Brasília. São Paulo. Lisboa. São Paulo. Brasília e… Coimbra. De forma muito sucinta, este poderia ser o histórico do gps de Hebert Diener, (pelo meio, umas paragens técnicas, mas estes são os spots em destaque no maps). Com formação académica superior no universo do áudio e as inevitáveis bandas para dar gosto ao dedo, Hebert Diener é o senhor do merchandising da música. Ele é o ritmo do merch.
A música é mais do que apenas e só as canções que nos aquecem a alma, que sentimos à flor da pele, que nos alimentam os dias. A música é também todo um universo profissional que a envolve: do técnico de som, ao técnico de luz, ao estúdio de gravação, aos músicos, aos designers, aos bookers, aos produtores… e ao merchandising (merch). É todo um mundo com profissionais de excelência que nos permitem viver a música de forma ímpar. Para nós lazer, para eles a sua profissão.
Questões que não resistimos levantar-vos:
Quem nunca teve, nem que fosse um pin, de uma banda que gosta?
Quem nunca caiu na tentação de vestir a camisola de uma banda?
Quem nunca guardou um poster de uma banda?
Aqui, por estes lados Mutantes, há pins e houve a tentação consumada de várias t-shirts, de várias bandas. O merch sempre fez parte da música (e não só). Sempre foi quer uma outra fonte de rendimento para músicos e festivais, quer uma forma eficaz de divulgação de uma banda, uma forma de ser mais vista, por mais olhos.
Assim, decidimos mergulhar no mundo do merch com quem tem anos de experiência na área, com quem trata os músicos e os festivais por tu. Hebert Diener (HD) é com quem nos sentamos à conversa para decifrar quem é Diener e o porquê do merch ser uma parte maior da sua vida.
Quem é Hebert Deiner?
HD: Bom, péssimo para falar de mim, mas aqui vai. (Risos). O meu nome é Hebert Diener tenho, hoje, 50 anos. Sou músico, formei-me em Ciências da Computação, mas depois decidi estudar Produção Musical. A minha família trabalha, toda ela, com artes plásticas e visuais, e com música. Trabalho com áudio – tanto como montando palco, como montando som – desde a minha adolescência. Tive várias bandas no final dos anos 1990 e 2000, sendo que algumas dessas bandas foram assim… Significativas, lá no meu Brasil, dentro do meu nicho do post-punk, do gótico, do underground ou, para ser mais abrangente, do mundo alternativo. Num ponto atrás, sempre trabalhei com áudio.
És de Brasília, então?
HD: Nasci em Brasília, cresci em São Paulo. Como Técnico de Som/ Sound Designer trabalhei em grandes produtoras com diversos artistas, para TV como sonoplasta e numa agência que lançou vários artistas famosos no Brasil. Com tudo isto fiz várias tours, trabalhei com muita gente como técnico. Depois, como técnico de som, auxiliar técnico e tudo mais, trabalhei em estúdios reconhecidos em São Paulo. Por fim, voltei para Brasília e lá continuei com as minhas bandas, e tinha um home studio. E acho que é isto, assim falando por alto do como estou na música há décadas. Em paralelo, sempre tive lojas e trabalhei com lojas de t-shirts, sempre fiz serigrafias, sempre fiz t-shirts de bandas desde os anos 2000.
Auto-didata neste ingresso pelo mundo da moda musical?
HD: Não propriamente. Eu era sócio de um amigo que é uma lenda em Brasília, o Natinho, que tinha t-shirts. Ele fez t-shirts para as bandas punks do começo de Brasília. Para Legião Urbana, Plebe Rude, Capital Inicial e daquela primeira banda do Renato Russo, os Aborto Elétrico. Ficámos muito amigos e montámos várias lojas, algumas que existem até hoje. Foi assim que entrei, a fundo, no mundo da moda musical.
Como é que desses dois pontos, São Paulo e Brasília, há uma mudança para um país como Portugal, que não é dos que mais investe em cultura?
