Uma família do outro lado da barricada
DA VAGA DE SALA – Especial Festa do Cinema Francês
Quando um realizador é já um octogenário, com uma vasta carreira, e decide fazer mais um filme, um novo filme, é bastante provável que na sua cabeça paire a convicção, a ideia, ou apenas a possibilidade, de ser o derradeiro. Estando já o essencial da sua obra vertido ao longo de vários filmes espalhados no tempo, também é bastante provável, para alguns, pois cada cabeça sua sentença, que haja uma (boa) tentação de construir, difundir e deixar uma mensagem de contributo para um mundo melhor. O Sir Ken Loach, no alto dos seus 87 anos [agora são já 88], criou, em ‘O Pub The Old Oak‘ (2023) – aqui trazido em DA VAGA DE SALA aquando da sua estreia -, um verdadeiro manifesto de esperança, mesmo que alicerçado numa visão que aos dias de hoje nos parece quase utópica, depositando na solidariedade e no humanismo as chaves do espaço de encontro entre dois lados da barricada. Naquela terra esquecida no norte de Inglaterra, de um lado, temos uma comunidade assente em antigos mineiros – em minas de outrora, agora encerradas -; do outro lado da barricada, estão os refugiados sírios que acabam de chegar para ali viverem. De um lado, Loach mostra-nos a pobreza, o desemprego, a decadência, a raiva de quem foi vetado ao esquecimento, que rapidamente desagua em racismo, xenofobia, nacionalismo exacerbado; do outro lado da barricada, vemos quem foge da guerra e da morte, quem quer recomeçar, quem quer viver de novo. E, apesar de todo o tumulto, da agressividade, dos obstáculos à partilha, Loach coloca os dois lados a construir algo em conjunto, a comerem à mesma mesa, apesar da resistência de uns quantos, e deixa a sua mensagem de esperança. Um pouco mais novo, mas também já octogenário, André Téchiné traz-nos dois lados da barricada na França atual, que se encontram e confrontam nas ruas, os polícias e os black blocs (um grupo radical, anticapitalista e antiglobalização, que recorre a atos de violência e grave desordem pública nas manifestações em França) – assim vimos em ‘Os Novos Vizinhos’ (2024), este domingo, no dia final da Festa do Cinema Francês no São Jorge. Na verdade, tal como Loach, Téchiné deixa-nos uma mensagem de esperança através da solidariedade e do humanismo.
Nos planos iniciais de ‘Os Novos Vizinhos’ vemos gritos de ordem de um grupo que se manifesta na rua, todos vestidos de preto, todos de máscara no rosto: não, não são membros do dos black blocs, são polícias a reivindicarem melhores condições para o exercício da função. Assim que entoa La Marseillaise as máscaras são retiradas e a câmara procura e foca o rosto de Lucie (Isabelle Huppert, no seu enésimo filme), para depois vaguear pelos rostos dos demais polícias. Esta escolha de arranque de filme evidencia, desde logo, a vontade de Téchiné em aproximar, aos nossos olhos, os dois lados da barricada com aquilo que no geral os une, que lhes é comum, o desagrado com o cenário social que se vive, desembocando no exercício de manifestação, para daí saltarmos para uma visão mais particular, e pessoal também, desde Lucie até ao seu novo vizinho Yann (Nahuel Pérez Biscayart), membro dos black blocs, que se mudou recentemente com a mulher Julia (Hafsia Herzi) e a filha Rose (Romane Meunier) para a casa do lado. Fragilizada pela perda relativamente recente do marido Slimane, também ele polícia – suicidou-se, mas Lucie continua a vê-lo amiúde em casa, num claro déjà vu do filme que aqui trouxemos no Especial Festa do Cinema Francês, ‘Sidonie no Japão’ (2023), de Élise Girard, também com a protagonsta de Isabelle Huppert a ver o marido defunto a cada passo -, e ainda em recuperação após internamento num hospital psiquiátrico, Lucie resiste à vontade de uma aposentadoria antecipada que o seu superior defende. É pelas mãos de uma criança, a pequena Rose, que a solitária Lucie conhece o casal Yann e Julia. A rede da vedação que separa as duas casas, os dois lados da barricada, rapidamente é atravessada, até simbolicamente pelo charro que Lucie e Yann partilham num estender de braços e mãos por cima dela (da vedação), e a agente da polícia que se camufla como administrativa da função pública vai entrando gradualmente no seio da família vizinha, não para investigar – mesmo depois de saber que Yann é um ativista radicalizado, em liberdade condicional, e que está sob a mira da polícia -, mas sim para se relacionar.
Com a opinião pública francesa a condenar muitas vezes a brutalidade das forças policiais nas frequentes manifestações nas ruas gaulesas, Téchiné, pela figura de Lucie, dá-nos uma outra face de um(a) agente policial, alguém que é dócil, prestável, solidária, profundamente humanista, com tremenda vontade em criar laços com quem está por perto, na casa ao lado: ajuda a família a cuidar de Rose, mas, também, partilham jantares e serões. Quanto ao outro lado da barricada, os black blocs, cujos atos violentos e distúrbios proliferam, com ataques a lojas e estruturas, símbolos de um capitalismo que condenam, Téchiné apresenta-nos a figura de um artista, um criativo, dotado de sensibilidade, que desenha e expõe as suas obras numa galeria em que prefere não colocar lá os pés, deixando a cargo de Julia a sua representação. Para complementar este retrato da outra face de cada um dos lados somos remetidos, de um lado, para uma reunião sindical dos polícias em que é exposta uma profunda preocupação com a taxa de suicídio, suicídio que ali é mesmo considerado o perigo maior que um polícia enfrenta: é uma clara chamada de atenção de Téchiné para a necessidade de melhorar as condições dos agentes de autoridade, até porque o risco de radicalização de classe – com aproximação aos ideais de extrema-direita – é deveras enorme. Do outro lado, viajamos até ao habitat de uma família de ativistas radicais (amigos de Yann), que vivem numa caravana, estacionada numa quinta onde produzem e colhem açafrão, para depois venderem; a matriarca explica a Lucie, que acompanha Yann, o processo, incluindo o trabalho árduo: aqui Téchiné visa elucidar que um ativista/manifestante violento não é necessariamente um vagabundo ou ocioso na sociedade, pode também trabalhar e muito.
E mesmo que a afinidade entre Lucie e Yann possa parecer demasiado forçada no filme, quer pelas fotografias de África que ele expôs quando apenas o vemos a desenhar, nunca a fotografar – sensibiliza Lucie, que recorda as viagens com o marido africano àquele continente -, quer pela música, também africana, que ela põe a tocar e que ele desconhecia, mas que dança desalmadamente, de forma esfusiante, entregando-se de corpo e alma, ao longo daquele parque de estacionamento, por conseguinte, as presenças de Julia e Rose e a relação que Lucie vai desenvolvendo com cada uma delas, e com as duas, acabam por trazer mais verosimilhança à história, conferindo um certo reboco ao manifesto de intenção de Téchiné. Sem máscaras, unidos numa liberdade condicional, pela solidariedade e pelo humanismo, uma agente da polícia e um membro black bloc, melhor, Lucie e Yann, podem agora poisar juntos numa selfie de família.