Blind Zero / XX 20 Vinte…

Descartes ensina no “Discurso do Método”: começar do mais simples para atingir o mais complexo. Comecemos do zero, do ano zero e surge o receio. Não se trata de abordar uma nova banda ou álbum nacional. No horizonte, a descer umas escadas de Serralves, veteranos com 20 anos de música, palcos, banda. 20 anos que se tornam num verdadeiro master mind onde se clama por memória. E tudo se apazigua quando um, dois, três, quatro, cinco, se sentam para uma conversa acústica: estávamos sentados, com percussão ligeira de pratos que batiam no bar. Das horas de (boa) conversa, recorro às idas aulas de filosofia: o método (cronológico) será a estrutura. Sete álbuns de originais ditaram o percurso até hoje, dia em que me sento, em mesa redonda,
com a corte Blind Zero.

1994.

Nasce uma banda, a norte: Blind Zero. Não foi ontem, mas quase. Ainda se lembram do dia em que decidem “este é o nosso nome”?
Foi no dia 29 de Janeiro, de 1994, e eram quase umas 11h00! Sabemos ao pormenor. Tínhamos uma lista de nomes, mas foi o Miguel que o criou. Foi uma escolha fonética e nunca houve nenhum sentimento de arrependimento em relação ao nome. É um nome aberto, que foi feito propositadamente assim. Se disseres Blind Zero não pensas, necessariamente, numa banda rock, metal, pop… é Blind Zero.

1995.

Ano me que puxaram do “Trigger” e deram o disparo certeiro, com bala de ouro. Memória(s) viva(s) do momento em que editam o primeiro LP?
Memória de há 20 anos, volta! (risos). Há 3 memórias.
Uma, que são os concertos que levaram a gravar o disco numa sala para, aproximadamente, 200 pessoas. Para uma banda com poucos meses foi uma sensação de doidos e de ‘isto está a fazer sentido!’. Foi incrível.
Segundo, o termos conseguido trazer um produtor de renome internacional. Ainda nos lembramos de estar no aeroporto, à espera, e vermos o Ronnie Champagne a chegar. Para uma banda de miúdos: uma emoção tremenda. Foi marcante e a paciência que o senhor tinha connosco!
Terceiro, o momento em que passa pela primeira vez na rádio. Fomos chamar os nossos pais e… ‘está a passar nada, é a vossa K7’. Tivemos de abrir e mostrar-lhes que não tínhamos lá K7 nenhuma. E, no fim, aquele elogio quando acabou de passar a música.
Afinal têm memória, mentirosos.
Estamos velhotes, tens de nos puxar pela memoria e há outro momento! Quando nós decidimos parar o transito em Santa Catarina!!!
Isso é 1997… (alerta o senhor da voz).
Ah pois é! Vês, a memória. No nosso tempo… (risos).

1997.

“Redcoast” Repetem o sucesso e depois de Ronnie S. Champagne – produtor, aliam-se Michael Vail Blum – produtor, e Mark Wilder – masterização. Como consegue, uma banda nacional, chegar a estes senhores nos idos 1990?
Na altura, a indústria tinha dinheiro e era possível convencê-los, não só pagando pouco, mas também porque para eles era a experiência ultramarina. Nunca tinham vindo a Portugal e ouviam o som de uma banda portuguesa que gostavam. Eram todos grandes nomes da indústria da música americana. Para eles era uma curiosidade e para nós uma dádiva, e na altura achámos que devia ser um produtor americano. Convencia-se como? Dizendo ‘venham cá passar uma temporada e conhecer uma banda que vocês gostam’. Claro que passou, também, pela nossa atitude. Apesar de muito jovens, sabíamos o que queríamos fazer, podia ser o caminho certo ou errado, mas era aquele que queríamos. Não tínhamos medo de arriscar e ligar… Sim, não esquecer que tinha de ser por telefone, não tínhamos internet.

2000.

É “One Silent Accident”, one loud LP. Nome firmado. Mudança de século e em 20 anos na cena musical, quem convidariam para tocar, convosco, uma música deste disco?
Os ídolos nunca mudam, podemos desiludir-nos com eles, mas… temos a discografia completa de vários artistas e há discos que são discutíveis, outros que são brilhantes. Os músicos que gostávamos na altura continuam a ser os mesmos. Se chamássemos alguém, para uma música, que teria de ser bem escolhida, teria de ser o Bruce Springsteen ou o Tom Waits, para a “Hell Around”.
Alguma vez tentaram?
Não. (risos). O Tom Waits nunca vem a Portugal, quanto mais vir tocar connosco. Bom, na verdade tivemos várias colaborações no primeiro disco.

2003.

Ano de “Way To Bleed Your Lover”. Ano MTV/ EMA para Best Portuguese Act (primeira banda a ganhar o prémio). Ano de grande proximidade com o público na “Tour de Force”. E no fim do ano, álbum considerado disco do ano por parte da imprensa especializada e eleitos melhor Banda, ao vivo, 2003. Ano pleno. Até que ponto teve, a MTV, um papel importante na história dos Blind Zero?
O prémio trouxe algum reconhecimento e algum afago ao ego. A MTV, na altura, estava a abrir em Portugal e todo o conjunto teve essa significância que nos marcou bastante. O que sobra disso, além de alguns concertos, foi o termos conhecido pessoas para mostrar a nossa música lá fora, o disco editado em 12 ou 15 países… foi muito interessante. Entretanto a MTV transformou-se e nós idem, sem que houvesse uma relação direta entre MTV e Blind Zero. Foi mesmo um ano muito bom, com MTV e a “Tour de Force” que foi a nossa última coisa verdadeiramente infanto-juvenil, uma tournée por todas as capitais de distrito, em todo o tipo de condições. Foram 21 concertos em 30 dias! Depois, a MTV especializou-se em algumas coisas e nós continuamos especializados só em música, (risos). Outra nota importante, foi o 1º ano que trabalhamos com um produtor português, o Mário Barreiros, e convidamos para o disco o Jorge Palma e o Dana Colley (ex-Morphine).