HD: Não sei se aqui há menos investimento… Tenho dúvidas, comparando com o Brasil da altura. Na verdade, a vinda para cá, não foi focado nesse ponto, da cultura. Até mesmo porque nós saímos na altura da pandemia e na pandemia toda essa parte cultural e artística, (e tudo mais) – foi-se perdendo. O Brasil (e não só) ficou parado, foi terrível lá. Os meus amigos que trabalhavam com áudio e com espetáculo, estavam a ter de fazer vaquinhas e pedir ajuda porque não tinha mais concertos, não tinha nada acontecendo. As pessoas estavam sem dinheiro para comer.
Foi generalizado.
HD: Foi. E principalmente na parte dos espetáculos e da cultura, foi devastador. Mas nós tínhamos dois problemas lá: um era a pandemia e o outro era o governo da altura – os governantes do Brasil eram completamente contra a cultura. Asfixiaram a cultura. Foi um genocídio cultural, porque esse pessoal da Extrema Direita não apoia a cultura, por norma. E tentam eliminar a parte cultural porque veem a cultura como algo esquerdista e uma ameaça. A cultura é de todos, nunca deve ser vista como esquerda ou direita. Então, não foi só a pandemia na saúde. Foi devastador o lado político, também.
A pandemia política e a pandemia de saúde.
HD: Exatamente. A pandemia política que destrói e esmaga. Mas, verdade seja dita, eu tinha o meu estúdio, o meu espaço de criação, de produção, mas não estava mais na cena de Brasília. Estava por outros mundos. A parte das t-shirts, eu já tinha entregado há um tempo, porque vendi a minha parte para o meu sócio (ele está lá, resistente até hoje. É um personagem de Brasília que faz parte de Brasília). Mas aí, tanto eu quanto Joana [minha mulher], nós estávamos numa fase sem perspetiva, tanto dentro da pandemia como pós-pandemia. Foi uma fase muito angustiante, uma coisa muito pesada, e sempre a pensarmos que estávamos com uma idade que, para o mercado de trabalho brasileiro, nós não valemos mais nada.
Crês que aqui há maior aceitação?
HD: Muito! Podem não acreditar, mas é muito diferente mesmo. Tipo, é disparado, para nós isso é muito visível. Estás acima dos 40 anos, és uma pessoa produtiva para o mercado de trabalho e lá te abafam. Tens de ser jovem, ganhar pouco e trabalhar feito camelo. Nós estávamos nessa fase lá, dos 40s. Surgiu uma oportunidade de vir para cá através de uma amiga de Joana: “Olha, vocês estão aí, dois talentos desperdiçados, batendo cabeça, sem emoção,… Amorfos. Venham para cá!” Era o nosso sonho um dia vir para Portugal. A primeira vez que eu vim a Portugal, eu me apaixonei e quase que eu não voltei. Foi 2018. Eu fui para Lisboa, visitar uns amigos.
O que te fez Lisboa para teres a certeza de vir para Portugal?
HD: Mesmo sendo Lisboa, que hoje conheço melhor, na época senti um calor, uma coisa gostosa de se viver e de se passear. Senti qualidade de vida e muito carinho. Senti-me em casa.
Na primeira vinda tiveste alguma perceção do que era o mundo da música em Portugal?
HD: Não, tive pouquíssimo contacto. Tive mais contacto com música brasileira. Um amigo meu tem um bar lá em Lisboa chamado Água de Beber. E o nome já diz, né? É música brasileira. Não tive contacto com underground daqui e lá no Brasil não se consome muita música portuguesa. Talvez agora, neste momento, estão a consumir mais.
E por que não chega lá? No underground é a mesma situação?
HD: Porque o mercado de música brasileira é gigantesco e o mercado americano, e o inglês, dominam. Mesmo a nível do underground, isto na minha opinião. Outras pessoas devem conhecer melhor. O Brasil é tão auto suficiente que não deixa os de fora entrarem.
Na segunda vinda, na mudança para Portugal, foi fácil o acesso à música?
