“Estrela de seis pontas”, a visão panóptica de Pedro Medeiros

O Estabelecimento Prisional de Lisboa é o tema central de um conjunto de imagens convertidas numa ‘Estrela de seis pontas’ constituída por fotografias a preto e branco, mergulhadas num contraste permanente entre luz e sombra, expostas, até 21 de fevereiro, no Arquivo Municipal de Lisboa I Fotográfico, em Lisboa. A autoria deste trabalho digital e impresso em provas de fine art de algodão é de Pedro Medeiros, fotógrafo nascido em Coimbra, em 1969. A curadoria ficou nas mãos e no olhar de Filipe Ribeiro e Sofia Castro. O conjunto de fotografias incita ao debate sobre a dignidade humana e a simultânea invisibilidade dos reclusos do Estabelecimento Prisional de Lisboa, sob o olhar atento da Guarda Prisional, a ação está alicerçada no rigor geométrico da torre disposta no centro do referido edifício, criada com base numa estrela de seis pontas, daí o nome da mostra.

Trata-se de “uma torre central que existe na prisão de Lisboa, a qual irradia seis alas e cada ala tem celas de presos, o que faz a configuração de uma estrela de seis pontas, um sistema de prisão com vigilância de 24 horas por dia”, explica Pedro Medeiros. A configuração foi criada em finais do século XVIII por Jeremy Bentham, filósofo, jurista e economista britânico, que, deste modo, implementou o conceito teórico do panóptico, da visão panóptica, radicado pelo mundo. “A torre tem janelas que permitem ao guarda ter visão de todas as alas [sem ser visto] e o próprio preso tem a sensação de que está a ser vigiado 24 horas”, acrescenta o nosso entrevistado, para quem a fotografia é “uma linguagem simbólica”, representante de vários símbolos. “Como autor, não os devo revelar, porque estaria a levantar o véu sobre a interpretação ambígua e subjetiva que cada um deve fazer” enquanto observa cada fotografia da exposição.

Em sentido lado, a estrela de seis pontas representa o ‘Selo de Salomão’, no mundo árabe, o ‘Yantra’, ou a união de opostos, no hinduísmo, e a ‘Estrela de David’, no universo Judeu. “Pode ser um símbolo de libertação individual, mas, por outro lado, aparece associada à questão da autoridade e de poder”, reforça Pedro Medeiros, referindo-se à estrela de seis pontas enquanto “símbolo do corpo da Guarda Prisional, da Polícia Judiciária, da Polícia de Segurança Pública. Há uma ambiguidade muito grande. Esse paradoxo é que me interessou”, declara. 

No âmbito da exposição, Pedro Medeiros remete para a reclusão, indissociável à questão do cumprimentos da pena, “porque foram agressores, mas tudo depende do tipo de delito, porque existe a vítima e o agressor. No meu trabalho, interessa-me conseguir a representação dos dois lados, colocando a hipótese de sermos vítimas e agressores”. Este dualismo concentra a tradução do pensamento e da visão sobre o mundo que o fotógrafo quer transmitir. “É o contexto histórico que estou a viver, a forma como reflito e me coloco nele. A fotografia é uma interrogação constante, na qual tento traduzir os temas que me preocupam enquanto ser humano”.

Por outro lado, a ligação aos tribunais, por via do pai, e consequentemente à justiça, bem como a frequência nos cursos de História e Ciências Sociais, e de Direito determinam este questionamento permanente sobre o referido princípio social, mas também acerca da autoridade e da liberdade. No fundo, são estes os objetos centrais do percurso de Pedro Medeiros, enquanto fotógrafo, percurso iniciado em 1999: “São temas da humanidade, do drama da existência humana, do julgamento do outro, temas universais e que têm a ver com os direitos fundamentais dos indivíduos e temas nucleares do meu trabalho. São interrogações que vou continuar a fazer.”

Cedo, o pai começou a levar Pedro Medeiros ao cinema. Tinha 12 ou 13 anos, segundo as palavras do fotógrafo, quando iniciou esta proximidade com a visionamento de obras-primas da sétima arte, como Barry Lyndon. “Penso que o meu pai queria me fazer ver ou de alguma forma abrir a minha mente para um tipo de cinema diferente.” 

