A maioria dos palácios reais que visitei são quase sempre uma experiência arquitetónica inesquecível. Construídos para servir de residência a famílias privilegiadas, na maior parte das vezes foram também projetados para impressionar os seus visitantes, o que frequentemente, significava opulência no design.
Em alguns casos, como vim a reparar, a opulência levava a que certas características arquitetónicas fossem levadas a extremos. Por exemplo, a Cidade Proibida é uma maravilha em termos de geometria e é incrível que tenha sido construída em apenas dois anos, há mais de 5 séculos. No palácio real de Banguecoque, não foi tanto a arquitetura que me impressionou, mas sim o trabalho de jardinagem que rodeia o edifício, uma verdadeira beleza de topiaria. No caso de Versalhes, foi a escala e beleza teatral dos jardins que me surpreendeu mais do que propriamente a opulência dos interiores.
O Palácio Sanssouci, em Potsdam, na Alemanha, foi inicialmente construído como residência de fim de semana. A ideia inicial era proporcionar ao rei um refúgio da vida citadina de Berlim. Teve um início humilde, mas à medida que o rei começou a passar longos períodos em Sanssouci, acabou também este por ser alvo de extensões para o tornar mais opulento, e é hoje um must-see para quem visita a capital Alemã.
Aquando da minha vista, confesso que mais uma vez mas não foi a opulência dos interiores que mais me impressionou, mas a ideia de incluir uma vinha no jardim que circunda o palácio. A solução arquitetónica que foi necessária desenvolver para criar essa possibilidade acabou por dar ao palácio um estilo arquitetónico deveras único.

De um modo geral, as vinhas não são comuns nas partes mais setentrionais da Europa, uma vez que morrem com as geadas do inverno. Para não morrerem, têm de ser protegidas e a forma como isso foi resolvido em Sanssouci foi através de uma porta de vidro, que é fechada durante o inverno e protege dessa forma o tronco da videira.

No interior do palácio Sanssouci, a ala oeste, onde está instalada a galeria de arte, é provavelmente a mais cativante. No entanto, é sobre a parte exterior que eu quero continuar a escrever.
Numa das minhas expedições à volta do palácio, reparei que, na área da entrada, perfeitamente identificada por uma colunata opulenta, é possível ver, para quem estiver de costas para o palácio, um templo romano e um grego no topo de um monte. “Bizarro”, pensei eu. “Gregos e romanas tão a norte da Europa?”

Como a distância entre o palácio e a ruína-no-monte, como é conhecida, era percorrível, não consegui resistir e decidi fazer-lhe uma visita. As ruínas são locais onde se sente a passagem do tempo e por vezes são o que resta de civilizações que já não existem. Para uma mente arquitetonicamente curiosa, é difícil não sentir um desejo de as investigar.
A distância é curta e não demorei mais que 15 minutos para chegar ao meu objetivo. Ao longo do percurso, apercebi-me de que, se não fosse a estrada que dividia o monte do palácio, provavelmente faziam parte da mesma herdade no passado.
Ao chegar ao topo do monte, reparei que no local existia um reservatório de água. No entanto, as ruínas continuavam envoltas em mistério. Podiam ser um produto do revivalismo. Um período em que se começou a construir edifícios que imitavam estilos que tinham caído em desuso. No entanto, se assim fosse, não explicava o facto de hoje serem ruínas, uma vez que não teriam mais que 200 anos de deterioração. Era difícil de imaginar que durante esse tempo uma coluna fosse ceder e acabasse encostada a outra como mostra a foto abaixo.

Só quando li a informação turística que tinha sido colocada num placar no local é que percebi o que tinha acontecido. As ruínas eram falsas.
O reservatório de água tinha sido comissionado pelo rei. Uma vez concluído o projeto, o rei achou que seria melhor construir uma ruína para embelezar a área e melhorar a vista do palácio. Repito, foi construída uma ruína por ordem do rei. A coluna caída e encostada à outra coluna foi deliberadamente concebida e construída dessa forma.
Ao perceber que a ruína era falsa, senti que tinha sido enganado. Senti que tinha sido levado a acreditar em algo que afinal não era o que tinha imaginado. Devido a esta experiência, confesso que foi com algum azedume que regressei à capital alemã nesse dia.
No entanto, à medida que o tempo foi passando, comecei lentamente a encarar uma diferente realidade. A verdade é que ninguém me tinha enganado. Ninguém tentou ocultar a história da ruína. Também não o fez o rei, quando decidiu construir a ruína na época, o que, evidentemente, confirma que a autenticidade não era requisito que estivesse na moda.
De forma geral é argumentável que a questão de saber se a ruína é genuína ou não é apenas de interesse para arqueólogos interessados em preservar o conhecimento de como edifícios eram construídos noutros tempos e o estilo da época. Colocando esse pormenor de parte, se o objetivo da ruína era evocar a passagem do tempo e civilizações desaparecidas estava surpreendentemente bem conseguido, uma vez que eu fui incapaz de ignorar a sua presença nas vistas desafogadas do palácio.
Este momento fez-me lembrar uma ocasião semelhante quando observava o David do Miguel Ângelo em Florença. Durante o meu período de observação, um indivíduo passou por mim, e disse: “Esquece, não é a estátua original,” como se não houvesse mérito algum na réplica.
Confesso que, na altura, não sabia que a estátua original estava na Galleria dell’Accademia, mas mesmo que soubesse, dificilmente iria afetar a minha preferência de ver a cópia no local original. Para mim era óbvio que a réplica era uma cópia fidedigna e a interação da estátua com o meio à sua volta seria a mesma, independente da proveniência. O meu objectivo não era observar a estátua como um objeto isolado, mas sim observar como interagia com a praça onde tinha sido colocado. Se o meu interesse fosse averiguar a qualidade do mármore que o Miguel Ângelo tinha usado, seria necessário verificar no museu, mas como não era o caso, réplica ou não, o David que tive o privilégio de observar era suficiente.Acho que o que correu mal na minha visita à ruína-no-monte foi ter assumido que estava na presença de uma ruína original. Se eu soubesse desde o início que era uma construção mais ou menos recente, com o objetivo de imitar ruínas, teria que indagar o porquê dessa solução, e quem sabe concluir que tinha sido concebida dessa forma para embelezar a vista do palácio. E com essa conjectura, é possível argumentar que a ruína cumpriu com o desejado majestosamente.


