Noites de Queluz – Tempestade e Galanterie / 2018

O ciclo de concertos, que na Mutante habitualmente vos divulgamos, apresenta este ano sete propostas que revisitam um repertório que vai de finais do século XVII até ao início do XIX. Nesta quarta edição, irão passar pelo palácio nomes como Ian Bostridge, Nuria Rial, Fahmi Alqhai, Andreas Staier ou Raffaella Milanesi. Destaque ainda para a estreia mundial moderna de uma serenata de João de Sousa Carvalho.

As “Noites de Queluz – Tempestade e Galanterie” estão, a bem de todos os apreciadores da música erudita, de volta ao Palácio Nacional de Queluz, entre os dias 19 de Outubro e 04 de Novembro, sempre às 21h30 (sem atrasos). Os sete espetáculos desta quarta edição acontecem na Sala do Trono e na Sala da Música e celebram o esplendor setecentista e oitocentista com repertórios criteriosamente enquadrados no contexto histórico do Palácio. E se neste estilo não tem uma paixão, deixe-se levar na mesma. É bom ouvirmos de tudo um pouco, na excelência de cada estilo.

O primeiro concerto dá desde logo o protagonismo a uma das mais-valias deste ciclo: o pianoforte Clementi, instrumento histórico (datado de c.1805) do acervo do Palácio de Queluz. Stefania Neonato e Francesca Vicari abordam o repertório para violino e tecla do período Clássico em “As várias faces de um mesmo género”, no dia 19 de Outubro. No dia seguinte, a 20 de Outubro, efectua-se uma viagem “Dos salões londrinos até à sala de concerto” com o tenor inglês Ian Bostridge (absolutamente obrigatório conhecer a voz deste tenor, com toda a certeza já o viu a interpretar “Winterreise” de Schubert) e a pianista Saskia Giorgini. Ambos trazem a Queluz um recital que dará a ouvir obras de Haydn e Schubert.

Accademia del Piacere regressa a Sintra meses após ter marcado presença no ciclo “Reencontros”, no Palácio Nacional de Sintra. No dia 21 de Outubro, este ensemble e o soprano Nuria Rial apresentam-lhe “Muera cupido – A tradição musical teatral em Espanha em 1700”, incursão pela música de autores como Sebastián Durón, José de Torres ou José de Nebra. No dia 27 de Outubro, o saltério, instrumento medieval que gozou de grande popularidade em Espanha até finais do século XVIII, soará no Palácio de Queluz, trazido pelo ensemble Il Dolce Conforto. Em “O sonho de Goya – O ´salteri’ na Espanha galante (1750-1780)” este ensemble apresenta um repertório que propõe uma transformação sonora do imaginário pictórico correspondente à primeira fase de produção de Francisco de Goya.

Prosseguem as Noites de Queluz com uma estreia mundial moderna no que é mais um capítulo de um esforço inscrito no Ciclo desde a primeira hora e que visa recuperar as óperas e serenatas escritas durante o século XVIII para o Palácio. Em 2018, é a vez da serenata ‘Perseo’, de João de Sousa Carvalho, ouvida pela primeira vez no verão de 1779, no âmbito das festividades do 62.º aniversário de D. Pedro III e que nunca mais foi executada. Será a 28 de Outubro, com interpretação de um conjunto de solistas e da Orquestra Divino Sospiro, sob a direção do maestro Vanni Moretto.


© Stefania Neonato, DR

Pelo segundo ano consecutivo, a Orquestra Barroca Casa da Música marca presença nas Noites de Queluz e traz desta vez como solista e maestro o alemão Andreas Staier, um dos grandes nomes da música antiga internacional. No dia 03 de Novembro, apresentam “Portugal no mapa do barroco e um ‘hit’ de Boccherini”, um programa em torno dos dois concertos para tecla de Carlos Seixas (1704-42) e da música ibérica de Setecentos. Numa viagem pelo cenário musical setecentista português, é inevitável referir-se a escola napolitana, que marcou a escrita lírica e orquestral da época. A mesma será invocada pelo soprano Raffaela Milanesi, que, acompanhada da orquestra Divino Sospiro, sob a direção de Massimo Mazzeo, protagoniza o programa “Mozart e o estilo Napolitano”, no dia 04 de Novembro, com isso encerrando a 4.ª Temporada de Música da Parques de Sintra.

O programa em esquema para melhor organizar a sua agenda:

19/10, 21h30 | Sala da Música
“As várias faces de um mesmo género”

Francesca Vicari – violino
Stefania Neonato – pianoforte
Devemos a Mozart o estabelecimento da ‘sonata para violino e piano’, tal como hoje a entendemos, isto é, com os dois instrumentos assumindo igual importância no discurso. Dele ouviremos neste concerto duas sonatas, editadas ambas no final de 1781, em Viena. Quem seguiu (e transcendeu) as pisadas de Mozart foi Beethoven, cuja Sonata dita ‘Primavera’ é a primeira obra do género em 4 andamentos. De um compositor mais obscuro, Giacomo Gotifredo Ferrari, ouviremos um exemplo de uma estética mais conservadora: a sonata para piano com acompanhamento de um instrumento melódico (flauta ou violino).

