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À conversa com From Atomic

Julho não estava, ainda, suficientemente quente. Precisávamos de trazer energia atómica para a Mutante para tornar tudo ainda mais quente. A solução era simples: From Atomic.
Trio de Coimbra formado em 2018 que, neste pandémico ano, sem medos, lançou o seu primeiro (e viciante) álbum de originais “Deliverance”. O método para trazer esta nova energia para a Mutante? Acicatar o trio para dois dedos de conversa, com toda a segurança nuclear.

Os From Atomic são um núcleo q.b. ‘atómico’ que chegou até nós com Deleuze na algibeira: “Na duração íntima, onde, em cada átomo que nos forma, vive o passado, o presente e o porvir, cada ‘agora’ é a simultaneidade que se converte em ‘imagem-cristal’, unidade indivisível da imagem virtual e a imagem actual.” Rafael Godinho, introdução da obra Gilles Deleuze, A Imagem-Tempo, Cinema 2. Algo que nos deixou intrigados, num muito bom sentido, por escolherem tal referência para se apresentarem.

Ainda em referências e influências falam de Yeah Yeah Yeahs, The Jesus & Mary Chain, Cocteau Twins, The Cure, DIIV, Siouxsie & The Banshees, Joy Division, The Raveonettes ou Sonic Youth. Tudo facilmente perceptível para quem ouve “Deliverance”; influências que criam originais indiscutíveis. 

Se em maio de 2018 lançavam “Heaven´s Bless”, uma música que despertou curiosidade na cena musical nacional – num claro prenúncio do que hoje temos: um álbum consistente e seguro – em março de 2020, dois anos depois do Bing Bang Atómico, os From Atomic (FA) editam o primeiro disco de originais (anunciado aqui) que foi lançado no espaço cósmico em rotações sem fim.
Com o selo da Lux Records, “Deliverance” foi gravado e produzido nos estúdios da Blue House por Henrique Toscano e João Silva (Birds are Indie e a Jigsaw, respectivamente), tem mistura e masterização de João Rui (a Jigsaw), contando ainda com colaboração de Rui Maia (X-Wife, Mirror People) numa música.
Levou tempo no forno, mas veio para ficar, para ser ouvido e re-ouvido e para não ser perdido, e é a razão para aquecermos a Mutante com dois dedos de conversa com Alberto Ferraz (AF), a Sofia Leonor (SL) e o Márcio Paranhos (MP).

No meio deste vasto universo cósmico, quem são estes três elementos como é que estes três se cruzam, juntam e acabam por nos prender na sua libertação/ “Deliverance”?
SL: Os três encontraram-se porque, simplesmente, tinha de ser; coloca-lhe um devir ou uma qualquer lei geral da atracção promovida pelo universo, algo que tinha de vir a ser para que a libertação deste álbum pudesse ser uma realidade efectiva. Eu e o Al iniciámos um pequeno projecto secreto no nosso laboratório no subsolo, cinco andares debaixo de terra, a estudar as mais intricadas formas de criar umas quantas bombas para iluminar os céus deste planeta. A complexa fórmula só ficou completa com o terceiro elemento, o Márcio, que se juntou para completar a equação que tornou possível a explosão de “Deliverance”.

São um “novo” trio no panorama da música nacional logo… Não vos posso poupar aos clichés das entrevistas.

From Atomic. Devo ler o significado do vosso nome como um trio que me quer dar uma energia brutal musical que me arrasa, no bom sentido, ou devo deixar as leis da física nuclear, da massa atómica, e há algo mais filosófico que não desvendo?
SL:
Como seres individuais que somos, temos a destreza para interpretar os potenciais significados do que quer que seja como bem entendemos. Para mim, há uma dualidade de simbolismo, um sem querer propositado para promover a confusão emocional; desde a simplicidade do mero átomo à máxima energia que explode numa sonoridade que desperta até os neurónios que pensávamos eventualmente já ter perdido. From Atomic pode significar o que se quiser, pode ser o que quer que seja, inclusive uma pétala de papoila a cair lentamente na direcção de uma banheira cheia de água do Mar Morto, pronta a recebê-la e prendê-la com os seus tentáculos de sal.
Creio que vou pelo trio que me dá uma energia mágica que faz acordar neurónios quase perdidos.

Na vossa missiva de apresentação quase vos revejo como um velho Diógenes com novos propósitos. Ele procurava um homem honesto, vocês procuram aceitar e entender o mundo e, para tal, agarram na vossa lamparina e descem às “profundezas inerentes ao processo de concepção, de identidade”.

