Assim foi o Ladies Night Fest de 11 de setembro, no MACAM, em Lisboa. O evento reuniu cinco chefs, bem como nomes reconhecidos e desconhecidos de outras vertentes da gastronomia nacional. Sem esquecer a música. Mas será que ainda faz sentido fazer um evento protagonizado por mulheres?

MACAM
“Faz muito sentido.” A resposta é prontamente dada por Nelson Marques, mentor e curador do “único festival gastronómico inteiramente feminino”, o Ladies Night Fest, que decorreu no passado dia 11 de setembro, no MACAM – Museu de Arte Contemporânea Armando Martins. O evento ficou marcado por diferentes estilos e latitudes, com as chefs Lara Figueiredo (Contemporâneo), como anfitriã, Justa Nobre (O Nobre, em Lisboa) – “foi farol para tantas chefs em Portugal” –, a luso francesa Louise Bourrat (Gancho e Mammarua, em Lisboa), a brasileira Angélica Salvador (InDiferente, no Porto) e a nigeriana Joké Bakare (Chishuru, em Londres). Célia Rodrigues levou as ostras da Neptunpearl, o restaurante Tia Alice, de Almargem do Bispo, em Sintra, esteve representado pelo leitão de Negrais, o pão de Gimonde, entre outros pães de “comer e chorar por mais”, foram degustados graças a Elisabete Ferreira, reconhecida como a “Melhor padeira do mundo”, em companhia com Joana Barrios, nome badalado na cena gastronómica atual, além de Maria Alvarez Garcia, que conquistou paladares avessos com os seus gelados artesanais da Giola. Acrescem as food trucks da Wonder Braz, com Mafalda Caldas, e de Filipa Chagas, com Ao Ataco! Some-se ainda a DJ MdM, cujas músicas acompanharam o evento no jardim e fecharam o festival no àCapela, do MACAM, após as sonoridades de Maria Vegas.
Feitas as apresentações, a questão passa pelo número de eventos centrados na arte de cozinhar, mas onde o protagonismo no feminino começa, agora, a ter algum impacto. Nelson Marques chama “tímidos” a estes avanços, até porque o universo da alta cozinha “é um espaço ainda demasiado masculino, onde as mulheres são remetidas, demasiadas vezes, à invisibilidade”.
Efetivamente, em Portugal, este tipo de iniciativas mantém a tónica no masculino e “ocasionalmente, lá aparece uma chef de pastelaria, a ver se se digere melhor a coisa”, acrescenta, e bem, o mentor do Ladies Nigth Fest. Este é um dos motivos apontados pelo próprio e que determinou a criação de uma ação conjunta centrada apenas em mulheres. Por conseguinte, este festival “é, acima de tudo, um movimento de promoção do talento feminino na gastronomia e um veículo de reflexão sobre o que condiciona essa visibilidade”.
O poder da escrita
Nelson Marques reforça a importância do papel das mulheres na culinária tradicional associada à esfera doméstica. Este legado de séculos é complementado pela profissionalização da cozinha, com registos do início da primeira metade do XVII, com o contributo do autor francês, François Pièrra de La Varenne. Por cá e também da primeira metade de 1600, há o livro “Arte de cozinha”, de Domingos Rodrigues, e um outro com o mesmo título, mas da autoria de João da Matta, do século XIX.
Ambos são destaques a somar à estreia da escrita no feminino, a qual ocorre nos anos 20 do século XX, com “Doces e cosinhados: receitas escolhidas”, de Isalita, pseudónimo de duas amigas – Maria Isabel de Sousa Campos Henriques e Angela Carvajal y Pinto Leite Telles da Silva –, e “A cosinha familiar”, da jornalista Helena de Aragão, que usava o anagrama Agarena de Leão; na década de 1930, surge “A cosinheira das cosinheiras”, de Rosa Maria (Gaspar de Almeida), que escreveu mais uma dezena de livros de receitas, entre os quais constam “100 maneiras de cozinhar sopas”, ovos aves, peixe, bacalhau, carnes, entre outros da mesma série, e outros ainda, repletos de sugestões inerentes à preparação de alimentos de forma económica.
