“The Stone of Madness” / Birds are Indie

Os Birds Are Indie editaram, no passado dia 27 de março, The Stone of Madness, o sétimo álbum de originais. E, em simultâneo, lançaram “I Could Laugh”, segundo single do disco.

Depois de Ones & Zeros (2023), um disco voltado para o exterior e para as fraturas do mundo contemporâneo, o trio de Coimbra formado por Ricardo Jerónimo, Joana Corker e Henrique Toscano desloca agora o foco. The Stone of Madness instala-se num território mais íntimo, onde o conflito deixa de ser colectivo e passa a ser interno: mais difuso, menos explicável e, por isso mesmo, mais persistente.

A abertura faz-se com “Not Today”, o primeiro single, e define o tom desde os primeiros segundos: repetição, tensão controlada, uma pulsação que avança sem nunca se libertar completamente. A caixa de ritmos não é estética, é condição. A sensação de adiamento que a canção transmite é estado contínuo, e atravessa o álbum inteiro.

“I Could Laugh” chega de outro lugar. Há uma leveza aparente na superfície, mas o que se instala por baixo é mais denso: um olhar já filtrado pela experiência, onde o distanciamento não significa indiferença, mas consciência. O riso do título chega como a posição que resta depois de uma certa clareza.

Entre estes dois momentos, The Stone of Madness constrói-se com variação e contenção. Em “Useless Effort”, a imagem da flor no deserto fixa uma ambiguidade que não se resolve, nem promessa, nem condenação, apenas permanência sob tensão. “Le Bec dans l’Eau” prolonga a ideia de suspensão, mantendo a canção num território intermédio, sempre em aproximação, nunca em chegada. “Bend” introduz fricção mais física: movimento que implica cedência sem nunca se tornar confortável. “No More Alibis” expõe sem dramatizar. “Twisted Luck” trabalha o desvio, uma ligeira distorção na forma como as coisas acontecem. “Time and Again” insiste, não por hábito, mas por impossibilidade de fechar o que fica em aberto. “When Something Changes” encerra o disco com a única hipótese que o título admite: a mudança como facto, não como promessa.

Ao longo dos dez temas, a diversidade de abordagens, entre electrónica e instrumentação orgânica, entre diferentes registos vocais, nunca se traduz em dispersão. Há uma linha clara, sustentada por uma ideia de controlo que não limita, mas orienta. Como a própria banda resume com a economia certa: “it’s only pop & roll but we like it”.

O álbum, faixa a faixa, nas palavras destes pássaros indie que há muito conquistaram o público:
01. Not today – Esta é a uma faixa que já andávamos a tocar ao vivo nos últimos concertos antes de começarmos a fase de composição e gravação do novo disco. É uma música algo catártica e visceral, principalmente na forma como a Joana a canta em palco. A linha de guitarra é acutilante e suja ao mesmo tempo. E o baixo, juntamente com a drum machine e os sintetizadores, dão-lhe uma pulsação e uma tensão constantes. A letra é sobre o sentimento de frustração de querer que uma série de coisas aconteçam, mas elas teimam em nunca mais acontecer.

02. Useless effort – Vemos este disco ‘The Stone of Madness’ como uma espécie de irmão siamês do anterior ‘Ones & Zeros’, onde as narrativas eram muito colocadas na perspectiva de personagens ou de figuras algo difusas, que não o autor/intérprete. Isso originou letras que nos sugerem imagens umas vezes algo cinematográficas, outras pouco surreais e outras ainda ligeiramente abstractas. Esta ‘Useless effort’ segue um pouco essa linha.

03. I could laugh – Depois de duas faixas cuja base são ritmos de drum machines construídos por nós, esta é a primeira do disco num formato mais rock. Sentimos uma energia especial ao tocar/cantar esta música. O instrumental e a melodia têm uma lógica um pouco pop, que contrasta com a letra, onde alguém percebe/admite que se sente a enlouquecer, mas, ao mesmo tempo, algo livre…

04. Le bec dans l’eau – Para não nos perguntarem sempre porque cantamos em inglês, aqui está um refrão em francês… A expressão ‘Le bec dans l’eau’, explicou-me um amigo francófono, é uma metáfora para exprimir o sentimento de se estar de mãos atadas ou de não se saber o que fazer em determinada situação.

05. Gold and symmetry – Voltamos às drum machines, neste caso num BPM mais lento e contemplativo. Ainda assim, esta música tem um balanço de que gostamos muito. Uma vez mais, a letra fala sobre a sensação de se estar perdido e desanimado, mas, de alguma forma, ainda em busca de algum brilho e estabilidade…

06. Bend – Esta foi a única música composta de início ao fim no nosso estúdio e não na sala de ensaio. Tudo começou com a criação de um padrão rítmico na drum machine e no riff de guitarra. A letra já estava escrita numa folha em cima da mesa e encaixou imediatamente na estrutura, parecia que tinha ali estado sempre à espera. Também aborda a ideia de loucura e de se estar já num estado de possível não retorno, seja lá de/para onde for.

07. No more alibis – Nesta faixa tentámos, assumidamente desde o início, fazer uma música mais dançável, porque queríamos que este disco também tivesse um momento assim (tal como no disco anterior, com a música ‘So many ways’). Não é propriamente um tema festivo, mas tentámos imaginar que estávamos na MadChester, há uns 40 anos, a tentar dançar no meio da neblina. Quando já não há desculpas na manga, é o mínimo que podemos tentar fazer…

08. Twisted luck – A estrutura desta música é talvez a mais simples de todo o disco e isso aconteceu porque a letra partiu de um jogo de justaposição de palavras, pela sua métrica e pela sua sonoridade própria. É algo surrealista e reforça a ideia do refrão de não se saber bem para onde será melhor ir.

09. Time and again – Esta é uma canção com uma construção muito pop, mas em que a letra é bastante ácida. Parte da perspectiva de alguém que sabe o poder que tem e que se sente no direito de obter tudo o que quer, seja por que meios for. E a ideia dessa deriva narcísica, prepotente e abusadora, aplica-se a todo o tipo de relações, sejam elas pessoais, profissionais ou políticas…  

10. When something changes – Desde o primeiro esqueleto da música e da letra desta faixa que tínhamos a certeza de que seria a última do alinhamento. É uma música que compusemos na sala de ensaios, mas que foi depois muito trabalhada no estúdio, porque queríamos que, apesar de ter um ponto de partida folk, que fosse sendo desconstruída com o avanço dos compassos. A sua melancolia e a forma como acaba, num longuíssimo mantra cantado por cima de uma massa sonora crescente, pareceu-nos a melhor forma de terminar o álbum.”

Birds Are Indie ao vivoThe Stone of Madness nasceu em palco, ou mais exactamente, nasceu do que três anos de digressão com Ones & Zeros deixaram sedimentado. A banda incorporou na escrita a energia construída ao vivo antes de a fixar em estúdio. A apresentação do álbum já está em curso: Porto, no Maus Hábitos. Guimarães, no CAAA e Braga no RUM by Mavy já foram, mas vem mais por aí.
26 março – Porto, Maus Hábitos
27 março – Guimarães, CAAA 
28 março – Braga, RUM by Mavy
16 abril – Lisboa, BOTA
17 abril – Barreiro, Sala 6
18 abril – Coimbra, Salão Brazil
23 maio – Sabugal, Auditório Municipal
05 junho – Évora, Armazém 8
20 junho – Castelo Branco, Café com Leite

A ouvir de fio a pavio. A não perder este trio, num palco por aí. •

+ Birds are Indie – Instagram / Bandcamp / Youtube
© Fotografia: Tiago Cerveira .

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