Gabriel Loureiro propõe-se reequacionar, revalorizar e redesenhar objectos indesejáveis. Como? É simples. O ilustrador de 31 anos pôs, literalmente, mãos à obra e transformou os ‘monos’ que todos tivemos e temos (ou teremos algum dia) em novas peças de mobiliário e design. O projecto REPA nasceu em Aveiro mas quer chegar longe… ‘Live in your world, plan in ours.’
A ideia original era recuperar madeiras de paletes (as ditas repas) mas a criatividade de Gabriel Loureiro exigiu mais ao seu autor e agora todo o tipo de material serve como matéria-prima. Madeira, ferro, vidro, acrílico, cortiça e outros elementos podem ser recuperados e trabalhados para (re)criar peças de mobiliário e decoração recicladas. A mudança no plano inicial surgiu, naturalmente, depois de uma mera observação do quotidiano. “A maior parte dos objectos indesejados, como ´monos’, cadeiras, estantes, candeeiros e outros, não podem ser abandonados na rua, junto ao caixote do lixo, sob pena de multa. Têm obrigatoriamente de ser entregues a associações, que raramente os querem, ou destruídos e largados no ecoponto municipal”, contou quem viu nisso uma oportunidade. “Futuramente, a REPA pretende expandir-se através da criação de uma estrutura que possa recolher e recuperar ‘monos’. Os novos objectos serão (re)vendidos a preços acessíveis, permitindo a revalorização daquilo a que chamamos lixo”, revelou.
Sair do papel e passar à prática foi (e tem sido) mais complicado do que o esperado. É que arranjar ‘lixo’ não é tão fácil, como se pode pensar. “Foram requeridos apoios a diversas instituições públicas para ter acesso a materiais e artigos que fossem passíveis de ser recuperados. Recebi apenas uma resposta e foi negativa”, confessa o ilustrador, que já pensou numa alternativa: “Actualmente, vamos apostar na produção seriada de algumas peças únicas com o objectivo de conseguir verbas para prosseguir com a actividade de recuperação”.
O artista e a obra
“Uma marca eco-friendly que pretende, através da criatividade, recuperar peças e materiais que de outra forma seriam considerados lixo”. A definição, simples, é dada pelo próprio autor. A reciclagem e o redesign são as bases de sustento para a afirmação e crescimento no mercado. Assim sendo, criatividade e inspiração são fundamentais mas não bastam por si só neste projecto. Gabriel é o primeiro a reconhecê-lo e garante que se ‘perde’ muito tempo à procura da melhor solução: “É um processo trabalhoso que envolve muita investigação e pesquisa em livros, na internet, para poder chegar à construção das peças idealizadas. Porém, com vontade e dedicação, as peças foram e vão surgindo, tendo sempre como mote o carácter único de cada uma ou do espaço construído”. Sem preferências no que diz respeito aos materiais, tudo se resume às formas e àquilo que elas suscitam. Talvez por isso, não seja difícil eleger a sua obra favorita: “A guitarra sound system”, porque é algo lúdico, funcional e atractivo. Para além disso, é uma das peças em que a REPA está a apostar, com o objectivo de ser produzida em série. “
Quanto e onde
E quanto custa afinal uma peça REPA? “Os valores variam. São calculados em função do tempo gasto na execução das peças e da criatividade envolvida, tendo presente que algumas ferragens e outros materiais podem ter de ser comprados novos de forma a criar a peça pretendida”. À venda no site e em espaços de exposição pontuais, neste momento apenas em Aveiro, o interesse e a curiosidade pela obra de Gabriel têm-se feito sentir. A receptividade do público tem sido boa, ainda que, para o criador, sejam necessárias algumas mudanças na forma de pensar da sociedade. “Todas as críticas se revelaram positivas, apesar do estigma associado à actividade de recuperação de materiais de outra forma considerados lixo.”
RERA / tipTYPE / EGGS
Entre o REPA e o envio de currículos para encontrar emprego na sua área, Gabriel ainda arranjou tempo para se dedicar a outros projectos profissionais. Nada mais, nada menos do que 3. Vamos às explicações: “O RERA é o mais antigo e representa o meu trabalho enquanto ilustrador independente. O tipTYPE surge associado a todos os meus trabalhos enquanto designer gráfico”. Não satisfeito, ainda criou a marca EGGS. “Surge associada à recuperação e redesign de contentores marítimos, no sentido de os converter em habitações, lojas e outros espaços. Por enquanto, só é possível ver alguns espaços em 3d, no site, mas procuramos parceiros para ver uma das suas estruturas realizadas”.