20/10, 21h30 | Sala do Trono
“Dos salões londrinos até à sala de concerto”

Ian Bostridge – tenor
Saskia Giorgini – piano
Na estreia do grande tenor inglês Ian Bostridge nas Noites de Queluz, um programa a meio caminho entre um serão num salão aristocrático londrino (Haydn) e um recital numa sala de concertos propriamente dita (Schubert). Ao mesmo tempo, ele configura uma possível homenagem ao celebrado tenor Raimund von Zur Mühlen (1854-1931), verdadeiro ‘pai’ do recital de ‘Lied’ enquanto forma autossuficiente de concerto público. Sem esquecer que foi ele quem, em 1904, primeiro cantou em Inglaterra (Londres) o ciclo integral da ‘Bela Moleira’, de Schubert, obra que preenche a segunda parte deste concerto.

21/10, 21h30 | Sala do Trono
“Muera Cupido – A tradição musical teatral em Espanha em 1700”

Nuria Rial – soprano
Accademia del Piacere
O final da dinastia Habsburgo na Espanha coincidiu com uma lenta, mas irremediável decadência, quer política, quer cultural, culminando na Guerra da Sucessão de Espanha (1701-14), que marca o advento da dinastia Bourbon naquele país. Com ela veio, no plano cultural, um influxo da música italiana, então dominante em toda a Europa. Essa novidade importada ‘chocou’ com as tradições musicais/musico-teatrais autóctones, consagradas pelo ‘Século de Ouro’. Neste programa veremos como preservação e integração (em vários graus) coexistiram durante a primeira metade do século XVIII.” Bernardo Mariano.

27/10, 21h30 | Sala da Música
“O Sonho de Goya – O ‘salterí’ na Espanha galante (1750-1780)”

Ensemble Il Dolce Conforto
A Espanha das eras rococó e galante coincide com os reinados de Fernando VI, casado com a muito interventiva e musicalmente dotada Maria Bárbara de Bragança; e de Carlos III, que passou toda a primeira parte da sua vida adulta em Itália (Nápoles e Sicília). Na música instrumental, é a Espanha de Domenico Scarlatti e de Luigi Boccherini, mas também de compositores nacionais como Manuel Canales ou os irmãos Pla. Neste campo, avulta um instrumento relíquia de outros tempos – o saltério – que gozou de ampla e duradoura popularidade naquele país. Ouviremos neste programa várias obras que o integram.


© Orquestra Barroca Casa da Música, DR

28/10, 21h30 | Sala do Trono
“Música para o herói Perseus, esquecida desde 1779”

Alena Dantcheva, Bárbara Barradas, Lucía Martín-Cartón, Frascesca Boncompagni – sopranos
André Lacerda – tenor
Divino Sospiro
Vanni Moretto – direção
João de Sousa Carvalho (1745-c.1798) foi o mais importante compositor português da sua época e expoente entre nós do estilo pré-Clássico. Compositor da Corte após a morte de Davide Perez, deixou um apreciável número de óperas e de serenatas, além de numerosa obra sacra. A serenata ‘Perseo’ tem libreto de Gaetano Martinelli e destinou-se a ser apresentada nas festividades do 62.º aniversário de D. Pedro III, consorte da rainha D. Maria I. É dada aqui em estreia mundial moderna, no quadro do projeto de recuperação das serenatas escritas para Queluz do Centro de Estudos Musicais Setecentistas em Portugal.

03/11, 21h30 | Sala do Trono
“Portugal no mapa do barroco e um “hit” de Boccherini”

Orquestra Barroca Casa da Música
Andreas Staier – direção
Um programa cujo centro de gravidade é o Portugal da primeira metade do século XVIII e, em segundo plano, a música ibérica da época. A ilustrar isso mesmo, os dois concertos para tecla de Carlos Seixas, exemplos raros no género ao tempo; obras de, ou inspiradas por, Domenico Scarlatti, que viveu 10 anos em Portugal e 28 em Espanha. Também de William Corbett, inglês de quem se diz ter sido espião real, um Concerto na esteira da popularidade de ‘Les Nations’ de François Couperin. E por fim, uma das obras desde sempre mais populares de Boccherini, que viveu quase toda a sua vida adulta em Espanha.

04/11, 21h30 | Sala do Trono
“Mozart e o estilo napolitano”

Raffaella Milanesi – soprano
Divino Sospiro
Massimo Mazzeo – direção
A cidade de Nápoles, uma das mais populosas da Europa ao tempo, foi um grande centro musical ao longo de todo o século XVIII, mormente desde o advento dos ‘intermezzi’ cénicos, precursores da ópera cómica que revolucionou o teatro lírico no pós-Barroco. Desde cedo um apaixonado pela ópera, Mozart esteve com o seu pai em Nápoles em maio-junho de 1770, quando eram expoentes do ‘estilo napolitano’ nomes como Piccinni, Paisiello ou Cimarosa. Também o português Pedro António Avondano terá lá estudado e a sua música denota uma clara influência da escola napolitana.

A ir. A não perder. •

+ Noites de Queluz 
© Fotografia de destaque: Accademia Del Piacere, 2015, por Oscar Romero.

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