“Ocupação Tropicana”. Numa casa perto de si

Neste ano de 2015, durante os meses de Março e Maio, nos dias 22 e 23, respectivamente, decorreu em Coimbra aquilo que se chamou de “Ocupação Tropicana”. Esperemos que o conceito siga.

Nascido da cabeça e do coração de três mulheres, a saber, Gabriela Caetano, Luciana Zaffalon e Márcia Vaitsman; a “Ocupação Tropicana” desdobra-se no nome – “Ocupação” e Tropicana”. Quanto à primeira palavra, efectivamente, relaciona-se com o facto deste evento em torno das artes ocupar uma casa, privada (facto a que voltaremos mais à frente); relativamente à segunda, trata-se de uma variação criativa que acopla os termos “tropical” e “tricana”. Os trópicos surgem aqui como lugar de origem, visto as três mulheres serem oriundas do Brasil; a tricana remete para o imaginário coimbrão. De passagem por esta cidade ao centro de Portugal, Gabriela, Luciana e Márcia, encetam estudos de pós-graduação e regressarão, com toda a certeza, ao Brasil. Questionámos: morre o projecto? Esperam e esperemos que não!

Portanto, decorreram duas ocupações, a primeira no dia 22 de Março e a segunda, a que se acrescentou o epíteto de “Multiplicidades”, a 23 de Maio; ambas entre as 11h e as 23h, mas com a última a recrudescer, tanto em número de artistas, como em termos de actividades performativas, dança e música. Assim, se em Março participaram 15 artistas, oriundos de Portugal, Brasil e Angola; em Maio ascendeu a 40, acrescentando-se a esses três países artistas de Espanha, Colômbia, Inglaterra e Moçambique. Na primeira edição, o repto passou pela formulação de trabalhos inéditos e, de preferência, em áreas diferentes das que habitualmente as pessoas agem; na segunda, pediu-se a cada participante que indicasse uma outra pessoa, e outras surgiram na sequência da divulgação feita, harmonizando-se com o conceito de “Multiplicidades”. Aqui, tratava-se de “criar uma cidade imaginária baseada na sensibilidade com que os artistas sentem o espaço urbano e todas as relações complexas que nele existem”, tal como consta do texto que acompanhou o acontecimento. A organização, se no primeiro momento coube às mentoras, no segundo viu Márcia Vaitsman ser substituída por Rodrigo Reis; quanto à produção coube a Lugar Específico, com curadoria repetida de Cinthia Patroni e Helena Oliveira. De registar que o prédio/casa onde tudo aconteceu se localiza no nº 13-15 da Rua Fernandes Tomás.
Esta ocupação de uma casa privada impõe uma reflexão inevitável entre público e privado; e entre exterior e interior. Não se trata de um espaço devoluto ou de uma casa-museu, mas de um local diariamente habitado, respiração do mundo. Realmente, fenómeno conivente com o Modernismo foi o do surgimento de espaços expositivos assépticos, lugares não-inscritos, sem densidade histórica, ecrãs essencialmente brancos que alojam de forma depurada as obras. Rui Chafes chama-lhes clínicas de arte e locais de orfandade por excelência. Alexandre Pomar já chamou de decuradores os curadores, no afã de erigir estruturas arquitectónicas de carreiros interpretativos. A sensação que fica é a da impossibilidade de contaminação, como se as fronteiras se delimitassem com rudeza; o que não aconteceu em “Ocupação Tropicana”, e por isso entendemos relevante incluí-la na nossa reflexão. Ou seja, na abertura da casa ao exterior ficam patentes a reversibilidade e a permeabilidade, bem como a ideia de acolhimento.
Esperamos sinceramente que se repita! Estejam atentos, por isso.

© Fotografia: Júlia Rocha Pinto

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