece que ao terem uma espécie do seu próprio filme dentro do filme, isolando-as, tal tenha trazido ganhos ao todo. Por sua vez, abriu espaço para introduzir mais momentos da composição musical italiana, a mesma que na pré-sessão foi enaltecida pela nomeação para um concurso internacional de bandas sonoras no cinema. Essencialmente assistimos a excertos em que o filme está ao serviço da música, em vez do seu contrário; nos joggings solitários de Catarina pelos montes alentejanos, é absolutamente evidente esse tempo e espaço que o filme lhe serve (à música). E por falar em música, ela serve e bem o filme quando de modo diegético ecoa ‘Coisas Bonitas’ (Sara Tavares), no café da terra, embalando Susana para a dança de libertação que a prepara para assumir a tal terceira e última parte/fração do filme. Voltando a Batarda e Marinho, na verdade, quando juntas somam ainda mais: seja em despique à mesa da família, seja quando esparramadas nas cadeiras da piscina, quase como os burgueses decadentes de Martel em ‘O Pântano’, a (não) responderem com letargia e inércia à angústia de Susana, em pé, de frente para as irmãs (numa bela alternância de plongée contre-plongée), seja quando bebem medronhos juntas no café da terra, seja quando gritam uma com a outra enquanto os porcos grunhem no camião, isto à beira de estrada, num Alentejo perdido, quase texano, de fim do mundo, quente, árido, seco, que arde, de vegetação amarelecida, de bois e vacas cansados nos pastos sem erva, com o sol bem alaranjado, num horizonte vasto – tudo isto a lente da câmara de João Nuno Pinto vai captando tão bem. Para Catarina, o Alentejo vai virar Marrocos depressa, é preciso fugir. Também o  irmão delas, uma espécie de tio de Cascais, vai disparando, verbalmente, aqui ou ali sobre os imigrantes [numa clara alusão aos asiáticos que trabalham no Alentejo, essencialmente na agricultura, oriundos de Nepal, Bangadesh ou Índia] – o filme a ir ao encontro do zeitgeist daquelas bandas e não só, como sabemos.

Se ’18 Buracos para o Paraíso’ fosse um bolo diria que tem um ótimo aspeto, que é feito de bons ingredientes, mas faltou misturá-los mais e melhor, de modo a obter diluição, harmonia e a consistência devida.

’18 Buracos para o Paraíso’ (2025), de João Nuno Pinto
Visionado no IndieLisboa, na Culturgest