Será a arte urbana a 8.ª arte?

Sílvia Câmara, coordenadora da GAU, concorda e vai mais longe quando fala sobre este movimento que é inclusivo e democrático, e muito tem contribuído para o virar da página da história enquanto disciplina.

Porque estamos na véspera do início do Muro – Festival de Arte Urbana de Lisboa 2016, que acontece entre 30 de abril e 15 de maio, com o epicentro no Bairro Padre Cruz, na freguesia de Carnide, eis a entrevista a Sílvia Câmara, coordenadora da Galeria de Arte Urbana (GAU), que deu os primeiros passos em 2008.

De que forma se apresentava a street art no ano que a GAU foi fundada?
Quando surgimos, a comunidade de arte urbana já tinha uma maturidade significativa em Lisboa e organizavam-se eventos, como a Visual Street Performance, que era “o” evento de arte urbana, e havia também registo de intervenções em espaços interiores, além da rua. Portanto, nascemos num ninho muito favorável a esse nível, mas desfavorável numa outra perspetiva, porque a GAU surge quando estava a decorrer o processo de reabilitação do Bairro Alto e, por isso, estavam a ser, simultaneamente, limpas intervenções nas ruas desse que é, ainda hoje, um pequeno laboratório de arte urbana na cidade. Ou seja, a plataforma nasce num momento em que foi possível agarrar esse instante e aproveitá-lo para o transformar numa estratégia.

Quais foram, então, as primeiras intervenções feitas com o apoio desta plataforma?
Começámos com o conjunto de painéis na Calçada da Glória, mas achámos que era excessivamente restrito para o que pensávamos fazer na cidade, razão pela qual delineámos uma estratégia em várias áreas de atuação, que ainda hoje se mantêm na GAU – as áreas de atuação artística, pedagógica, de relações internacionais, de apoio à investigação, de inventariação de arte urbana –, olhámos para a cidade e pensámos onde poderíamos intervir, tentámos manter relações de proximidade com os artistas cuja confiança foi conquistada ao longo dos anos, à exceção dos optaram pelas peças não autorizadas. Agora fechamos este ciclo com este evento e iniciamos um novo ciclo com este festival.

“Hoje, as raparigas têm uma exposição mais forte na cidade”

Como tem sido este trabalho com artistas cuja sua arte se traduz, sobretudo, num manifesto?
É um grande desafio. Nunca tinha trabalhado com uma camada tão jovem – estamos a falar de artistas, em que o mais novo tem 12, 13 anos e o mais velho tem 42, 43 anos. Se há artistas emergentes, são estes, tanto que todo o seu percurso ultrapassa todo o seu período de amadurecimento, com todas as suas dúvidas existenciais e problemas que um adolescente enfrenta, e é muito belo e muito interessante vê-los a evoluir nas suas técnicas e nos seus discursos e, ao mesmo tempo, perceber o quão difícil é continuar uma carreira artística na arte urbana, pois é também um grande desafio perante as contradições que a própria comunidade encerra em si mesma – se, por um lado, há quem trabalhe nas galerias e locais autorizados, por outro há quem continue a trabalhar em locais não autorizados, como as carruagens dos comboios, há quem tem patrocínios e quem nem sequer pensa alguma vez ser patrocinado por uma marca que seja, como os mais puristas, os que estão mais ligados à génese do que é o manifesto na rua. Perante estas realidades absolutamente contrastantes é fascinante acompanhar e apoiarmos estes manifestos, além de que há cada vez mais raparigas ligadas à arte urbana. Quando começámos, praticamente não existiam raparigas ligadas à arte urbana, em Lisboa. Hoje, as raparigas têm uma exposição mais forte na cidade e a GAU propicia o facto de não terem de fugir da polícia e de não andarem à noite a grafitar paredes, daí que lhes seja dado, pela GAU, um novo fôlego, exposição e oportunidade de poderem trabalhar sem percalços.

O que mudou desde 1998, ano em que o grafitti tomou maiores proporções na capital portuguesa, até ao presente?
Mudou, sobretudo, a forma expressiva desta comunidade que teve um aumento exponencial e, hoje, esse grupo de artistas já não tem medo de trabalhar a arte urbana e nem sempre se iniciam na rua, ao contrário dos primeiros, da old school, que são, maioritariamente, autodidatas. Ou seja, esses artistas de hoje vêm, substancialmente, de outras áreas – das belas artes, do design gráfico, da banda desenhada, da ilustração. É uma comunidade muito mais eclética no que toca à formação, tendo o nível de escolaridade elevado muito, o que se reflete nas técnicas, no discurso e nas abordagens, que são completamente diferentes em relação ao que acontecia no início. O resultado traduz-se em trabalhos absolutamente distintos, de referência, como o do Vhils – que do Seixal veio para Lisboa, onde começou a adotar outras técnicas. Diria que há, de facto, uma grande evolução entre 1998 e 2016.

“(…) o grande movimento que está a marcar a história de arte do início do século XXI é a arte urbana (…)”

Sendo historiadora de arte, será que este é o culminar de uma 8.ª arte?
Gostaríamos de pensar nisso, até porque a arte urbana está a marcar a arte contemporânea neste momento, ou seja, o grande movimento que está a marcar a história de arte do início do século XXI é a arte urbana, pela sua expressão global e pela forma como está a mobilizar a própria investigação, pois já e começa a haver antropólogos, sociólogos, formandos das belas artes e historiadores de arte interessados e a dedicarem-se a este tema. Por conseguinte, acho que é um movimento que, pelas suas contradições, pelos temas que levantam – como o Banksi, que levanta questões muito fraturantes e, diria, incisivas da sociedade atual –, e que não pode deixar de estar referido na história de arte neste início de século sendo, por isso, muito gratificante para mim e para a equipa da GAU, em Lisboa, acompanharmos esta mudança que a arte urbana está a causar na cidade e os contributos que pode trazer. Acho que é uma das grandes correntes atuais, além de que é fascinante, mas muito pouco convencional e muito pouco ortodoxo para uma historiadora de arte como eu, que estava habituada a métodos de trabalho tradicional, pelo que é preciso ser-se flexível para se adaptar a esta realidade e acompanhar a evolução deste fenómeno, a qual está a acontecer de forma vertiginosa, no bom sentido.

Numa súmula, como será a primeira edição do Festival de Arte Urbana de Lisboa?
Vibrante, fulgurante, pujante. Serão 15 dias de intenso, particularmente ao fim de semana e na última semana, com muitas atividades, não só de artes plásticas, graffiti, street artart, pois haverão muitas outras componentes das artes, com enfoque também na componente pedagógica, envolvendo as associações que habitam no bairro e trabalham o bairro. Será fascinante vir ao bairro, estar com os artistas e perceber como as peças vão evoluindo e ver como os residentes se vão relacionar com as obras dos artistas.

Falamos, portanto, de uma arte inclusiva.
E muito democrática. Só para dar um exemplo, a GAU tem o projeto dos vidrões, sem objetivos estéticos, mas essencialmente de inclusão das comunidades, ou seja, qualquer pessoa pode pintar o vidrão, mesmo não tendo uma habilitação nem capacidade artística – desde as crianças dos infantários aos idosos. É, por conseguinte, altamente inclusivo e democrático, porque todos nós temos o direito de, no espaço público, podermos ver uma peça de arte, frui-la, pensar sobre ela. É um direito. No entanto, ainda falta conquistar muitos destes territórios na cidade. •

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© Fotografia: CML / DPC / José Vicente 2016

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