HD: No meu caso, sim. Pode ser diferente para outras pessoas. Para mim, primeiro é o que eu gosto, é o ambiente que eu gosto e são situações que eu gosto. Então, rapidamente, eu me incluo no círculo. E em Coimbra você só tem de ir na loja de discos mais importante da cidade, que dali você vai conhecer a maioria das coisas que acontecem por aqui. (Risos).
Num passo atrás, porquê Coimbra e como vens aqui parar?
HD: Coimbra é o seguinte. Nós temos uma amiga, Isabel, em Coimbra, a tal amiga que nos fez o convite e a gente falou: vamos! Não estávamos felizes no Brasil. Foi mandar a toalha ao chão, um desafio pessoal e de casal, um desafio de vida. Pô, vamos tentar mudar tudo, vamos tentar começar tudo do zero, melhorar para a nossa filha, para o nosso filho. Dar perspetiva não só para a gente, como para nossos filhos. Isso foi um fator, também, determinante.
Como é que em menos de três anos em Coimbra já estavas completamente mergulhado na música outra vez? É chamamento, como dizem no Brasil?
HD: Talvez. (Risos). Porque é o seguinte, eu cheguei aqui com seis meses já estava fazendo o primeiro Luna Fest. E foi simples assim: eu estive na Lucky Lux! (Risos). A tal loja de discos.
Com o Rui Ferreira?
HD: Na verdade, com o Ricardo (que trabalha na Lux) e com o Rui. Estive na Lux e acabei no Pingamor. Conheci o pessoal, tomei uns finos, troquei ideias e… montei uma marca, eu e a Isabel, depois deste encontro. Conversamos e eu vou lá no pessoal do Pingamor, era o primeiro Lunafest, e falei assim: eu quero ter um stand! Na época, a Luciana, o Tito e o Vitinho falaram assim: “Ok, custa-te tanto”. Aí eu voltei para casa e falei para todos: temos um stand no Lunafest, agora vamos fazer t-shirts.
E, de repente, t-shirts outra vez!
HD: Pois é (risos), mas era uma coisa que eu já tinha feito, já tinha know-how disso. Cheguei em janeiro, fiz esta ponte no final de abril, para o evento que ia acontecer em agosto. Tudo muito bem calculado, esse “de repente”. Investimos e a gente montou a Calhau.
Porquê calhau?
HD: Porque a gente estava fazendo uma brincadeira sobre rock, pedra e aí a gente ficou no “vamos chamar de menir”. Mas depois, “Ah, não, menir fica muito francês”. Pelo meio, a Isabel, já amiga e sócia nesta primeira fase, sugeriu Calhau. Aí pô! Calhau! Aí Calhau tem vários significados aqui que a gente foi descobrindo e tudo se encaixava dentro do conceito. Ficou engraçado. Porque tem esse significado de cabeça dura, né? Teimosia, mas calhau também é rock, também é pedra. Então foi isso. Batemos o martelo com o nome de Calhau, fizemos o logo, no outro dia começamos a produzir.
A caminho do Luna Fest, certo?
HD: Sim. Peguei e fui para o primeiro Luna Fest. Foi a inauguração da Calhau. A Calhau nunca tinha vendido nada, nem um pin. A Calhau não existia para ninguém. E quando eu criei a Calhau… Todo mundo fez, todo mundo produziu na família. A Isabel fez as estampas, eu prensei todas as t-shirts. Então, na época, no primeiro Luna Fest, a gente colocava as etiquetas lá de fora do t-shirt, né? Uma marca, atrás. Foi incrível, a gente vendeu praticamente tudo que a gente tinha lá. E até hoje a gente vê pessoas na rua passando com a marquinha atrás. Deu muito certo. Nessa altura, eu conheci, também, o pessoal do ExtraMuralhas, Carlos Matos e a Célia.
Foi uma porta de entrada também, ou já conhecias as gentes do Extramuralhas?
HD: Na verdade, não foi no Luna Fest que eu os conheci. Fui lá na loja deles, na Alquimia, em Leiria. Me apresentei. Ela já mais ou menos sabia de algumas coisas que eu tinha produzido no Brasil, dentro do cenário. Conversei um pouco com ela. Peguei o contacto, mandei um e-mail e falei: “quero um stand aí”. Ela falou: “pode vir”.
