“Aprendi tudo com os artesãos” / Paulo Lobo

É no seu amplo e versátil atelier, numa manhã chuvosa, no Porto, que o designer de interiores português Paulo Lobo fala sobre o gosto pela música e a paixão pelo design e pelas técnicas artesanais, após uma aventurosa, mas curta, viagem por ruas da cidade que o acolhe desde a infância.

O gosto por peças de design começou no Porto, a cidade que o acolhe na infância, da qual guarda memórias que o acompanham nesta intensa viagem pelo mundo do design de interiores.
Vim para o Porto na minha infância e foi nesta cidade que o meu pai continuou a trabalhar num armazém, com tecidos, na baixa do Porto. São memórias que estão presentes, assim como a música que me mostrava e obrigava a ouvir – eu não gostava muito de música clássica – e a pouca informação que me chegava de lá de fora, as lojas que traziam a moda de Londres… Havia poucas revistas ou quase nenhumas, gostava de objetos… por gosto e não porque pensava que, um dia, iria seguir esta área, primeiro porque não havia formação nesta área – havia arquitetura, mas quem ia para arquitetura era mal entendido. O meu pai gostava que fosse médico, mas como eu não estudava, não chegaria à medicina na vida. Segui outro caminho, com a mesma naturalidade que seguia os objetos.

“Falo muito na música, porque tem uma grande influência no meu trabalho”

Há um especial gosto pela música.
Falo muito na música, porque tem uma grande influência no meu trabalho, e nos anos 1970′ com o soul e o disco, e as capas dos discos, e os pais dos amigos que iam a Londres e traziam discos. Foi nos finais dos anos 1970′ e no princípio dos anos 1980′ que comecei a viajar para Paris e para Londres, onde havia esse mercado.

De volta ao design de interiores, o salto no Porto aconteceu com a abertura da primeira loja de Paula Lobo, a sua mulher, namorada na altura. Foi a estreia de Paulo Lobo nestas andanças?
Foi uma ajuda que tive de dar na altura, em 1983, por ai, e a loja ficou diferente. Os clientes gostavam muito do espaço e, de repente, surgiu um convite para trabalhar com um profissional desta área, mas não fui, porque estava a tirar uma formação em computadores – em Macintosch, na altura. Com a loja e com o convite percebi que podia seguir o meu caminho sem trabalhar para alguém. Logo a seguir tive o convite para fazer uma loja de moda, na altura do António Coelho, sócio, durante muitos anos, de Manuel Alves – eram a nova geração da altura, muito alternativos, no bom sentido. Era numa loja de luxo e essa informação fez com que o meu trabalho se espalhasse rapidamente no Porto. A loja ficou muito bem. Comecei a receber pedidos para fazer várias coisas até que, em 1989, surgiu o Buondi Cafe, na Foz, o qual é recordado, ainda hoje, por muitos e me fez saltar nesta área.

Conceber espaços que tornem os produtos apetecíveis consiste, desde os anos 1980′, num trabalho que, dentro do mesmo alinhamento, requer aperfeiçoamentos e atualizações constantes, como o próprio design de interiores obriga?
Há um percurso. No início sofremos muito as influências, vemos muitos espaços, por fora, por dentro, lemos muitas revistas, temos influências de alguém de quem gostamos… portanto seguimos esse caminho. A dada altura conseguimos perceber que temos uma linguagem própria, que é nossa, e é essa que seguimos. Ou seja, desaparecem as vedetas, desaparecem as revistas, desaparecem os livros, e fica aquilo que vimos: a moda, as tendências… Depois, há um fio condutor que faz com que o trabalho vá avançando. Há, hoje, coisas que faço que eram impensáveis há 20 anos, porque não gostava ou achava que não gostava. Era impensável, há 25 anos, usar objetos étnicos no meu trabalho e, hoje, é o que mais gosto. Porque as marcas de design com que trabalhamos também estão, no meio daquele design todo, a incorporar esses produtos de mão de obra artesanal e o caminho é feito por ai. É um gosto que se vai adquirindo. Estamos num atelier que faz interiores, que está muito ligado à área comercial, portanto temos um cliente que tem um produto para vender, pelo que temos de criar um espaço com uma atmosfera que venda. As pessoas que vão a esses espaços têm de perceber a linguagem do próprio espaço.

“(…) os nossos projetos têm uma história, não podem ser ‘giríssimos’, têm de ser consistentes”

Foi ao longo destes anos que trabalhou com artesãos, com quem possui experiência em dar a funcionalidade aos objetos.
Aprendi tudo com os artesãos. Mas hoje, nas escolas de arquitetura e de design de interiores há uma tendência em dizer aos alunos que eles são quem só desenha, que são os artistas, portanto não têm de saber quais são os materiais, como se faz, se é possível fazer ou não, que não é preciso trabalhar com quem produz. Isso é completamente errado. É nas inúmeras viagens, nos ateliers e com todos os que trabalham nas pedras, nas madeiras, que nós aprendemos como se faz e sabemos que materiais podemos conjugar. Durante muitos anos, e ainda hoje, lidamos com as gentes que produzem objetos, porque os nossos projetos têm uma história, não podem ser “giríssimos”, têm de ser consistentes.