2004.

Mês de Março: “Concerto Especial 10 anos”. Irrepetível, muitos convidados, temas únicos. A pergunta, no fim.

2005.

Considerado um dos vossos melhores álbuns “The Night Before a New Day”, tendo “Shine On” sido a primeira música de uma banda portuguesa a ser raptada pela Playstation para publicitar um novo jogo – “Tekken 5”. Playstation & Blind Zero?
Nós levávamos a Playstation para os nossos concertos e gostávamos do jogo. Espera, não foi o 3?
Não. Foi o 5…
A memória… A ligação ao produto, o estarmos associados a um produto, não nos faz mossa pois a música não foi criada de propósito para o jogo e quando assim é, não nos faz impressão, nenhuma. Quando as coisas são nossas e depois são apropriadas por marcas, não faz confusão desde que haja, claro, o nosso consentimento. E, se não falha, de novo, a memória, recebemos os jogos e uma PS. Nós crescemos a jogar jogos! (risos). “Shine On” marcou-nos muito, foi uma música muito bem recebida, com um videoclipe único.

2010.

Com o single “Slow Time Love” houve uma pausa até lançarem “Luna Park”. Um álbum que foi tocado na Musicbox, Casa da Música, reabertura do HardClub, em suspenso a 10m do chão, num autocarro pelas ruas do Porto, sem esquecer o acústico. Vocês já pisaram diversos tipos de palco. Qual foi o inesquecível?
Primeiro, nós mentimos. Dizemos às pessoas que é acústico, mas o que queremos dizer é sentados, (risos). Tem de ser o suspensos do chão. Foi um super concerto, que não se voltou a repetir, nem sabemos se algum dia alguém irá repetir. Nunca imaginamos que conseguíssemos tocar a 10m do chão, e que se conseguisse cantar, literalmente, virado ao contrário. Nós só tínhamos duas informações: quando é que íamos subir, no inicio do concerto, e quando íamos descer, no fim do concerto. Sobre o durante, não sabíamos nada, mas fizemos alguma coreografia e ah!, o caricato. Nós tínhamos nos pedais a dinâmica da distorção e as mudanças de tom no refrão, onde deveríamos tocar nos pedais e os pedais estavam a 7m de nós, lá em baixo, logo… o som ficou sem pedais. Não esquecendo o Miguel que se balançava, de um lado para o outro, na “Hanging Wall”. No dia a seguir, o engenheiro perguntava ‘mas o que é que tu fizeste, Miguel?’. Ele tinha faltado a essa parte dos ensaios e o balançar mexia com estrutura. O Miguel podia fazer muita coisa, mas não aquilo. A coisa podia ter corrido mal. Porém, não correu.

2013.

“Kill Drama”, último trabalho editado. Sem caírem na escrita panfleto não deixam de se expressarem sobre a vossa envolvente atual, basta ver a dupla leitura em “Down To The Wolves”: relação entre duas pessoas ou entre o homem e o seu pais. Num flashback, como vêem, neste percurso de 20 anos, a música hoje, na sua globalidade?
É música delete. Deixas de ouvir uma música e fazes delete. Estamos a viver uma geração de colecionismo, de arquivadores de música. Todos têm tudo sobre tudo, nem sabem direito o que têm, não dão valor. A web tornou a música descarregável e descartável, perdeu uma certa nobreza. Ainda te lembras do primeiro disco que compraste, mas não te lembras da primeira coisa que ouviste no Spotify. Não ouves direito um disco, estás a ouvir aquilo e a pensar no que vais ouvir a seguir, não repetes. O ritual de comprar um vinil, de o ouvir sem parar durante a primeira semana… perdeu-se.
Somos felizes por não termos nascido nesta época e sim numa época em que a música era objeto de culto, de quase peregrinação. Era a religião que nós não tínhamos. A religião do vinil, de gravar em fita, das rádios piratas, das tribos… e isso definia tanto a música. Essa definição era tão mais interessante do que agora. Lá está, começámos noutro tempo e isso torna-nos felizes. Neste momento, tu vês sonoridades interessantes em muitos sítios, tudo óptimo. Só que houve uma banalização tão grande, muitos projetos poucas bandas, e começa a ser tão confuso que o que aparece nem tem tempo de maturar, é exposta e pronto já está. Demasiada oferta, demasiado acessível, perdeu um certo valor e interesse. A arte globalizou-se e ponto final. Mas ainda há muito boa música, claro. •

2014.

“Concerto Especial 20 anos”. Onde e quando?
É este ano (risada geral), mas não há agenda definida. Há um projecto. Fazemos anos dia 29 de Janeiro, mas não festejamos tudo no dia, talvez tomemos um café. Vamos fazer festa e vamos obrigar-nos a comemorar os 20 anos, com música e com bolo!  •

+ www.blindzero.pt
Fotografia: Carlos Gomes.
Blind Zero: Miguel Guedes, Vasco Espinheira, Pedro Guedes, Nuxo Espinheira, Bruno Macedo.
Espaço: Fundação de Serralves, Porto.