A longa metragem dos anos 1970, do realizador Stanley Kubrick, foi marcante no que toca ao jogo de luz e sombra. “O Kubrick era um mestre de cinema. Fazia lentes com ângulos que ele próprio decidia, era extremamente meticuloso com a luz. Barry Lyndon é um filme em que decidiu filmar tudo com luz natural, e quando se diz luz natural, quer dizer que é com a luz do dia, a luz exterior, que entra nas casas. Todas as cenas de interior eram filmadas com luz de vela, sem nenhum artifício”, conta.

A beleza criada com a dualidade luz e sombra é uma presença assídua no trabalho fotográfico de Pedro Medeiros, que confere uma visão enigmática a cada momento captado pela máquina fotográfica. A reclusão e as prisões são igualmente abordadas ao longo destes anos. “Há uma exposição que faço em 2005, na altura com a Teresa Siza, como diretora do CPF [Centro Português de Fotografia]. Foi sobre as prisões políticas portuguesas, sobre as prisões no Estado Novo.” 

Esta foi uma das mostras fotográficas que mais marcou o autor. A mesma beleza proporcionada pela luz e pela sombra é visível em Hikari (Luz). Esta exposição ocorreu após a estada de aproximadamente três anos – entre 2015 e 2017 – no Japão. “Fotografei muito. Tinha muita tranquilidade e estabilidade financeira que me permitiram desenvolver um trabalho com tempo. Vai de encontro à luz, à sombra e foi um processo de imersão muito importante para mim, porque me envolvi muito com a cultura japonesa, com a literatura japonesa”, revela. Neste contexto, Pedro Medeiros avança com nomes ligados à literatura, nipónica, como Yukio Mishima, Yasunari Kawabata ou Shusaku Endo, assim como ao cinema de Kenji Mizoguchi, Akira Kurosawa ou Yasujiro Ozu.

Mas para melhor compreender a cultura japonesa, leu o livro O elogio da sombra, de Junichiro Tanizaki, que explica a importância da sombra na cultura japonesa. “A sombra não existe sem luz, mas a sombra é mais importante do que a luz e isso revela-se em tudo no Japão: na arquitetura, no quotidiano, na expressão dramática, nas expressões artísticas dos japoneses. No fundo, O elogio da sombra é a essência da fotografia”, conclui. 

“O facto de estar a viver num país, numa cultura diferente durante esses quase três anos, senti que fazia parte dessa cultura”, que resultou numa mostra que esteve patente na Sala da Cidade, da Câmara Municipal de Coimbra e, mais tarde, no Arquivo Fotográfico de Lisboa. “Agora, a exposição mais importante é esta, a última, sobre a prisão de Lisboa, a ‘Estrela de seis pontas’.”

Para Pedro Medeiros, a fotografia aparece do nada e, simultaneamente, do todo e de tudo o que o rodeia. Após a frequência em Humanidades, no secundário, em Coimbra, decide pelo curso de História e Ciência Sociais, seguindo-se o de Direito, que deixou para trás, “o que foi, de certa forma, traumático em termos familiares, porque estava a ser feito, em mim, um investimento muito grande, que os pais fazem por um filho, as expectativas que se criam, a Faculdade de Direito de Coimbra”. Paralelamente, “fotografava, mas de uma forma absolutamente amadora enquanto adolescente e nem sequer o fazia com máquinas mecânicas. Não percebia de fotometria, não sabia o que era profundidade de campo”.

Com a passagem do tempo, os Encontros de Fotografia, iniciados em 1980, em Coimbra, e inteiramente focados em exposições fotográficas ecléticas de autores nacionais e de fora de portas, suscitaram curiosidade em Pedro Medeiros. Das muitas mostras que passaram pela ‘cidade dos estudantes’, a de Robert Frank, em 1988, na Casa das Caldeiras, chama a atenção do fotógrado conimbricense. “Foi a primeira retrospectiva que o Albano Pereira da Silva mostra em Coimbra e em Portugal. Nessa altura, ainda não trabalhava nos Encontros de Fotografia. Em 1988 tinha 19 anos e fiquei marcadíssimo por aquela exposição.” A mesma sensação de conquista aconteceu com a exposição Joel-Peter Witkin, na Casa das Caldeiras, em 1990. 