Ora se um grande barril era casa de Diógenes, este vosso álbum de estreia – “Deliverance” –, é a casa que vocês habitam para vos ajudar na tal procura e a expor “as fragilidades que tanto [vos] atormentam”, onde ousam “acreditar que o que [vos] rodeia poderá não ser (inteiramente) real”?
SL:
Tal como Diógenes usava o barril para demonstrar as virtudes da simplicidade e despojamento da vida, “Deliverance” tornou-se o epítome de uma emancipação pessoal, através das suas melodias que tentam o cérebro a acordar e das letras que procuram reconfigurar o mundo que nos rodeia de forma a obter algum tipo de redenção, seja isso possível ou não.
MP: O álbum de estreia será mais uma floresta que ousa perpetrar uma busca incessante na compreensão do que nos define. Ela é densa, por vezes turva, mas repleta de rumos que podemos tomar. Quando vivemos num mundo focado na ideia do que poderá existir, apenas a intenção de quem ousa trespassar a materialidade consegue encontrar respostas. Este foi um percurso disforme, com uma urgência de pôr a realidade a nu.

 

From Atomic pode significar o que se quiser, (…) inclusive uma pétala de papoila a cair lentamente na direcção de uma banheira cheia de água do Mar Morto, pronta a recebê-la e prendê-la com os seus tentáculos de sal.

 

Outro ponto curioso, na forma como chegam até nós, para quem gosta de esmiuçar o que está por detrás do som que se ouve, é o chegarem com o nome de Gilles Deleuze no vosso discurso, pela mão de Rafael Godinho. Nome incontornável da filosofia do século XX e que não me lembro de encontrar, nos últimos tempos, associado notas de apresentação de álbuns.

Como se cruzam com o trabalho do ensaísta Rafael Godinho e qual a importância deste e de Deleuze para os From Atomic enquanto músicos e criadores de imagens sonoras e de movimento, no tempo? Ou absolutamente nada e apenas vos tocou a citação com que nos brindaram.
SL:
Deleuze criou os seus próprios conceitos após estudar os dos outros. Enquanto músicos e criadores fazemos o mesmo, na expectativa de obter a mesma alegria imanente.
MP: Desde muito cedo, fui habitado pela angústia e curiosidade de compreender a natureza do tempo, compreender a significação do que é existir no mundo. Esse interesse manifestou-se primeiramente nas Artes Plásticas/ Instalações Interactivas, e apenas mais tarde na música. O cruzamento específico com Deleuze, deu-se após a leitura de estudos académicos no âmbito de “Duração e Simultaneidade”, realizados por Cristina Fernandes. Fascina-me a noção de um tempo imaterial, que “cristaliza” o real, onde se dá a convergência do momento passado, presente e futuro num só, uno e indivisível. Porque todos nós somos produto das nossas experiências passadas, que trazem consigo o aprendizado que circunscreve o nosso presente, assim como, a expectativa do futuro. Enquanto criadores, não podemos fugir ao tempo, pois ele é a matéria da qual se faz a Arte.

É o tempo que faz o movimento ou o movimento de faz o tempo, na música? Ou ficamos no eterno limbo do ovo e da galinha…
SL: Eu ficava no eterno limbo do cu da galinha; nem tempo faz o movimento nem o movimento o tempo; estão universalmente e irremediavelmente interligados sem serem causa ou consequência um do outro.
MP: Tudo é tempo e o tempo é tudo. A música é meramente uma forma de esculpir a nossa percepção do tempo físico. Por outro lado, e voltando a Deleuze, dá-nos pistas da duração íntima (tempo puro), onde melodias e lírica nos transportam para a nossa consciência, momento no qual se transcende ao patamar do tempo indivisível, onde o antes, o agora e o depois são um só.

 

© “Heaven’s Bless”, 2018.

Num regresso aos clichés, o que há nas entrelinhas do nome – “Deliverance” – deste vosso álbum de estreia? Grito do Ipiranga dos músicos que havia em vós e/ ou o espanta fantasmas que incomodam?
SL:
Para mim os dois. O culminar de um processo de maturação musical que despontou na concretização deste projecto e um claro espanta espíritos pessoal, catártico, libertador do avassalador peso do mundo que, por vezes, parecemos carregar nos ombros.
MP: “Deliverance” é uma entrega genuína ao mundo. Da mesma forma que Heráclito não passa o mesmo rio duas vezes, esta entrega é uma confrontação com os nossos medos, numa tentativa de sobreviver aos golpes que infligem, sabendo que nunca mais poderemos voltar atrás na nossa intenção. É uma cicatriz à superfície da pele, que não se pode mais ocultar.
Deixam-me sem palavras, com as vossas construtivas respostas.

Se há sempre duas faces da moeda, como dizem em “Double Stake”, qual é o outro lado desta libertação musical?
SL: Quando criamos algo que vem de nós enquanto seres individuais é inevitável que a criação seja sempre algo mais que mera obra do acaso; não é só música ou um juntar aleatório de notas musicais, é sentimento, é emoção, é aceitação ou negação, é tudo e nada, mas é sempre mais do que aquilo que aparenta.

A música pode mudar-nos e muda o que nos envolve? Há escolha através da música (e não só)?
SL:
Claro que sim. A música, na sua plenitude, não passa de um processo conceptual de como alguém vê o mundo. Nós decidimos o que queremos ouvir e essa escolha, por si só, define-nos, molda-nos e muda-nos, mais cedo ou mais tarde.
MP: A música, como qualquer expressão artística, pode mudar-nos e mudar o mundo, se for Arte. Não sei se a música é uma escolha para quem compõe ou canta, entendo-a como uma necessidade. Notoriamente, para o fruidor, poderá ser uma escolha, mediante a afectação que cada linguagem sonora estabelece em si. Já o domínio da activação, que ocorre em cada consciência íntima, não é uma opção. A única escolha que provavelmente nos é reservada, será a de nos propormos vislumbrar perspectivas, algumas possivelmente divergentes.

