Rio do Prado / Um hotel no meio da natureza

A receção deixa antever a boa disposição dos anfitriões. Mesmo nos dias pincelados de cinza claro surpreendidos por um sol decidido a dar um ar de sua graça numa paisagem agraciada pela natureza, que desponta à viva força pelo silêncio do campo. Um regresso às origens na costa oeste, tão perto da Lagoa de Óbidos, onde a pegada ecológica conta, e muito. Eis o Rio do Prado.

Telmo (Faria) e Marta (Garcia) tiveram uma ideia. Muitas ideias. E todas os acompanham no presente. Resultado: Um hotel ecológico, integrado na paisagem. Confirma-se! Nós diríamos mais: “enterrado”. Os quartos, cujos terraços cobertos de terra e de um imensidão de verde que permite preservar o calor, perecem ter sido escavados em pequenos montes abertos pela fachada principal envidraçada de uma ponta à outra. Lá dentro, nos aposentos espaçosos sustentados pelo betão, o cenário acolhedor prima pela iluminação ténue e pelo conforto, sem esquecer a lareira que compõe o cenário romântico.
A decoração responde ao bom gosto versado pela atenção ao detalhe, numa linguagem cruzada entre a subtileza do design e a reutilização de materiais que ganharam uma nova vida nas paredes e no mobiliário desenhado pelos mentores deste eco resort a escassos quilómetros de Óbidos. Na parede do fundo, os espelhos emoldurados em sarrafos de madeira toscos conferem um toque divertido; e nem mesmo a instalação que se assemelha às portadas de uma janela, iludindo o olhar, passa despercebida. Atrás do leito da cama, separada por uma parede de vidro escura, a banheira ergonómica convida a um banho de imersão logo no primeiro dia.

A subtileza do traço na paisagem

A arquitetura, assinada pelo arquiteto Jorge Sousa Santos, protagoniza o espaço carregado de verde, sem interferências na paisagem campestre. O olhar desvia constantemente para o edifício “espetado” na terra. Uma espécie de jardim suspenso simetricamente alinhado pela piscina maior. No interior aguarda um espaço mutante, reservado ora para conferências, ora uma sala de lazer, ora uma suite nupcial decorada a preceito pelas mãos de Marta e de Telmo. E um Spa, o Black Spa, dentro de paredes negras, onde a sauna e o banho turco proporcionam momentos de relaxamento num refúgio ornamentado por detalhes ligados à terra, bem longe da cidade. Aos apreciadores das massagens, e porque os dias frios assim obrigam, recomenda-se que se mantenham nos quartos, onde o ritual do corpo que acalenta a alma acontece. Só um aviso: a marcação deve ser feita aquando da reserva.
Lá fora, a composição de edifícios é composta ainda por uma estufa. Uma estrutura de ferro e vidro que deixa antever o verde dos vegetais dispostos em vasos alinhados em prateleiras de madeira penduradas nas paredes transparentes deste espaço, palco de apresentações e de copos de água que celebram os laços do matrimónio ou de sessões de ioga. As mesmas, mas auxiliadas com pranchas de paddle, que acontecem na piscina quando o calor convida a um mergulho.

Senhoras e senhores, a Maria Batata

O lusco fusco entra em cena sem pedir licença, num final de tarde que obriga ao acender da lareira, um ritual muito comum nas noites frias do Rio do Prado. Mesmo no jardim, onde as lareiras desenhadas pelo casal testemunham o ar acolhedor do hotel e a hospitalidade dos anfitriões, que convidam os hóspedes a beber um vinho, tinto de preferência nesta altura do ano, acompanhado de conversas soltas e divertidas em redor de uma fogueira.
Voltemos para perto da lareira suspensa da biblioteca que é, em simultâneo, sala de estar. Um objeto de design assinado por Dominique Imbert, rodeado por cadeiras feitas a partir de madeira utilizada na cofragem, que convidam à leitura de livros e revistas dispostas nas prateleiras retangulares “escavadas” na parede pintada de amarelo torrado, harmonizado com o tom do betão do edifício convexo que acolhe o Maria Batata.

