Dois livros: “O Enredo Conjugal” e “Hepta”

No primeiro título, regressamos aos anos 80 e à cena estudantil, para descobrirmos três personagens: Madeleine, Leonard e Mitchell; no segundo, vemo-nos confrontado com um mistério dentro das muralhas da vila de Óbidos. Por onde começar?

Jeffrey Eugenides, Prémio Pulitzer para a Ficção em 2003, já nos havia oferecidos dois títulos curiosos – “As Virgens Suicidas”, que deu origem ao filme homónimo de Sofia Coppola, em 1999; e “Middlesex”, que chegou a ser proposto para o Great American Novel, em 2002. Agora, este “The Marriage Plot”, no original, acaba por revelar-se melhor do que à partida poderíamos supor. Se, no início, somos equivocamente levados a pensar que o centro de “O Enredo Conjugal” é um triângulo amoroso, facilmente descobrimos todo um recurso a diversas obras literárias e até a uma busca interior que fazem com que seja um livro a descobrir com tempo. A história é simples: Madeleine, estudante de Estudos Ingleses, é uma jovem mulher que está apaixonada pelo carismático e atormentado Leonard, estudante de Biologia; e que mantém ainda uma amizade curiosa com o estudante de Teologia, o místico Mitchell, que ama dolorosamente Madeleine. E é através da personagem de Mitchell que entramos mais na essência da juventude estudantil: a de querer mudar o mundo e encontrar um significado para vida.

Se a personagem de Madeleine é perfeitamente ‘normal’, e vive romanticamente iludida de que o amor é capaz de mudar as pessoas, aplicando essa premissa ao máximo na relação com a personagem de Leonard, o carismático estudante por quem as raparigas suspiram; é em Mitchell que encontramos a personagem mais interessante e rica deste enredo. Na tentativa de encontrar o significado das várias religiões, a começar na sua, ortodoxa grega, Mitchell oferece-nos ‘discussões’ sobre a católica, a judaica, chegando até ao budismo. Conhecemos Mitchell na faculdade mas o jovem leva-nos a uma viagem à Índia, passando antes pela velha Europa e norte de África, e durante esta volta ao mundo, Mitchell tem apenas uma intenção: descobrir o sentido da vida e as tramas das suas diferentes relações, vivendo-a da forma mais intensa de que é capaz. As referências literárias das três personagens são várias: as de Madeleiene cruzam-se com Edith Wharton, Henry James, Jane Austen, irmãs Brontë, Charles Dickens e, mais tarde, faz de “Fragmentos de um Discurso Amoroso”, de Roland Barthes a sua bíblia; e as de Leonard referem-se a Jacques Derrida, Jonathan Culler, Humberto Eco ou Peter Handke. Mas as de Mitchell, por outro lado, deixam o amor romântico e as dúvidas existenciais de parte, para entrar nos autores ligados à religião, como John Milton, George Herbert, Thomas Merton, Tolstoi, Santo Agostinho, São João da Cruz e Mestre Eckhart.
“O Enredo Conjugal”, que vai buscar o seu nome ao facto de o casamento e as suas nuances sociais e políticas serem o centro dos romances clássicos, é um regresso a este cenário: três pessoas que procuram a ‘normalidade’, tentando encontrar o seu lugar no mundo, considerando que este passa necessariamente pelos afetos e pela ligação com o outro.

“O Enredo Conjugal” / 500 páginas / €24,90
+ Dom Quixote

“Hepta” é o primeiro romance de Alexandre de Sousa que antes havia já publicado em co-autoria, três livros de poesia. O livro é um retrato fiel da vila de Óbidos, com o seu encruzilhado medieval, as suas gentes, as suas ruas pequenas que desaguam noutras ruas ou em praças.

Quem conhece bem a pequena vila, reconhece os lugares descritos; quem não a conhece, encontra aqui um guia perfeito. Mas dentro deste ‘mapa’, há a história de um mistério. Um mistério que começa quando o pai do protagonista do livro, Gabriel, ajuda um velho mestre pintor italiano a restaurar os painéis da igreja de santa Maria de Óbidos, ainda na terceira década do séc. XX. Durante o restauro, uns escritos estranhos, mais estranhos para o jovem Faustino, que não sabia ler nem escrever, parecem entranhar-se pelos seus olhos adentro e o jovem só descansa quando os consegue reproduzir, a custo, num papel. É este papel que, na sua morte, vai parar às mãos do filho, Gabriel, que parece apostado em descobrir o enigma de tais palavras. Mas o centro desta história acaba por ser dominado por Juliana, uma professora de música, cujo destino acaba cruzado pelo de Gabriel e que vai revelar-se central na descoberta deste segredo. Os mistérios religiosos, as palavras sagradas dos Evangelhos e a simbologia do Latim encontram-se enrodilhados num caminho que conduz a um nascimento e que é o símbolo máximo do amor que une as duas personagens. À medida que a trama decorre, vamos descobrindo mais histórias ocultas e esse é um dos pontos mais fortes deste título. Mas o uso recorrente a uma linguagem mais poética do que factual, acaba por distrair-nos da real missão de “Hepta”, que seria a de nos manter focados na história, em vez de nos vários tons do pôr-do-sol. Um livro que a vale descobrir e que se encontra à venda na Ler Devagar , em Lisboa, na Fnac e na Bertrand . •

“Hepta” / 344 páginas / €16,50 
Óbidos Vila Literária

E se Óbidos serve de cenário de fundo a esta história, porque não aproveitar para seguir os passos das personagens e passar um fim de semana naquela vila? Para descansar, no final de um dia de descoberta, pare no Hotel Rio de Prado e deixe-se envolver pela tranquilidade da paisagem da zona.

© Fotografia: João Pedro Rato