De repente estavas no Luna e também no ExtraMuralhas?
HD: Estava no ExtraMuralhas 10 dias depois, na outra semana. E foi um sucesso o ExtraMuralhas, foi muito bom. Eu voltei sem nada, assim, aí fiquei sem stock.
Agora vamos direto ao que nos traz a esta conversa. Há lugar para o merchandising da música?
HD: Isso, desde que eu conheço o mundo underground, há um lugar indiscutível.
Ainda faz sentido?
HD: Totalmente sentido. Inclusive, hoje faz mais sentido ainda você ter merchandising.
Porquê?
HD: Porque hoje quase não tem mais grandes corporações atrás de bandas. Você não tem mais grandes gravadoras, a não ser o mainstream, muito mainstream. O merch é uma parte importante, para a divulgação e para a parte financeira, além de consolidar uma “marca” que é a banda. Um fã usar uma t-shirt da banda que ele gosta e andar pela rua, é porque ele gosta .
É um statement?
HD: Exatamente, dá a você uma identidade.
Uma identidade cultural.
HD: Dá uma identidade cultural e social. Você conhece a pessoa pelo que ela está vestindo ali. Você fica a conhecer um pouco dessa pessoa.
Consideras que é quase que indispensável a uma banda não levar algo de merch, nem que seja um pin a um euro. Mesmo a nível monetário, o merch pode ser uma forma de levarmos a banda connosco, de forma mais acessível.
HD: Exatamente. Quem gosta de uma banda, por norma, vai ter pelo menos um pin. Isso é dado adquirido. Isso é uma maneira de levar a música consigo e até a nível cultural, não é? E, normalmente, quem se afirma numa t-shirt compra um disco.
Podemos, também, fazer aqui um ponto de situação com o universo do digital. Quem já só ouve música nas plataformas e não tem um, e.g., leitor de vinis em casa. Aqui, o merch ganha outra força, concordas?
HD: Totalmente, era isso que eu ia falar. Hoje, a maioria das pessoas estão escutando em plataforma. Então para dar a volta isso, nada mais do que uma t-shirt, um pin, um saco para terem a música física. É importante para um fã ter uma chance de mostrar o que ele gosta. Às vezes, é bom mostrar para as outras pessoas o som que ele gosta, a tribo em que ele se mexe, participa e tudo mais. Isso é importante. Agora, para as bandas underground, isso é ainda mais importante. Como falei, consolida o fã. E é uma fonte de renda real, para hoje. Às vezes, você ganha mais com merch do que com a apresentação ao vivo.
Tens esse feedback não só porque costumas acompanhar uma banda, os So Dead, mas também pela tua experiência a nível de festivais. O ExtraMuralhas, e.g..
HD: A minha experiência, não só daqui de Coimbra, como do Brasil e mais, é essa. É de ver que a pessoa gosta e compra. Nem que seja um pin. A gente foi tocar lá em Lisboa, no Bota – os So Dead (PT) e o Pink Opake (BR) – eu estava junto nessa produção, e houve um pessoal que assistiu os So DeaD e os Pink Opake no ExtraMuralhas, saiu, e foram assistir de novo os dois lá no Bota. Chegaram lá com a t-shirt do So Dead e do Pink Opake. Isso para mim, atesta a importância de ter merch.
É uma validação.
HD: Sim. Isso para mim foi incrível, validou o que eu estou falando. Eu produzi as t-shirts do Pink Opake e eles postaram uma foto no Instagram, falando que não tinha nada melhor do que chegar no festival e ver a t-shirt sendo vendida cá. Dessa postagem, muita gente veio falar comigo pedindo as t-shirts do Pink Opake lá do Brasil, mas eu estava aqui. Aí, você vê o feedback. Outra coisa é o que anda acontecendo agora. As grandes bandas estão abrindo lojas de merchandising, antes do show acontecer nesse lugar.
