ENTREVISTAS, MUSIC 1

Maria João Pires: “Sou apologista que as orquestras não deveriam viajar. Os músicos devem ter o direito de se desenvolverem no local em que se encontram”

Surpreendente terra-a-terra e de uma consciência social apurada, Maria João Pires dispensa introdução. Da sua quinta em Belgais, a pianista portuguesa de fama mundial falou à Mutante sobre os novos formatos digitais que se advinham pós-Covid-19, da necessidade fundamental de se apoiar iniciativas e músicos locais, e da oportunidade de transformação dos modelos de concerto até aqui em vigor. 

Maria João, como que é que a Covid-19 se tem refletido na sua vida profissional?

Tento ver o que tem acontecido por um prisma positivo, e não negativo. No meu caso, sei que estou numa posição privilegiada, já que tenho um espaço próprio, que é a minha quinta, onde me dedico a coisas a que antes não tinha tempo. Tenho cultivado as minhas próprias hortas, estou a trabalhar em repertório novo, em novas obras, e tenho espaço para refletir e para me distanciar da minha carreira e vida profissional. Ao tomar essa distância, consigo analisar erros do passado e ver o que pode ser melhorado para o futuro. É bom estar parada e não estar sobre um stress constante, que o dia-a-dia acarreta, como estar sempre a viajar, por exemplo.  Claro que tudo isto não se adequa a todas as pessoas; todos temos características e desejos individuais, que se refletem em diferentes maneiras de expressão. 

No entanto, no meu caso, faço um balanço bastante positivo, embora a crise financeira mundial seja um assunto preocupante para todos nós. 

Estamos a falar no meio do que seria a Schubertiade no Centro de Belgais que, infelizmente, teve que ser cancelada. Porquê dedicar um ciclo a Schubert? É um compositor por quem tem uma afinidade especial?

Sempre tive uma afinidade especial por Schubert. Aliás, é muito interessante estar perante este cancelamento, já que de todos os compositores, Schubert é aquele que representa a aceitação. Ou seja, quando somos postos diante de uma situação de aceitação, seja ela qual for, temos que aprender a aceitar as coisas como elas são, pois, se não o fizermos, acabamos por arranjar problemas graves. Há pessoas que perderam o emprego, que não têm dinheiro para viver, que não têm uma terra para cultivar ou que não suportam a solidão. Estas situações são desafios importantes da vida, sobre os quais é necessário refletir, de modo a percebermos aquilo que é inevitável e a que não podemos fugir. Daí vem a importância da aceitação. 

A Maria João mencionou no passado que Chopin a fez sofrer a vida inteira. Essa afirmação é do ponto de vista técnico ou emocional?

Normalmente, não falo dos meus problemas técnicos, já que eles vivem comigo desde criança. Toda a vida tive problemas técnicos, na medida em que tenho uma mão pequena; luto diariamente contra isto, com qualquer compositor que seja. Por isso diria que a afirmação é do ponto de vista emocional. 

A pandemia da covid-19 suspendeu toda a atividade cultural europeia, e teve implicações especialmente graves para músicos. Agora que a lotação de espetáculos e concertos foi reduzida para cerca de um terço, estamos a assistir a um novo paradigma para música de câmara e performances de orquestra?

Sou apologista que as orquestras não deveriam viajar. Os músicos devem ter o direito de se desenvolverem no local em que se encontram, já que as iniciativas locais têm uma contribuição muito maior no sentido económico. Ou seja, exatamente como na agricultura, devemos usar os produtos locais por razões financeiras e ecológicas. 

Neste sentido, a questão ecológica nas orquestras é tremenda: quantos aviões estão no ar? Quantos hotéis têm gastos brutais de água e de luz? Tudo isto só para as orquestras virem dar um concerto numa cidade. As fortunas que se gastam, se injetadas na cultura, poderiam dar trabalho aos músicos locais, aos atores, entre outros. Hoje em dia, estas deslocações não fazem sentido; os espetadores podem ouvir a Filarmónica de Berlim nas suas casas. No mundo atual, com a tecnologia desenvolvida que temos, não vejo razão para as orquestras viajarem da maneira que viajavam ultimamente. 

Considera ser esta uma nova oportunidade para as instituições culturais portuguesas?

É uma nova oportunidade no sentido de tornar a música clássica mais democrática. O espetador pode fazer uma assinatura, pagar uma pequena quantia para ouvir um concerto, ao passo que ter de estar no local, à espera de arranjar bilhete porque a lotação está esgotada, é impossível. Financeiramente, é elitista.

