DAR A OUVIR. Paisagens Sonoras da Cidade

A 7.ª edição do Dar a Ouvir assinala o 10.º aniversário do Arquivo Sonoro do Centro Histórico de Coimbra (ASCHC), um projeto que nasceu em 2013, pouco tempo depois do Jazz ao Centro Clube (JACC) ter encontrado casa no Salão Brazil. 

Dirigido pelo paisagista sonoro Luís Antero, o ASCHC parte do princípio de que as paisagens sonoras são importantes para a compreensão do modo como o som caracteriza um espaço ou lugar. Questões como “Quais os sons que a nossa cidade incorpora? Quanto deles já desaparecerem irremediavelmente? O que podemos aprender acerca da especificidade das comunidades de uma cidade (comunidades espaciais, bairros, comunidades profissionais, etc.) através da dimensão sonora?” têm estado no centro do trabalho do Arquivo Sonoro.

Em 2016, com o dispositivo interativo MS01 (Mobiliário Sonoro), o ASCHC passou a estar disponível ao público para uma exploração artística, educativa e lúdica. Fruto de uma parceria entre o JACC e o Computational Design and Visualization Lab. do Cognitive and Media Systems Group, do Centro de Informática e Sistemas da Universidade de Coimbra, o MS01 esteve na base do aparecimento, em 2017, do Dar a Ouvir.

No contexto do Dar a Ouvir, o ASCHC tem sido fundamental para dar a conhecer a cidade de Coimbra através de uma perspectiva audível – a partir das suas paisagens sonoras – procurando sensibilizar para a escuta e para o som como possibilidade de descoberta e conhecimento, enquanto objeto social e criativo, num processo em que os sentidos se complementam.

No âmbito da presente edição do Dar a Ouvir, o Arquivo Sonoro assume uma natural centralidade e poderá ser ouvido de diferentes formas. O MS02 (Mobiliário Sonoro) volta a ser disponibilizado ao público, contendo sons da cidade prontos a saltar das suas gavetas. Por outro lado, foi realizado o convite a três artistas sonoros (Caucenus, Joana de Sá e Sara Pinheiro)  para “remisturarem” os sons do ASCHC, apropriando-se criativamente do material sonoro de acordo com as suas práticas criativas. Por fim, o próprio Luís Antero protagoniza um “Concerto para Gente Deitada”.

A 7.ª edição do Dar a Ouvir não se esgota na celebração do ASCHC. O Convento São Francisco acolherá três iniciativas integradas no projeto à escuta:CasaFloresta, um veículo de pesquisa, reflexão e criação artística em torno da floresta no Parque Natural da Serra da Estrela e sua envolvente, concebido por Joana Sá, Luís J Martins, Corinna Lawrenz e Nik Völker. Num território ameaçado pelos incêndios florestais e onde os efeitos das alterações climáticas, da monocultura do pinheiro e da desertificação se fazem sentir diariamente, à escuta:CasaFloresta procura formas de lidar com estes problemas a nível local para criar perspetivas a nível global e vice-versa. 

Esta edição acontecerá entre os dias 12 e 18 de julho, no Convento São Francisco. Todas as entradas são gratuitas, havendo a necessidade de inscrição prévia  para Oficina CasaFloresta (13 de Julho, às 18h) e a conversa que decorrerá na Varanda do Salão Brazil. 

12/07, 19h00 – CONCERTO/ PERFORMANCE – (60 minutos)
M/6

[Título] CasaFloresta (espectáculo); [Artista] À Escuta
[Local] Black Box – Convento São Francisco

CasaFloresta e anti-mapa floresta são uma performance e uma instalação relacionadas entre si e criadas no âmbito do projecto à escuta: CasaFloresta. Após um trabalho em e com comunidades de dois extremos da Serra da Estrela e com vários colaboradores ao longo deste verão, o espetáculo e instalação convidam agora, nos centros urbanos, à escuta e ao relacionamento com estes territórios, as suas múltiplas vozes e a sua (de)floresta, procurando tornar tangível e próximo o que é aparentemente distante.

Um palco é um palco é um palco é um piano é um piano é uma guitarra mas nem tanto.

Ausculte-se de perto.