Aconteceu com uns Radiohead, por exemplo.
HD: Radiohead, Oasis e outros abrem mega stores. Os caras vendem de caneta, fotos, bonés e tudo mais. Nestas grandes bandas, é um preço um pouquinho puxado, mas o mercado dessas super tours, de grandes festivais, percebeu que o merch é um grande negócio e cobram uma percentagem em cima para ela.
Ía perguntar-te isso. O que cobram para teres um espaço num festival, e.g., num patamar como o NOS Alive, é elevado?
HD: Cobram horrores, os grandes festivais. Para você ver como é importante o merch. Alguns números que eu acompanho e vejo, o que eu leio de bandas médias/ grandes, a parte do merch está virando quase 40% da renda. E é o que está pagando os técnicos e tal. Há muito dinheiro envolvido.
Podemos dizer que é uma boa estratégia de marketing, para as bandas, o merch e que “não existe” música sem merch, hoje em dia?
HD: É uma super estratégia. E sim “não existe”. O caso do Cure, e.g.. Quando essas empresas que cuidam desses grandes festivais cobram uma percentagem muito alta ao merch para uma banda poder vender no local, os Cure resolveram a situação dizendo que o merch deles ia estar noutras lojas, fora dos espaços onde toca (além do online) e quem quisesse comprar estava ali. Isto porque num festival, além do merch ficar muito caro para o consumidor final, a banda não estavam ganhando quase nada.
Não lhes compensava face ao que o festival cobraria. Quando falas de cobrar, é o espaço que tens dentro do festival, é a comissão?
HD: É o espaço comercial para você poder vender o seu merch. É a concessão para você poder vender o seu merch dentro de um evento, é caríssimo. Então, super fatura. O tal reflexo do peso que tem o merchandising.
HD: Sim! Para as grandes corporações intervirem nisso, é exatamente isso. Então, assim, bandas como Cure estão tirando e fazendo lojas particulares para você poder ter o seu merch mais acessível ao fã. Esta opção é bem mais barata. Bem, não digo no caso do Oasis, mas no caso do Cure, e.g., ficou aproximadamente 40% mais barato do que se você comprar no dia do concerto ou dentro do espaço dos festivais. E claro, continuo falando dos super festivais (e vende-se na mesma, mas com menos retorno para os músicos).
Voltando ao undeground. Há mais bandas a ter merch?
HD: Agora sim, o facto de uma banda como uns So Dead, uns Twist Connection, um Victor Torpedo terem o merch em todos os concertos, é um instrumento com retorno fácil e que ainda dá lucro. Além de ser uma forma de divulgação/ publicidade objetiva. É a fidelização do seu fã. O fã que usa uma t-shirt sua, que gosta realmente do seu trabalho e vai acompanhar você. Eu acho isso importantíssimo.
Agarrando nisso, disseste aí uns nomes, além dos So Dead, que é tudo gentes de Coimbra. Qual é a aceitação da Calhau?
HD: Eu acho que estou bem inserido no circuito de Coimbra. Não vejo nenhuma dificuldade das pessoas falarem comigo. Cada vez mais está tendo mais interação.
Só para alimentar um bocado mais a tua resposta, as bandas de Coimbra estão recetivas e a perceber que, afinal, o merch não é assim tão dispensável?
HD: Acredito que sim. E na época, na hora que começa o circuito mais forte de concertos e tal, as minhas encomendas aumentam. Já fiz merch para várias bandas de Coimbra.
O é que tu considerarias o kit essencial para uma banda ter num concerto à venda?
HD: T-shirts, pins e tote bags é essencial.
Temos o kit básico. E o kit premium?
HD: Aí entra o vinil, CDs, produzido pelas editoras, mas que vai junto com o kit básico.
Falaste de bandas que vendem fotos. Para o underground faz sentido?
HD: Não sei, mas um bom print de um bom design da capa, seria bem interessante. Isso é uma coisa que eu estava a pensar em fazer futuramente: posters. Posters – da banda, do evento ou da capa do disco – eu acho que seria uma boa experiência. Trabalhar com prints de imagens de bandas, para ter uma identidade visual boa e trabalhar em cima dessa identidade visual da banda. Identidade visual é importantíssima.
