Fallingwater, a casa da cascata de Frank Lloyd Wright

Embora pareça uma ideia corajosa unir uma casa com a natureza, a realidade é que o objetivo de uma casa é proteger-nos da natureza. Foi ao visitar a casa da cascata que comecei a dar mais valor a esta premissa.

Devo ter ouvido falar, ou lido, sobre a Fallingwater muito provavelmente quando ainda estava no secundário. Digo isto porque anos mais tarde, lembro-me perfeitamente  durante uma entrevista obrigatória para entrar na Escola de Arquitetura, ter-me sido pedido para nomear o meu edifício preferido.

Não acredito que tivesse um edifício favorito nessa altura, mas lembro-me de ter respondido, “A casa da cascata”.

“Porquê?” perguntaram os professores.

A razão porque eu sabia da existência desta casa devia ser provavelmente por ter lido algures nos meus livros de história da arte que era um excelente exemplo da ligação entre o homem e a natureza. Um tema, que era, e é, bastante popular na altura.

“Por causa da ligação com a natureza”, disse convincentemente.

“E como é que isso foi conseguido?”

Hmmm, suponho que devo ter pensado como responder a esta pergunta, porque não argumentei o óbvio. Poderia ter simplesmente argumentado que a casa foi construída sobre um percurso de água que existia na propriedade, sem o desviar. À medida que a água segue o seu percurso, entra na sala de estar e sai por um buraco no chão, em forma de cascata, daí o nome pela qual a casa ficou famosa.

Esta era, provavelmente, a resposta que esperavam de um jovem aspirante a arquiteto. No entanto, o meu argumento foi que as longas varandas faziam-me lembrar ramos de árvores. A avaliar pela nota negativa que recebi após a entrevista, esta provavelmente não era a resposta correta.

Uma década depois, em 2005, quando estava de férias a passear de carro pelos Estados Unidos, apercebi-me, ao aproximar-me do meu destino, que se fizesse um desvio podia visitar a Casa da Cascata.

A mudança de direção era uma aventura de um dia. Que para ver uma simples casa era algo a ponderar. Existiam provavelmente pontos turísticos mais atractivos, mas sendo a casa tão famosa confesso que não hesitei e fi-la.

O desvio foi a partir de Washington. Da capital Americana até à casa são mais de 3 horas de carro. Em 2004 o Google Maps ainda não existia, e a possibilidade de andar perdido era estaticamente muito superior à de hoje. Felizmente correu tudo bem.

O percurso entre Washington e a casa tem paisagens lindíssimas. Mais tarde, descobri que tinha atravessado território Amish, o que me elucidou melhor sobre as pessoas que tinha visto a deslocarem-se em carruagens puxadas por cavalos. Também foi neste percurso que pela primeira vez fui parado pela polícia por excesso de velocidade. Uma experiência que espero um dia vir a poder contar aos meus netos.

Quando cheguei à Casa da Cascata estacionei o carro num parque de estacionamento abastado. Apercebi-me de imediato que estava a visitar um ponto bastante turístico. Assim que comprei o bilhete fui informado que visitas à casa são sempre guiadas, e que tinha que aguardar pela próxima visita. Enquanto esperava, li as notas introdutórias sobre a casa. A data de conclusão tinha sido em 1937. Reparei que na planta da propriedade existia uma casa de hóspedes, localizada no topo da colina, não muito longe da casa principal; que infelizmente não estava incluída na visita.

Segundo o nosso guia, a arquitetura “não tinha qualquer interesse”, uma vez que tinha sido adicionada à propriedade posteriormente.

Ainda antes do início da visita, tive a oportunidade de passear pelos jardins. Há um local famoso onde a maioria dos visitantes tiram fotografias. Como eram poucos durante a minha visita, tirei a minha foto de forma rápida e agradável. Suspeito que hoje em dia teria que fazer fila para tirar um selfie.

Eu sabia como a casa era por fora, mas não tinha bem a certeza do que esperar por dentro. Confesso que não estava preparado para a sensação claustrofóbica que senti assim que entrei.

Surpreendentemente, alguns tetos eram bastante baixos em comparação com padrões modernos. Em algumas partes da casa, a altura do chão ao teto é de apenas 1,88 metros. Aparentemente, esta foi uma escolha de design deliberada, destinada a criar contraste com as divisões de tetos mais altos.

Apesar dos tetos baixos, havia vários pormenores arquitectónicos para manter o meu espírito curioso ocupado. Gostei particularmente do design das prateleiras e armários. Cuidadosamente desenhados para cada canto e parede da casa o qual não podiam pertencer a nenhuma outra casa.

O ponto alto da visita guiada foi, sem dúvida, a sala de estar. A primeira coisa que reparei foi o chão de pedra bastante rústico. Lembrou-me o rés-do-chão de casas antigas em Portugal. Talvez não fosse exatamente o que eu esperava ver numa casa moderna, mas foi interessante ver a água a correr pelo meio da sala. Na altura da minha visita, havia água em abundância.

O nosso guia aproveitou a oportunidade para falar sobre o custo de manutenção da casa. Ficámos a saber que as fundações da casa tinham sido mal concebidas, seja por economia de recursos ou por erros de cálculo. O que resultou em renovações dispendiosas para evitar o seu colapso.

No entanto, assim que a conversa terminou e passeávamos pela sala de estar, algo que não conseguia ignorar era o barulho que a água fazia ao cair na piscina.

O barulho era intenso. Era o mesmo que ouvimos quando visitamos cascatas ao ar livre. Algo que me surpreendeu porque nunca imaginei que corre-se tanta água pela casa para justificar o ruído que se ouvia. E verdade seja dita, o nível de barulho que se ouvia na sala de estar era algo que nenhuma foto alguma vez conseguirá captar.

O som da cascata é constante, de dia e de noite. Não é como a festa de um vizinho que termina de madrugada. A água respinga 24 horas por dia, 7 dias por semana. Visitei a casa em abril e talvez tenha menos água a correr por ela durante o inverno ou no verão, mas gostaria de ter um decibelímetro para medir os níveis de barulho e poder reportá-los aqui, porque não era ignorável.

Quem acha que a casa de cascata é um lugar convidativo para dormir uma sesta ou passar uma tarde agradável a contemplar a natureza, pense duas vezes. Provavelmente não é.

No meu caminho de regresso a Washington, apercebi-me que muito provavelmente os proprietários encomendaram a casa de hóspedes para finalmente terem paz e sossego.

Quando penso na entrevista obrigatória que tive de fazer para entrar na Escola de Arquitetura, confesso que embora não tenha conseguido explicar da melhor forma a ligação da casa à natureza, gostaria de poder voltar atrás no tempo e reformular a minha resposta da seguinte forma:

“Embora pareça uma ideia corajosa unir uma casa com a natureza, a realidade é que o objetivo de uma casa é proteger-nos da natureza. Foi ao visitar a casa da cascata que comecei a dar mais valor a esta premissa.”

Numa nota à parte, continuo a achar que as varandas da casa se estendem lindamente, como os ramos de uma grande e bela árvore.

© Fotografia de entrada: Ellis Dieperink

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