RESTAURAR: as Casas, com Antic Teatre I

A seguir ao livreiro na Carrer de Verdaguer i Callís, logo a seguir, no número 12, vi um portão aberto do mesmo lado, o esquerdo, e olhei: umas escadas levavam ao Antic Teatre, que me despertou de imediato a curiosidade. Regressei um dia depois.

Quando regressei ao Antic Teatre, antes mesmo de subir as escadas e deparar-me com a circunstância do espaço exterior, com uma esplanada enorme e muito acolhedora, houve uma frase ali escrita que sem dúvida me fez logo elegê-lo como um dos lugares da minha indagação, e que o dizia estar ameaçado pela “gentrificação”. Em Barcelona, como em Lisboa ou no Porto, em qualquer cidade actual com capacidade de atracção no que ao turismo respeita, a gentrificação espreita como um fantasma e molesta como uma praga. Dirigi-me ao balcão do bar do Antic Teatre e comecei a expor o meu intento; logo o senhor me encaminhou para uma pessoa da organização do teatro, a quem voltei a contar a minha história. Ouviu-me com atenção e registou o meu contacto de email, para me dizer passados dois dias que a directora do Antic Teatre e a responsável pela comunicação estavam disponíveis para reunir comigo, propondo-me uma data e hora. Respondi que sim, claro. A simplicidade com que tudo aconteceu deixar-me-ia feliz, primeiro, mas, simultaneamente, bastante intrigada, neste sentido: estava perante pessoas, sem dúvida, especiais, daquelas que se disponibilizam, que fazem as coisas acontecer, que são, até, os próprios acontecimentos. 

Não me enganaria. Porque a directora do Antic Teatre, Semolinika Tomic, e a responsável pela comunicação, Verònica Navas, com quem conversei durante uma inesquecível tarde, demonstraram ter nos olhos os sonhos, e nas palavras, tanto a raiva electrizante, como a incandescência da esperança. Os sonhos e as esperanças fundam-se no “bem comum”, como Semolinika vincou: a resistência, tanto do espaço, como dos próprios corpos, sem medo. Resistir a quê? À propriedade apenas privada, e à privatização do próprio ar; às fábricas de arte; à indústria cultural; ao neoliberalismo; ao descaramento dos despejos que atingem quem habita nas partes velhas das cidades, essencialmente população também envelhecida, que enfrenta tantas vezes já doenças e adoece ainda mais quando é arrancada às suas casas; ao nivelamento por baixo; à uniformização das condutas, dos gestos, dos temperamentos, dos desejos; à falta de compaixão. 

Em 2013, na publicação que se fez por ocasião do aniversário de uma década do Antic Teatre, e que Verònica Navas trazia consigo para me oferecer no dia em que conversámos, Semolinika também escreverá o seguinte: “No mundo da cultura e na luta para a cultura, o ritmo é muito lento. E é assim porque até agora nenhum partido político no país quis introduzir a arte na educação. Actualmente toda a arte se concretiza através de práticas extra-escolares e pagas, quando devia converter-se num dos pilares da educação pública.” Este é o caso de Espanha, mas podia ser também uma descrição para o estado das coisas em Portugal, onde tudo quanto é expressão, de diversas naturezas, tem sido banido dos percursos curriculares. Se a tal banimento associarmos a amputação de horas em disciplinas como sejam a História, a Filosofia, ou a outras de referência temporal e espacial, não podemos deixar de sentir grande inquietação. Ainda regressarei ao Antic Teatre: para vos descrever o que se faz ali, por um lado, por outro, para destacar a necessidade tão premente de se manter, e como ele outros locais de resistência.

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