 

Enquanto criadores, não podemos fugir ao tempo, pois ele é a matéria da qual se faz a Arte.

 

No conjunto das 11 músicas deste álbum há uma que conta com a colaboração de Rui Maia (X-Wife, Mirror People). Porquê este músico e que outros gostariam de acicatar no futuro para outras colaborações?
AF:
O Rui é alguém que admiramos há muitos anos e com quem eu tenho uma ligação antiga, pois ambos somos viciados em guitarras e equipamento musical, além de termos muitos gostos em comum. No momento de pensar em alguém que acrescentasse algo ao disco, foi logo o 1º nome. O Rui acabou por escolher trabalhar aquele que será um dos singles do disco e que, curiosamente, ainda não tinha, na altura, arranjos de teclados. Sendo os teclados uma forte presença na nossa música, num próximo disco, talvez o Pedro dos Ghost Hunt que esteve quase para participar neste “Deliverance”.

Que tem o ‘post punk’ dos anos 80 que vos cativa tanto (além do ‘indie noise’ de 90) e que inevitavelmente influencia a vossa música?
AF: A resposta será mais o que é tem que não nos cativasse… Foi uma era em que se acreditou que era possível fazer tudo na música e que não havia fronteiras. Nasceram um sem número de bandas icónicas, mas também géneros musicais; o punk esventrou os anos 70 e o que veio a seguir foi um aveludar de sonoridades … O efeito chorus nas guitarras, os synths maravilhosos que surgiram, as vocalizações projetadas, os delays e o negro, muito negro.

Sabendo que o vosso álbum foi gravado e produzido na Blue House Studios e tem o selo da Lux Records, ambas situadas na vossa cidade de Coimbra, vamos para o fim da entrevista com ambas no embalo.

Para os From Atomic, e para outros músicos, ter uma editora e um estúdio como a Lux Records e a Blue House, em casa, é uma “Heaven’s Bless”? Uma sorte que nem todos têm… Talvez. Que vos deu/ trouxe a presença de ambas, na cidade, enquanto músicos…
AF: Chegámos à Blue House pela mão do Vitor Torpedo que gostou de nós desde o início e que nos apresentou ao Jorri e ao Jerónimo, da Blue House. Fizemos uma mini-tour com os The Parkinsons e depois até ao Rui da Lux Records foi uma questão de tempo, mas cremos que todos acreditaram em nós de imediato, o que foi muito bom para nós. Na maioria das vezes estes processos são lentos e nem sempre acontecem, mas talvez pela diferença e exclusividade da nossa sonoridade, fomos abençoados por estas gentes.
SL: Ambas foram uma “blessing” caída dos céus, definitivamente. Sem o apoio de estruturas como a Blue House e a Lux Records dificilmente teríamos a oportunidade de ter um álbum gravado e editado, ainda para mais, made in Coimbra. No feroz mundo competitivo que nos assombra, qual predador que descarna a carcaça sem dó nem piedade, não deixando nada para os demais, a BH e LR são um balão de oxigénio e um incentivo para os músicos que querem ver as suas obras divulgadas de maneira profissional, num ambiente familiar em que todos dão o melhor de si por nós.

Para terminar, cada um de vós, que “demónio” musical, da Lux Records e/ou da Blue House, escolhiam para dançar convosco numa pista de dança da vossa cidade? Isto agarrando, claro, na vossa música “Dancing Demons”.
SL:
Possivelmente, e sem demérito para os dotes de pista de todos os demais, escolheria o Vitor Torpedo. Um exemplo enquanto músico e indivíduo, uma referência demoníaca incontornável que sempre nos apoiou desde o início: a ele também pertence um pedaço desta Deliverance. Quanto ao local, não querendo ser cliché, mas já sendo, teria de escolher o eterno States, que tem sempre tendência para se reerguer das cinzas, a fénix desta cidade à beira-rio plantada.
AF: Sem pestanejar, Vitinho e, claro, no States.
MP: Não há melhor forma de dançar numa pista de dança do que ao som irreverente de Legendary Tigerman, ou no âmago da escuridão que transporta o universo de Tracy Vandal.
Se algum dia essa noite de dança acontecer, a Mutante quer estar presente para registar cada segundo, cada passo de dança, nesse mítico espaço da vossa cidade. Será, certamente, épico.

 

© “Heartbeat” – “Deliverance”, 2020

Os From Atomic sobem amanhã, dia 25 de julho, ao palco do Salão Brazil, em Coimbra, pelas 21h30, para apresentarem “Deliverance”, em casa. Um concerto a não perder.
Um álbum obrigatório. Um trio a não perder da sua vista, nem do seu ouvido. •

+ From Atomic
© Fotografia: João Azevedo.

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