Só underground, ou se vier uma banda mainstream a Calhau está aberta?
HD: O underground é o que nós temos mais acesso, mas se aparecer um banda de um outro universo musical será sempre bem-vindo. Não nego trabalho.
Já mesmo a terminar como é que tu vês a situação atual da música e o seu futuro? Uma muito breve reflexão sobre a música, sobre a democratização (no bom e no mau) do fazer música, sobre a forma como se ouve música. Aplica-se o mesmo que ao resto… Se tu adormeces, passam-te à frente?
HD: (Risos). É, hoje tem uma molecada aí que deixa a gente nos chinelos, a gente das antigas. Muda tudo tanto e tão rápido. Para você acompanhar você tem que estar no mercado sim que estar sempre ativo no mercado.
Não generalizando, há a exceção para haver a regra, mas fala-se muito de já poucos ouvirem um álbum de fio a pavio, e.g., ou até mesmo uma música. Estamos numa época e consumo ultra-rápido do áudio, da produção. Como é que tu vês a música a sobreviver e até, consequentemente, o merch. Como é que tu vês um futuro da música nestas novas camadas que fazem um scroll e está visto?
HD: Podia falar horas sobre isso, mas eu vou tentar resumir. Eu sou de uma geração que era difícil comprar um disco das bandas que a gente gostava. Quando um amigo comprava o disco, a gente gravava em cassete e o acesso à música era muito diferente. Se um conhecido falava que tinha um disco dos Cramps, a gente pegava um autocarro com a fita, ía lá na casa de um gajo que a gente nunca viu na vida, batia na porta e falava: “Oi, você pode gravar? A gente sabe que você tem um disco dos Cramps.”. Ver o que acontece hoje, é assustador, sabe? Mas eu tenho sempre uma esperança porque a gente escuta música dos anos 1930, 50, 60, 80, 2000, e é música atemporal e sempre boa de ouvir. Eu escuto Joy Division como se eu tivesse comprado o disco na semana passada. Música boa não se acaba. Então isso é uma coisa que nunca ninguém vai tirar isso da gente. Eu digo da gente até mesmo essa nova geração, há quem meta a tocar um disco inteiro e tenha esta sensação. Já a música feita por inteligência artificial é uma das coisas mais estúpidas e imbecis que eu já vi na minha vida. Eu acho que isso não vai perpetuar.
E não vês a IA como um risco?
HD: Eu não vejo como um risco para a música, para quem realmente gosta de música. Para quem aprende a tocar, para quem trabalha com áudio, para quem já assistiu um grande espetáculo, um concerto, ou se emocionou com música, ou tem memórias afetivas com a música, não. Isso nunca. E eu ando percebendo que existe sim, uma nova geração, que é muito recente, que está indo contra essa situação. Inclusive estão colecionando aparelhos de reprodução de áudio que para nós são super familiares e para eles algo fora da caixa. Uma ameaça social, talvez, a IA.
Isso pode vir de uma saturação, de um cansaço?
HD: Eu acho que sim. E as pessoas sempre procuram um certo tipo de exclusividade, de ser exclusivo. Eu tenho, você não tem. Ou eu conheço, você não conhece. E eu acho que existe sim agora uma nova geração que está ainda brotando, está ainda pequena, mas que eu acho que está gourmetizando o facto da música ser orgânica. E tenho esperança que isso continue. Isto de forma muito sucinta. E outra coisa, que é uma coisa que nunca vai mudar nesse mundo, é o underground. Ou o faça você mesmo, como eu fiz, e como vários outros, e isso nunca vai mudar. Podem vir todas as gerações que alguém, ou meia dúzia de esquisitos, vão estar produzindo alguma coisa interessante. Não só musicalmente, como esteticamente, como socialmente, pensando fora da caixa. Isso aí é facto. É uma lei universal.
