Novo álbum: “Lu-pu-i-pi-sa-pa” / Luísa Sobral

Não esqueça tudo o que ouviu de Luísa Sobral, até hoje. Todavia, prepare-se para uma surpresa. É a Luísa, sem dúvidas, mas num registo que vai prender dos miúdos aos graúdos, em português.

Este mês de novembro é mês de “Lu-pu-i-pi-sa-pa”, o novo trabalho de Luísa Sobral. Chegado até nós como um álbum que não sendo propriamente infantil era um álbum para ser ouvido pela família, toda junta, deixou-nos o sobrolho elevado… o infantil para todos foi algo que soou com alguma estranheza nos nossos ouvidos. Que nos traria Luísa na bagagem? Com o primeiro single “João” as dúvidas começaram a dissipar-se, mas era necessário ter o projecto na mão, o som no ouvido.

Tudo começa com “Não me deixes à porta da escola” e tudo fica claro. É um trabalho feito com os pés nas memórias da infância vivida, com o coração num universo dos mais pequenos que, graúdos, ouvimos a lembrar o que vivemos e o que os mais pequenos ainda vivem e cantam. “(…) Podes ficar do outro lado da rua / onde ninguém te vê / E assim pensam que vim de autocarro / ou até quem sabe a pé“, lembra-vos algo das idas para a escola? Luísa Sobral dá-nos um sonho dela, um álbum infantil sem ser blasé, sem ser mais um disco melodicamente pouco rico, característica da maior parte dos discos infantis que não exploram o instrumental e, na lírica, são pouco ambiciosos. “Este álbum fala sobre episódios da minha infância, alguns vividos por mim, outros por amigos ou crianças da minha escola. Todas as canções têm uma imagem associada: O recreio, a hora de almoço, a porta da escola, o campo de futebol onde jogávamos ao “mata”, e várias outras que me ficaram na memória“, explica Luísa a propósito de “Lu-Pu-I-Pi-Sa-Pa”. De um “Computador” saltamos para o tal “João“… Ah! O “João”! Aquele miúdo mais giro da escola por quem todas as meninas têm um fraquinho arrebatador e que nunca olha para elas. Bem-vindos ao tempo d”A língua dos pês” em que o objetivo da semana era cantar, sem enganar “o-po car-par-los-pos pe-pe-diu-piu / empem tom-pom de desafio” e onde as flautas de bisel entravam afinadas – aquelas que todos aprendemos a tocar e que tão adoradas eram por nossos pais. É um trabalho que, a cada nota e letra, vamos entendendo a riqueza e consistência do corpo instrumental e lírico (bem esgalhado) com fagote, oboé, tuba, banjo, violinos, trombone… o Luís Figueiredo (co-produtor do disco) no piano, o João Hasselberg no contrabaixo e o Carlos Miguel Antunes na bateria, um trabalho que fazia muita falta no universo das sonoridades infantis, de qualidade definida (não esquecendo o excepcional José Barata Moura que é, ainda hoje, referência no mundo infantil). É uma Luísa Sobral não nova, mas sim diferente.

É um disco díspar pelas narrativas (em português), pelos contextos e que tem na composição a mesma segurança e bom gosto, nos arranjos e harmonias, de trabalhos anteriores com que Luísa nos brindou. “Queria escrever canções para os pais ouvirem com os filhos. Para ser o disco que toca no carro a caminho da escola, enquanto as crianças ainda estão rabugentas e os pais meio ensonados. Para ser o cd das viagens de férias e cantarem todos juntos quando já estão entediados por parecer que a viagem não chega ao fim”, continua. “Os discos que ouvi nestas situações marcaram-me bastante. Não tenho essa prepotência. Só gostava que fosse um disco para as famílias ouvirem juntas.” Aborda temas sensíveis, difíceis de explicar, como “Onde foi o avô?” uma música com uma lírica perfeita, doce e tão simples; tem rimas que em miúdos tanto gostamos de fazer, que lembram os menos ajustados porque “Todos gozam” e há espaço para a “Ana” que “já não quer ser minha amiga“; depois, o melhor colo do mundo: o da “Mãe” – “Eu gosto de ti / mais do que o céu / podia não ver as estrelas / nem andar de avião / mas deixar de gostar é que não“, alguém ousa discordar destas palavras?; com o tema “Natal mais uma vez” – não há imaginário infantil sem os desejos do Natal (que está à porta) – temos o leque de temas imprescindíveis a este tipo de alinhamento quase completo; “O meu cão” quase no desfecho mostra que não foi esquecido o comparsa de destemidas aventuras (e partilha dos lanches) e, porque sonhamos em ser grandes, “Quarto de lua” para que possamos voar e sonhar.

A um seguro projeto musical infantil Luísa junta um trabalho gráfico e ilustração de Catarina Sobral que tornam o conjunto perfeito, sem peças soltas ou desconexas. É um álbum que graúdos não devem ouvir sozinhos, mas sim acompanhados dos seus miúdos. É uma viagem na música que os mais pequenos podem querer ouvir sozinhos, eles mandam, pois “Lu-pu-i-pi-sa-pa” é, essencialmente, direcionado para eles. No carro ou em casa, deixe tocar “eu-peu não-pão he-pe-si-pi-tei-pei” sem vergonhas e sem medos. Bons sons nacionais e, com certeza, uma boa prenda sonora para o sapatinho da pequenada!  •

+ Luísa Sobral

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