Mão Morta + Remix Ensemble

Este ano de 2017 promete ser o ano de Mão Morta, ano em que a banda bracarense se desafia agora a explorar a sua faceta mais experimental e contemporânea.

Donos e senhores de todo um percurso inquestionável da música nacional, Mão Morta são sempre nome que, aquando de aviso de novidades, há que ter ouvidos atentos. Quando o Theatro Circo de Braga convidou os Mão Morta a criarem um espetáculo especial, para o encerramento das comemorações do seu centésimo aniversário, abriu uma porta de quase infinitas possibilidades, para infinitos criativos. No quase mesmo instante do desafio/ convite, a banda decidiu que a singularidade do espetáculo a apresentar se iria basear na exploração musical do seu reportório, através de uma abordagem que criasse desafios aos músicos e à essência da própria obra. Havia que criar novos cenários sonoros para histórias já escritas.

Era essencial um parceiro com quem pudessem interagir numa abordagem exploratória do seu reportório, descobrindo cumplicidades, partilhando intentos, dirimindo confrontos, dentro de uma linguagem musical tornada comum pela contemporaneidade. E o único agrupamento de música erudita, com as características necessárias para isso, pela sua prática de interpretação de obras contemporâneas e capacidade de improvisação, era o Remix Ensemble, a Sinfonieta de 15 elementos da Casa da Música, considerado um dos melhores agrupamentos do mundo no género, sem dúvida.

Isso fez, como pretendido, que cada um dos quatro concertos realizados – no Theatro Circo em Braga, no Convento de São Francisco em Coimbra, na Aula Magna em Lisboa, e na Casa da Música no Porto – fosse um momento irrepetível e um discurso musical invulgar e único na sua natureza emotiva. Momento que ficou, certamente, na memória de quem o presenciou. É a cristalização do primeiro momento, no Theatro Circo, que este disco apresenta, deixando perpassar toda a emoção do encontro improvável entre essas duas entidades tão distintas e de origens tão diametralmente opostas como são os Mão Morta e o Remix Ensemble. É o refletir a subversão da divisão entre erudito e popular e dos preconceitos académicos e populistas que instigam a desconfiança mútua entre os dois universos. É uma união incomum que resultou num momento superlativo.

“Nós somos aqueles contra quem os nossos pais nos avisaram – ao vivo no Theatro Circo” é um disco (duplo) com 14 faixas e edição agendada para amanhã, dia 24 de Fevereiro. Uma obra que revisita temas dos diversos álbuns da banda bracarense e inclui ainda um tema inédito, o primeiro, “Abertura”, da autoria de Telmo Marques. Temas que aqui ganham um novo corpo sonoro, uma complexidade e uma dinâmica de música erudita contemporânea, repleta de pormenores sonoros e de densidades espetaculares.

A ter de ouvir. •

Mão Morta
© Imagem: capa do álbum.

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