Palcos são guitarras são pianos são árvores são árvores são
árvores são palcos são guitarras são pianos são árvores
são palcos são pianos são guitarras são
árvores são casas são
casas são
casas
são


Num palco-floresta entrelaçam-se os instrumentos de Joana Sá (piano e outros) e Luís J Martins (guitarras variadas e outros) com recolhas áudio e vídeo realizadas no decorrer do projeto, desdobrando, refundindo e aflorando as complexas relações que se desenrolam em torno da floresta. Partindo de vestígios, texturas, memórias desses relacionamentos, CasaFloresta desmantela a noção de uma oposição entre casa (dentro) e floresta (foris, fora).

Como recriar uma sem a outra?

12/07-18/07, 15h00-20h00, Diariamente – INSTALAÇÃO 
Última entrada às 19h30 / Todos os Públicos
[Título] MS02; [Artista] Cristiana Bastos, Pedro Martins, Tiago Martins
[Local 1] Piso 0 – Convento São Francisco

MS02 (Mobiliário Sonoro 02) é uma instalação interativa destinada à descoberta e interpretação de sons pertencentes ao Arquivo Sonoro do Centro Histórico de Coimbra (ASCHC), uma coleção de paisagens e marcos sonoros recolhidos pelo Jazz ao Centro Clube sob a direção artística de Luís Antero. Apresentado sob a forma de um armário e elemento pertencente a uma coleção de mobiliário-objetos sonoros desenvolvidos em torno do ASCHC, o MS02, a partir dos atos de abrir e fechar gavetas, propicia a exploração artística, lúdica e educativa do arquivo.

13/07-18/07, 15h00-20h00 – INSTALAÇÃO
Última entrada às 19h30 / Todos os Públicos
[Título] Instalação Anti-Mapa Floresta; [Artista] À Escuta
[Local] BLACK BOX e Cabines da Tradução – Convento São Francisco

Relacionando-se com o espectáculo CasaFloresta e o anti-mapa virtual do projeto à escuta: CasaFloresta, a instalação constitui-se enquanto floresta de recolhas em áudio e vídeo, contributos de diversos colaboradores, fragmentos compilados ao longo de uma pesquisa de vários meses. Circulando entre esses objetos, acompanhados por vestígios da performance, configuram-se diversas concepções de florestas, contaminadas pelas partilhas de memórias e ideias das comunidades de dois extremos da Serra da Estrela e pelas nossas impressões e reflexões enquanto residentes temporários (equipa e colaboradores do projeto) de uma antiga casa de guarda-florestal. À medida que esta floresta se constitui, desconstroem-se as ideias de casa, palco, e instrumentos enquanto entidades fechadas em si próprias, fundindo-se com os ciclos de utilização e exploração da floresta. Enquanto partilha do processo de trabalho do projeto, a instalação convida ao relacionamento com dois territórios específicos e as suas relações com a floresta, procurando criar, na escuta atenta para a complexidade do local, novas perspetivas sobre o futuro da floresta a nível global.

13/07, 18h00 às 21h00 – OFICINA – Black Box
M/6

[Título] CasaFloresta; [Artista] À Escuta
[Local] BLACK BOX – Convento São Francisco
Necessária inscrição prévia para o email: reservas.jazzaocentro@gmail.com

O Workshop CasaFloresta é um espaço para aprofundar, com um pequeno grupo de participantes, as questões principais do projeto à escuta: CasaFloresta, trazendo as urgências dos territórios do interior e das suas (de)florestas para os centros urbanos. Conjuntamente, iremos procurar descentralizar esses centros urbanos, pensando a suposta periferia como centro de algumas das questões mais urgentes das lutas ecologistas e climáticas. Como pode a consciência do papel fundamental que as florestas têm para a sociedade e para o futuro do planeta transformar-se numa guarda partilhada dessas florestas? Qual poderá ser o papel da escuta enquanto forma de relacionamento com o Outro neste processo? E como podemos chegar a formas de produção de conhecimento que sejam não-hierárquicas e devolvam agência às comunidades do interior?

O workshop parte de recolhas e elementos da instalação anti-mapa e do anti-mapa virtual do projeto e procura alargar esse arquivo digital, integrando elementos novos – reflexões e apontamentos, ou propostas concretas para novas formas de relacionamento com a floresta e as comunidades que com ela convivem.

