“Chão de Artista”: Andrea Inocêncio em Abrantes ou …

Já aconteceu, mas nada impede que se repita. Foi em Abrantes, entre os dias 5 de Setembro e 2 de Outubro: Andrea Inocêncio expôs na Galeria Municipal de Arte, denominada quARTel. Gostaríamos de assinalar o seu propósito.

“Uau, you have made so many things! Why do you want to leave a (supposed) successful career to became a cabin crew member? E eu respondi: Art doesn’t give me enough money to survive… Ela: Well, here you will be serving coffes… Eu: No problem with that, I do performance.

Esta é a introdução ao catálogo da exposição “Chão de Artista”, constando igualmente do Livro de Artista que se concebeu para esta ocasião. Andrea Inocêncio encetou uma residência artística entre 11 de Maio e 30 de Julho na quARTel, em Abrantes, espaço que coabita com a Galeria Municipal de Arte e o espaço do atelier, pertencentes ao antigo quartel dos bombeiros. Da referida residência resultaram, ainda, uma exposição documental constando de uma viagem fotográfica através de dois anos, bem como uma performance assumida no dia da abertura ao público, registada em vídeo, e uma instalação.

Andrea Inocêncio é uma artista visual e performer, com obra acumulada e uma reflexão densa acerca do lugar do/a artista na contemporaneidade, onde se reforça, exemplarmente, a questão do feminino. A sua “Super-Artista Incógnita”, nas camadas sucessivas que se colam à pele, e constroem subjectividades cujo fio de sentido dificilmente pode ser puxado (para que irrompa uma claridade), é sintomática. Em “Chão de Artista”, Andrea Inocêncio transformou uma deriva pela sobrevivência na questão fulcral da arte proposta.

Assim, a pergunta será: A arte passa pelo acento demiurgo, ou existe uma função social que dela irrompe? Proponhamo-nos destrinçar levemente esta floresta… A Presidente da Câmara de Abrantes, no dia da inauguração, e no discurso proferido, faz reparar que “a arte tem que estar na base de uma sociedade que queira evoluir”. Certamente que a arte deverá contribuir para uma temperatura espiritual que destila oxigénio valioso; mas também é certo que, e seguindo Arthur Danto, existe um “mundo da arte”, aquele que George Dickie tenta depois particularizar na sua teoria institucional. Afinal, Alexandre Melo, na tarefa de responder a “o que é a arte”, devolve-nos precisamente toda uma tessitura social que se coloca ao serviço da inscrição da obra de arte, na arte.

Então, a tarefa de Andrea Inocêncio é particularmente sensível; porque a arte, como se deduz do diálogo inicial, resultante do percurso de dois anos em busca de trabalho que pudesse complementar a prática artística, não lhe augura a autonomia desejada, e desejável. Que tenha transformado essa busca numa forma de arte, é bastante pertinente. E assim surge “Chão de Artista”, de que destacamos o momento performativo; nele, Andrea, sob fundo musical de João Camões, em viola de arco, o que acentua um tenebrismo dramático tensional, vai lendo e rasgando, ou amachucando, os papéis referentes a e-mails trocados com diversas entidades, co-responsáveis pela sua demanda de trabalho. E acumulam-se precisamente no chão, quais despojos dos dias. No rasgar denota-se a operação de despedir e aponta-se para o desperdício, o lixo; ora, deplorar o chão é permitir que não sejam geradas boas sementeiras, que não surgem, nem surgirão, sem a fertilização devida. Por isso, “Chão de Artista”: A discrepância entre a flutuação, sua inerência primordial, e a poluição do solo.

Demiurgo ou agitador/a social? O/a artista a espraiar-se no ar, e a fina trama de um mundo a segurá-lo/a, ou não. “Sim, e como dar volta a isto?”, pergunta Andrea Inocêncio no final do seu Livro de Artista. “Dêem-me uma resposta, por favor”, solicita. Para reflectir, portanto.

“Chão de Artista” deverá replicar-se noutros locais.

+ Andrea Inocêncio

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