Quando te referes a isso, referes também, por exemplo, a nível da gravação.
HD: A nível de tudo. Hoje, vários produtores nem escutam mais música, eles só trabalham com gráficos. E eu estou vendo vários estúdios bons e importantes, mundialmente conhecidos, abolindo essa situação e voltando a usar coisas analógicas para poder escutar a bateria, escutar a guitarra, escutar o baixo, a voz, sabe? E fazer aquela coisa como era e como é para ser feito. Então isso é facto. E mesmo que seja sempre uma resistência… o underground, o rock ou qualquer tipo de som, que seja eletrónico, que seja feito com lata, com pedra, como que for, vai estar sempre vivo. E vai atrás, que vai sempre ser bom isso que está acontecendo. Então, não dá para generalizar essa geração. Dá para generalizar quando é plastificada, como a vida anda sendo. Mas se pode ver que sempre tem um pessoal que não está ali dentro daquele quadrado. E esse pessoal está produzindo. Eu ando vendo muita gente nova, jovens, fazendo coisas boas.
Por mais que custe resistir, o underground existirá sempre. Há público. Há bandas. Certo?
HD: Exatamente. E eu não vejo diminuir. Eu sempre vejo crescer. De certa forma, crescer. Principalmente, a minha geração. A minha geração não parou nunca. Alguns, pararam porque tinham que parar. Mas o restante, quem tinha sumo, está aí até hoje. O Victor Torpedo e um Kaló estão aí tocando até hoje e não param de lançar trabalhos bons. O Rui Ferreira da Lux, está há trinta anos sempre lançando artistas novos. Isto é uma resistência e a resistência é importante. Isso é oposição sobre o plastificado. Enquanto existir a humanidade, underground vai existir. Não tem como você não ter resistência. Não tem como você ficar na caixa. As pessoas vão sair da caixa. E quando saem da caixa, se encontram e fazem coisas boas.
Vocês existem online e stands quando estão presentes em concertos, se não estou em erro. Planos para o futuro da Calhau?
HD: É, a gente só existe online e só faz/ tem stands em concertos e festivais. Acho que a Calhau agora vai virar não só uma Calhau de merch, mas também uma Calhau de agenciamento para algumas bandas e cuidar da carreira de alguns, apostar neles. E o objetivo é cada vez melhorar mais a qualidade da Calhau.
Vocês já estão a cuidar dos So Dead, por exemplo. Vimos publicações e a Calhau está envolvida numa tour que vai levar a banda ao Brasil.
HD: Neste momento estamos a cuidar dos So Dead, sim. A ideia da Calhau é possibilitar, também e sempre que possível um intercâmbio entre Brasil e a Europa, e furar mais na Europa, com bandas de cá.
Uma logística difícil, eu diria.
HD: É difícil, mas já deu certo. Está a dar certo.
A nível da Europa, a ideia é, e.g., bandas de Coimbra viajarem um bocadinho além dos Pirinéus?
HD: A minha ideia é de fazer trabalho e investir nas divulgações e levar para a Espanha, para a Itália, para a França. Hoje eu já estou fazendo esse trabalho de divulgação para todos os bookers e produtores que eu conheço, nestes três países.
Contactos e experiência que adquiriste do Brasil?
HD Do Brasil, de labels que eu conheço, de pessoas que trabalham com áudio. Então, todos esses países que eu citei e os Estados Unidos, já sabem que os So Dead existem. Um colaborador do Calhau vai estar no South by Southwest, e ele está indo com o seu material, mas também leva material dos So Dead. Gostava de ter a Calhau como um ponto de referência aqui em Portugal para agenciamento de concertos, de merch, uma banda que vem do Brasil para cá, e.g., não precisar de trazer merch, faz comigo aqui.O caminho da Calhau não passará, espero, só por merch.
Pode encontrar a Calhau online e nos concertos que acontecem por aí.
Porque o merch tem ritmo e a música é ritmo, deixemos-nos levar por um pin daquela banda que ouvimos em loop, no nosso sistema de aúdio. •