Associadas ao prazer que tinha pelo cinema e pela literatura, ambas as exposições tornaram-se os gatilhos determinantes na decisão de Pedro Medeiros enveredar pela fotografia. “É com 19, 20 anos que percebo que quero ser fotógrafo e que sinto que a fotografia pode vir a ser a minha forma de expressão, a minha escrita, a minha linguagem. Dois anos mais tarde, surge a oportunidade e é nessa altura que eu me vou propor ao Centro de Estudos de Fotografia (CEF), na Associação Académica de Coimbra. Em 1992, numa bela tarde de verão, entrei no gabinete do Albano Silva Pereira e propus-me a trabalhar com eles.”

Viver em Coimbra e vivenciar a época áurea da cultura da ‘cidade dos estudantes’ foi um privilégio para Pedro Medeiros. Além de produtor cultural dos Encontros [de Fotografia] desde 1992”, também desempenhou a função de assistente de direção. O trabalho foi, por vezes, duro, já que imperava uma dedicação de 24 sobre 24 horas, “mas não havia problema, porque o prazer era enorme”. Contactar diretamente com “grandes fotógrafos” foi a concretização de um sonho. 

Pedro Medeiros refere várias vezes os nomes Robert Frank, fotógrafo e cineasta americano, e Joel-Peter Witkin, fotógrafo norte-americano, à época, a residir em Albuquerque, no Novo México, em relação a quem, em 1996, com quem teve oportunidade de trabalhar 10 dias como assistente de fotografia. “Havia uma equipa grande que colaborava e grandes autores. Dizerem-me, como o Albano me disse, ‘vem aí o Witkin – ou Robert Frank ou o Duane Michals – e o Pedro vai jantar com ele’. Era como se dissessem a um tipo que está a aprender cinema ‘hoje vai jantar com o Coppola ou com o Jim Jarmusch, ou com o Kubrick, ou com o Jean-Luc Godard’. Era um privilégio. E quando digo jantar, era conviver, era ouvir. Tínhamos essa proximidade com essas pessoas.”

Foram tempos em que fotógrafos da Europa, da América, do Japão, de todo o mundo, preencheram culturalmente uma Coimbra diferente, mais dinâmica, artística, mais profunda. Uma cidade que está a voltar a mostrar quanto vale nesta área, segundo palavras de Pedro Medeiros, graças à Bienal Ano Zero. “Sente-se essa experimentação, porque há um trabalho de curadoria, há um tema, um trabalho pensado em diálogo com a cidade, há uma série de artistas que vêm de fora e são envolvidos. Depois, a Bienal de Arte Contemporânea de Coimbra, do CAPC [Círculo de Artes Plásticas de Coimbra], envolve muitas pessoas da própria cidade, artistas, escultores, pintores, gente que também participa e apoia. Na fotografia, nunca mais houve nada a esse nível na cidade de Coimbra e penso que, sem presunção, não sei se alguma vez tornou a haver um festival com o mesmo tipo de conteúdo e uma riqueza programática tão forte como os Encontros de Fotografia.”

Na década de 1990, Pedro Medeiros inscreveu-se no ArCo – Centro de Arte e Comunicação Visual, para fazer um curso intermédio e passou pela Maumaus – Centro de Contaminação Visual. De acordo com o fotógrado conimbricense, a primeira está centrada no curso de fotografia no sentido clássico, enquanto a segunda proporciona a ligação com uma vertente mais conceptual. 