Há clientes que se interessam por essa “história” por trás do projeto?
Cada vez há mais pessoas atentas ao trabalho que temos vindo a desenvolver e há cada vez mais arquitetos importantes que recorrem aos nossos serviços para complementarem os deles, o que é importantíssimos, porque no início do nosso processo ninguém percebia o que fazíamos – não éramos arqutitetos, não éramos designers…

Há um estilo próprio associado à linha de trabalho do Paulo Lobo?
Não sei se sigo algum estilo. Há um que não sigo, o qual é a teatralidade, o falso, os materiais de composição, os novos materiais que, apesar de terem qualidade, não são para mim. Não fazemos interiores clássicos. Não utilizo papel de parede. Peças desenhadas, étnicas e peças que têm desenho e uma função, já utilizamos. Aquilo que é meramente decorativo e com uma carga teatral não utilizamos, porque são temporais.

Quando concebe um espaço, onde vai buscar a inspiração?
Vamos sempre pela interpretação do tema. Por exemplo, o Real Indiana – Restaurante Colors é mais contemporâneo do que os outros e, embora seja uma interpretação da Índia, tem uma abordagem associada à cor.

Lobo Taste, no Palácio das Artes, no Porto, a loja de artesanato contemporâneo, com objetos de design criados no âmbito do projeto de recuperação do artesanato português, o qual é redesenhado sem, contudo, perder a memória do produto original

Por falar em sabores, falemos da Lobo Taste, que nada tem a ver com gastronomia, e da Hats & CATS, as duas lojas de Paulo Lobo.
A Lobo Taste, que abriu em 2010, é um projeto pensado há mais tempo. Não é uma loja de memórias, é uma loja que trabalha, desde sempre, perto dos artesãos, vende objetos de artesanto puro, os quais estão praticamente em extinção – não duram mais cinco anos, alguns daqui a uns seis anos irão desaparecer, portanto temos a possibilidade de trabalhar com eles e de vender os seus produtos na loja. Em em 2008, quando comecámos a trabalhar com eles, redesenhando peças e redimensionando-as, ou a desenharmos e utilizarmos as técnicas artesanais deles, fizemos correções em alguns objetos.
Agora vamos iniciar novas coleções com outros e fizemos coleções com gente nova que está também a explorar esta área. Além disso, vendemos artesanato popular português e chapéus de inverno, fabricados em Portugal, mas não há chapéus de verão fabricados em Portugal – ou os que havia já não há. Por isso, decidimos abrir a outra loja [no Porto], com chapéus vindos de fora, a Hats & C.A.T.S. [Cosmopolitan Articles Simplicity and Tradition], misturando-os com outros objetos, também eles com uma componente artesanal forte e provenientes de todo o mundo – desde produtos nórdicos de madeira trabalhados à mão até peças étnicas do Egito, da África do Sul… A próxima coleção terá chapéus belgas, espanhóis, holandese, italianos, portugueses, indianos, africanos… Produtos que tenham design, além de outros com conceitos completamente diferentes.

Hats & C.A.T.S., de Paulo Lobo, recomendada aos apaixonados por peças artesanais provenientes dos quatros cantos do mundo

Sendo um apaixonado pelo Porto, atrever-se-ia a trocar a cidade por outra?
Foi a cidade onde sempre vivi e fiz o meu percurso. Não a trocaria, embora perceba que o Porto seja um pouco ingrato com as pessoas que fazem as coisas cá, salvo exceções. E seguramente não trocaria o Porto por Madrid que, contrariamente ao slogan, não me mata.

Autodidata, Paulo Lobo funda o gabinete de design de interiores em 1985 e assina múltiplos espaços fora de portas, como Brasil, Polónia, Itália, Alemanha, Espanha e Suíça. Por cá, apresentou, recentemente, o rastaurante Memorial, em Leça da Palmeira. Em relação a 2013, destacamos o Real indiana – Restaurante Colors e o Fé Wine-Bar, ambos no Porto, assim como o Hool, o Hotel da Oliveira, em Guimarães; dos anos anteriores, realçamos o restaurante Caruso, em Povóa do Varzim, e o Moustache Caffee House, no Porto, ambos de 2012, o célebre restaurante Fusion, em Leça da Palmeira, de 2010, e o inesquecível Shis, prestigiado restaurante da Foz do Douro, entre muitos outros espaços com a assinatura inconfundível de Paulo Lobo. •

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© Fotografia: João Pedro Rato com Canon PowerShot G16

 

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