Agora, a pequena sala de concertos local, as próprias casas que os músicos disponibilizam para concertos de bairro, são ações que deveriam ser incentivadas e apoiadas. Quem é que está perto de mim? Quem é que se pode deslocar sem gastar muito dinheiro? Quem é que pode pagar um bilhete que seja barato e que não implique fazer sacrifícios durante o mês? São estes pequenos gestos que deveriam ser considerados e que permitem a abertura da música clássica. 

Sempre me fez muita impressão as grandes salas de concertos, as viagens em grandes grupos, os bilhetes caríssimos. Considero que deveríamos investir muito mais em iniciativas locais.

Qual é a importância da digitalização da música clássica em Portugal?

É importante em toda a parte, já que vivemos obrigatoriamente com tecnologia. Já não me lembro de escrever uma carta e enviá-la por correio, por exemplo, e nos meus 75 anos, viver sem tecnologia já caiu no esquecimento. Como é que podemos querer que a música clássica se desenvolva e se transmita sem ser digitalizada? É uma ideia absurda. 

Desde há cerca de duas semanas que a Maria João oferece aulas online a partir do Centro de Artes de Belgais. Já tem alunos inscritos? Como é que está a correr?

Tem sido uma descoberta muito interessante, já que sempre dei aulas presenciais e tive os alunos juntos no mesmo espaço. Ao todo, tenho duas aulas por dia, cinco dias por semana, de uma hora e meia, que têm corrido bastante bem tirando o problema do som, que está sempre a falhar. Não é um problema com a internet, mas é por tecnologicamente não estarmos preparados para estes novos desafios online, com música. Por isso, ter uma plataforma que me fizesse a mim e aos alunos ouvir bem seria o ideal. 

Acredita que o ensino online é um método de aprendizagem eficaz? 

Claro, precisamente neste ponto podemos ver o quanto o governo poderia apoiar a cultura. Ou seja, permitir que os estudantes tenham aparelhos eletrónicos suficientes para terem aulas online nas suas casas, como um bom microfone e boa sonorização, seria uma bolsa perfeita. Infelizmente, este não é o caso, já que os estudantes gravam tudo com os seus telemóveis, o que traz problemas à sua aprendizagem.  

Há um mito à volta das aulas online, de que não funcionam, mas isto não é verdade: as aulas online são novas oportunidades que nos permitem melhorar e evoluir. Na minha opinião, o que interessa nesta crise é a reflexão que vem dela, ou seja, a capacidade que temos de aceitar o que está a acontecer para podermos evoluir. Quando aceitamos uma situação, há um conjunto de oportunidades que se abre, e que nos permite arranjar novas soluções quer para os nossos problemas, quer para o bem comum. 

Muitos músicos têm realizado concertos online, em tempo real ou através de gravações. Considera os mesmos bons substitutos dos concertos ao vivo?

Neste caso, penso que não há bom nem mau. Há a realidade, aquilo que temos. Não podemos passar a vida a imaginar o que seria melhor, mas sim aproveitar o que nos é dado, sem prejudicar o bem comum. Os concertos online são uma ótima oportunidade na medida em que são mais democráticos, já que os músicos que vão ser ouvidos não são apenas as grandes estrelas, que em certos casos têm fama injustificada.  

Os concertos online permitem assim dar igualdade de oportunidades a músicos menos conhecidos, mas com muito talento. É através desta igualdade que se pode ver a verdadeira democracia, que devemos ter como base na reflexão que fazemos desta crise. 

Para terminar, após 70 anos de experiência, de que forma é que a sensação de estar em palco mudou? 

Sou sincera, nunca gostei muito de estar em palco. Desde criança que sempre gostei de música, mas gostava de ter estudado medicina e sempre adorei ciência. Acabei por fazer carreira como pianista, mas foi uma coincidência da vida. Há muito stress envolvido, tenho uma certa timidez em tocar para grandes públicos e não é uma coisa que adore fazer. No entanto, adoro partilhar a música com as pessoas. Por exemplo, não acredito que o músico dê alguma coisa ao público: o músico simplesmente transmite aquilo que sente e o seu trabalho. Como artistas e como seres humanos, nós só partilhamos aquilo que nos é dado, com o objetivo de contribuir para o bem comum. 

+ Maria João Pires

© Fotografia: D.R.

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1 Comment

  • Clara Cabral says: 21/06/2020 at 10:04

    Parabéns!
    Questões muito pertinentes no contexto atual a uma Senhora maior da música!

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