14/07, 21h30 – CONCERTO/ PERFORMANCE – (45 minutos)
M/6

[Título] Remix: Coimbra; [Artista] Caucenus
[Local] Sala D. Afonso Henriques – Convento São Francisco

Caucenus é a máscara musical de António Ramires, produtor e investigador de tecnologia musical natural de Coimbra. Impulsionado por uma curiosidade infinita, Caucenus explora incansavelmente dimensões sonoras inexploradas, misturando paisagens ambientais pós-apocalípticas com vibrações ritualísticas que nos remetem ao club. 

Leads pesados e distorcidos fundem-se com percussões fragmentadas e repletas de glitches, desafiando convenções e convidando os ouvintes a embarcar numa viagem sonora transformadora.

16/07, 19h00 – CONCERTO/ PERFORMANCE – (45 minutos)
M/6

[Título] Remix: Coimbra; [Artista] Joana de Sá
[Local] Sala D. Afonso Henriques – Convento São Francisco

Joana de Sá é uma artista sonora viseense. No seu trabalho sonoro, procura explorar sons texturais, oriundos de gravações de campo, articulados com repetições melódicas feitas a partir de guitarra, sintetizador ou voz.

Depois de temas soltos e da série de “loops” que foi lançando no perfil pessoal do Soundcloud desde 2020, Joana editou o primeiro álbum “Shatter” em Março de 2022, pela editora portuguesa Sirr-ecords.

Tem contribuiu com uma peça sonora para o festival internacional de rádio “Radio Art Zone” , desenvolveu o som para um pequeno pedaço de vídeo inserido na Galeria Digital de celebração dos 20 anos do festival internacional de cinema de Lisboa “DocLisboa 2022” e colaborou, com uma performance sonora para a mostra coletiva do Metamersion II, na Fundação Champalimaud.

17/07, 19h00 – CONCERTO/ PERFORMANCE – (45 minutos)
M/6

[Título] Remix: Coimbra; [Artista] Sara Pinheiro
[Local] Sala D. Afonso Henriques – Convento São Francisco

Sara Pinheiro é sonoplasta nas áreas de cinema e video-arte, composição acusmática e performance ao vivo para multicanais desde 2010. Licenciou-se em Som para Cinema pela Escola de Teatro e Cinema (Lisboa) e em Sonologia pelo Instituto de Sonologia do Conservatório de Música de Haia (Países Baixos). Ao abrigo da Escola de Música da Universidade de Bangor (País de Gales), o seu doutoramento cruza as áreas da Música Concreta com o desenho de som para cinema. Reside em Praga, onde trabalha como designer sonora e agente cultural.

18/07, 19h00 – CONCERTO/ PERFORMANCE – (45 minutos)
M/6

[Título] Concerto para Gente Deitada; [Artista] Luis Antero
[Local] Praça do Restaurante 

Paisagista, documentarista e arquivista sonoro, é licenciado em Estudos Artísticos e pós graduado em Património Cultural Tradicional e Popular Português.
Desenvolve desde 2008 um trabalho de recolha e documentação do património acústico de várias zonas do território nacional, com base em gravações sonoras de campo.
É Director Artístico do Arquivo Sonoro do Centro Histórico de Coimbra, radialista, realizador e formador.

Embora habituado a proporcionar, nos seus concertos, contextos de escuta em espaços e formatos não convencionais, esta é uma daquelas raras ocasiões em que Luís Antero irá desafiar o público para um “concerto para gente deitada”.

18/07, 21h30 – CONVERSA – (90 minutos)
M/6

[Título] As tensões e contradições nas gravações de campo: ecologia sonora, política e práticas de cuidado; [Artista] Luís Antero e Sara Pinheiro
[Local] Salão Brazil (Varanda)

Partindo das reflexões contidas no ensaio de Sara Pinheiro, intitulado “Field Recordings: A Manifesto”, convidamos todas as pessoas interessadas para uma conversa sobre o nosso relacionamento com o som, enquanto prática artística com implicações sociais.

De carácter informal e tendo como cenário a varanda do Salão Brazil, pretende-se criar um espaço propício para a discussão e partilha.

A tomar nota de tudo. A ouvir esta cidade, neste julho. •

+ Convento São Francisco
+ JACC

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