O restaurante que homenageia, assim, a mulher do campo da região oeste. A viúva que se entrega de corpo e alma à agricultura, o principal sustento da família. A mulher que põe a mão na massa. Tal como na cozinha do restaurante, de portas abertas para quem está de passagem, onde a ementa despretensiosa é dominada pelas tapas. É aqui que Aida põe a mão na massa para fazer o pão que acompanha as lascas de bacalhau com azeite e alho, a morcela com maçã e cebola caramelizada, as amêijoas à Bulhão Pato, os rojões fritos em marinada ou as tapas de cavalinha com pimentos assados, um excelente pretexto para entrar no universo dos sabores, desta feita, da autoria de Rosa, que caprichou com um pudim de leite condensado para rematar o repasto da noite harmonizado por um néctar de Baco de Óbidos brindado por uma conversa animada.

Siga esta pegada

“Há muita simplicidade nas formas hign tech, diz Telmo quando descreve o interior do edifício que alberga a receção, o restaurante e a biblioteca que é sala de estar com um bar de gin. Uma coleção considerável de garrafas apreciadas pelos gin lovers, tão em voga nos últimos tempos. Assim como o cruzamento de peças de design, como os candeeiros do designer alemão Christian Dell, com as madeiras de cofragem transformadas em mesas, cadeiras, candeeiros. A decoração criativa é promovida numa linha de produção feita para hóspedes, a Rio do Prado Design cujos mentores são, claro está, Telmo e Marta. É dentro deste contexto que está pensado o EcoLab, a caixa envidraçada junto ao estacionamento. A decoração criativa com os paus de eucalipto que compõem as portadas dos quartos e revestem a parede defronte às portas do terraço do Maria Batata testemunha essa linguagem simples, com uma relação forte com a natureza. Assim é o hotel Rio do Prado, “um lugar que foge à ideia de verticalidade, um apelo à terra, uma reinterpretação do conceito hoteleiro”, de um turismo sustentável. “Temos uma estação de tratamento de águas cinzentas” que, depois é reaproveitada, no sentido de minimizar a pegada carbónica dos hóspedes, cujos respetivos dados dos gastos de eletricidade e água “ficam alojados no servidor através de medidores e sensores”.

Vamos à horta

Os mimos são uma constante. A juntar ao copo de vinho partilhado com conversas soltas, Telmo e Marta gostam de surpreender os casais de hóspedes que têm o hotel por sua conta com a primeira refeição do dia servida no quarto. Um gesto que merece uma atenção especial, sobretudo nos dias mais cinzentos que obrigam a preguiçar por mais umas horas. A juntar a croissants, pães, fruta, queijo, fiambre, doce, bolo, sumo de laranja natural, café e leite estão os pastéis de nata quentinhos!
A variedade amplia na diversidade quando o pequeno almoço é servido no Maria Batata, onde a disposição dita a sua graça e criatividade sem limites de Cátia, que nos deu os bons dias na manhã de um domingo com casa cheia. Os pastéis de nata quentes aguardam-nos. Pedimos chá de chocolate e hortelã pimenta – biológico –, o qual pode ser adquirido pelos hóspedes, assim como os cabazes da mercearia biológica do Rio do Prado compostos pelos produtos hortícolas da horta e da estufa, onde os hóspedes podem colher o que pretendem para uma salada, em particular no verão, altura do ano em que a natureza é mais generosa.

Sobre a horta mais dizemos que há workshops de sementeiras para quem cultiva o gosto pela agricultura, além de que as crianças podem também pôr a mão da massa do pão. Mas há mais. Quando o clima o permite, a Lagoa de Óbidos é ideal para paddle e canoagem, enquanto as margens ficam reservadas aos passeios de bicicleta seguidos de um piquenique. Os trilhos ficam para o BTT, o surf é “levado” para a praia e a escalada para onde a Associação de Espeleologia de Óbidos achar mais adequado. Boas férias! •

+ www.riodoprado.pt
© Fotografia: João Pedro Rato

Agradecemos o apoio da BMW (i3) e da Canon (PowerShot G16).

 

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