Mónica de Miranda estás prestes a apresentar-nos “Hotel Globo #2” – o segundo capítulo da exposição com mesmo nome apresentada no Museu Chiado, em 2015, e pela qual Mónica de Miranda foi nomeada para o Novo Banco Photo, apresentada no Museu Berardo este ano.
A exposiçao resulta na produção de uma série de novas fotografias que são expostas acompanhadas de um vídeo da mesma série e um painel de plantas do projeto de arquitetura do Hotel Globo, construído em 1950 pelo emigrante e médico português Francisco Martins de Almeida. Conceitualmente, o Hotel abandonado permanece como um enclave simbólico da história angolana recente e, simultaneamente, como marco da gramática colonial da arquitetura modernista do Ultramar. Aparentemente, permanece na sua existência de hotel, porém grande parte dos quartos encontram-se vazios, à espera do que ainda esta para vir.
O Hotel sobreviveu, até hoje, num dos bairros cosmopolitas da cidade e mais à mercê da recente vaga de especulação imobiliária, facto que dá as bases à artista para elaborar uma narrativa, simultaneamente ficcional e disruptiva, que decorre no interior do hotel com as imagens de exteriores, do Porto de Luanda e da expansão urbanística da cidade com todas as suas contradições. O Hotel Globo reúne histórias de resistência, de adaptação e de procura.
Conjuntamente com uma série de novas fotos, Mónica de Miranda exibe o vídeo “Hotel Globo 2015” pontuado por uma narrativa fragmentada onde um casal silencioso habita quartos que serviram também de lugares de passagem para comerciantes rurais, para encontros românticos, mas também como refúgio das milícias durante a guerra civil. Na histórias narrada no filme, o Hotel parece acordar fantasmas como também ensaia um drama pessoal, por tempo indeterminado, na atmosfera modernista de um edifício cansado, que tem uma necessidade urgente de restauro. Neste trabalho, como em filmes anteriores de Mónica de Miranda, há uma sensação de imobilidade que se refere tanto à fotografia como a uma posição filosófica em relação às relações que são tão impenetráveis quanto a natureza dos locais em que habitam. É uma metáfora para o naufrágio social e económico que está a deformar Luanda; o edifício, de acordo com o atual proprietário, está numa zona intemporal, preso entre um passado promissor e uma demolição inevitável.
A tentativa falhada da recuperação, na década de 1990, por motivos políticos e o desinteresse económico é, para Mónica de Miranda, a razão para constituir, neste contexto social e cultural angolano, uma ficção de possibilidades, patente na montagem das plantas arquitectónicas que servem como metáfora para um projeto ideal, sem execução real. Hotel Globo reitera a necessidade de preservar os lugares enquanto símbolos de construção da memória coletiva e enquanto micro‐histórias de uma geografia emotiva, que desempenha um papel essencial para singularizar cada cidade e a sua história, e reforça também a urgência de repensar modelos de desenvolvimento, e de os mesmos assumirem a sua relação com o passado. Os espaços aqui retratados mostram fragmentos de vivências e memórias da história de um lugar.
“Hotel Globo #2” pode ser visitado entre 11 de novembro (inauguração agendada para as 19h30) e 12 de dezembro no Espaço Espelho d’Água, em Belém – Lisboa. •