No final dos anos 90 do século XX, Pedro Medeiros decidiu fazer uma pós-graduação na Universidade do Novo México (UNM), em Albuquerque, Estados Unidos, porque “estava muito focado no trabalho do Joel-Peter Witkin”, com quem trocou correspondência por carta. Entretanto, é aconselhado a frequentar o London College of Printing. “Quem me convenceu a ir foi o Paulo Nozolino, porque eu estava indeciso”, revela, referindo-se ao conceituado fotógrafo português, “um dos melhores fotógrafos a nível mundial, é um dos fotógrafos mais consistentes a nível mundial”, que, em tempos, tinha frequentado a mesma instituição de ensino. 

Em suma, Pedro Medeiros obteve uma bolsa do Ministério da Cultura e ruma a Londres, mais concretamente em direção à London College of Printing. “Uma escola magnífica de fotografia, onde estive um ano e pouco”, entre 1999 a 2001, período durante o qual ainda desenvolveu alguns trabalhos na capital das ‘terras de sua Majestade’. 

As prisões são tema nuclear do trabalho de Pedro Medeiros desde 1999. Tudo começou com uma viagem de trabalho ao Tarrafal, em Cabo Verde, no âmbito de uma exposição da fotógrafa portuguesa Inês Gonçalves, a qual esteve patente no Arquivo Histórico da Cidade da Praia. Presos políticos, estabelecimentos prisionais masculinos e femininos, Estabelecimento Prisional de Coimbra, Estabelecimento Prisional de Lisboa, a par com roteiros de prostituição e tráfico humano, são retrospetivas fotográficas que compõem o universo retratado pelo fotógrafo. “Há coisas que ainda não mostrei, estão guardadas em negativos de 35 milímetros. É o próprio tema que me convoca, que se encontra dentro de mim e que, de alguma forma, sou convocado a fazer. Efetivamente eram esses os temas que queria explorar nos meus trabalhos de base, esses temas da humanidade, do drama da existência humana, do julgamento do outro, que são temas universais e têm a ver com os direitos fundamentais dos indivíduos, são interrogações, questões que vou continuar a fazer”, esclarece.

Neste contexto, o fotógrafo conimbricense recorda a imagem de 1916, intitulada ‘Blind woman’, do fotógrafo e cineasta norte-americano Paul Strand. “É uma das fotografias mais fortes e mais cruéis que vi da representação de um ser humano, porque é uma mulher cega que tem identificação escrita – em Nova Iorque, os invisuais tinham um letreiro onde estava escrito mulher ou homem cego. Essa fotografia nunca mais me saiu da cabeça”, explica. A foto ‘Mãe migrante’ captada pela lente de Dorothea Lange, na época da Grande Depressão, ganha igualmente evidência durante a conversa com Pedro Medeiros, que refere ainda Larry Clark. “Fez, em 1971, um trabalho que se chama Tulsa, nome de uma localidade do Oklahoma, na América, onde havia uma comunidade de toxicodependentes. Depois, realizou o filme ‘Kids’. Na altura, consumia heroína e anfetaminas. Portanto, fotografou a comunidade com a qual vivia. Foi um dos trabalhos mais impressionantes que se pode ver sobre toxicodependência, sobre delinquência. Porquê? Porque é um fotógrafo que está no meio em que vive a fotografar as pessoas que lhe são iguais. É muito cru e é extremamente verdadeiro. É dos poucos trabalhos fotográficos verdadeiros sobre o que é a toxicodependência”, sublinha.

Destaque ainda para Lewis Hine, fotógrafo americano que, no início do século XX, retratou o trabalho infantil na América. “Fotografava as crianças que trabalhavam nas fábricas. É um trabalho importantíssimo na história da fotografia”, realça.

“Eu gosto deste terreno em que o outro é vulnerável e eu tenho o privilégio de ter uma ferramenta que permite fazer parte dessa vulnerabilidade. Mas não quero ser um voyeur, porque quando fotografo uma prisão, uma situação vulnerável, precária, em sofrimento, não o posso fazer como voyeur. Tenho de fazer, de alguma forma, parte do projeto”, remata Pedro Medeiros.

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© Fotografia de entrada: Sala de exposição © José Luís Neto / Arquivo Municipal de Lisboa | Fotográfico

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