Obra-prima de Bertha Rosa Limpo, empresária, cantora lírica e cozinheira, “O livro de Pantagruel” fez furor entre cozinheiras e cozinheiros. Sem esquecer Maria Odette Cortes Valente, cuja pena elaborou uma série de livros de receitas divididos pelas regiões de Portugal. Pelo meio, surge uma figura de culto, Maria de Lourdes Modesto, que, em 1980, viu editado o seu livro “Cozinha tradicional portuguesa”, tendo-se estreado, em 1958, na televisão, com o programa “Culinária”.
Na cozinha e não só
Livros à parte, atualmente, as mulheres estão a ganhar paulatinamente destaque no universo da gastronomia. Nelson Marques dá como exemplo o Guia Michelin: “há dois anos não havia nenhuma mulher em Portugal a liderar um restaurante com estrela Michelin. Hoje temos, felizmente, duas, mas estamos a falar de menos de 4% dos restaurantes ‘estrelados’ em Portugal.”
O mentor do Ladies Night Fest evidencia outra questão: são “quase inexistentes os casos de investidores e grandes grupos de restauração e de hotelaria que entregam as cozinhas a mulheres”, evidenciando “a falta de investimento no talento feminino, sobretudo nas grandes cidades, como Lisboa, mas também no Porto”, factor que “condiciona muito as possibilidades de mulheres liderarem projetos gastronómicos com ambição”. Portanto, ainda há um longo caminho a desbravar. Afinal, talento não falta, seja na vertente tradicional, seja na mais complexa.
Nelson Marques afasta, porém, a ideia de se tratar de uma “guerra de sexos”. O mote é homens e mulheres serem vistos lado a lado, em prol “de uma sociedade mais justa, mais igualitária e mais livre para todos”, reforça o curador do festival, que vai continuar a “dar palco ao talento feminino”, de norte a sul do país, seja a quem lidere uma cozinha, um bar, a garrafeira de um restaurante, uma padaria ou uma adega.
Passo seguinte? Pegar na agenda e marcar os próximos eventos. Comecemos pelo Gruta, no Porto, o primeiro evento deste festival itinerante, com a chef anfitriã Caroline Giandália, no dia 10 de outubro, onde vão estar Lívia Orofino (Canalha, Lisboa), Rafaela Ferreira (que até ao verão liderava o projeto do Exuberante, no Porto), Mirna Gomes (Mito, Porto) e Mila Araújo (Mila Bonjardim, Say Cheese & Co e Catiço, os três no Porto). O jantar terá Sara Godinho, do Le Monument (uma estrela Michelin), no Porto, como escanção convidada, e Carol Ribeiro (The Royal Cocktail Club, Porto) no bar. O menu (€90 por pessoa) inclui a harmonização vínica da Churchill’s, casa de vinhos do Douro e Porto liderada por Zoe Graham e pelo pai, John Graham.
A 23 de outubro, chegará a vez de Julie Marteleira, chef no Alta, na Lourinhã, receber os convidados, enquanto a 6 de novembro, o festival regressa ao Porto, mais concretamente ao Atrevo, que tem como chef Rita Magro. Em Lisboa, o dia 19 de novembro está reservado para o Zunzum Gastrobar, com a chef anfitriã Marlene Vieira, e o dia 11 de dezembro é no Lamina, com a chef Inês Azevedo a receber os convidados. “Vamos ter como convidadas internacionais três das melhores chefs de Espanha: Lucía Freitas, Begoña Rodrigo y Lydia del Olmo”, respectivamente, a 6 e 19 de novembro, e 11 de dezembro.
“Não podemos achar que isto é suficiente e que reflete a diversidade que encontramos na gastronomia e na sociedade”, diz Nelson Marques, mas pode ser considerado um bom começo, para instigar este mundo.
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© Fotografia Francisco Gomes











