“Os edifícios industriais são corpos muito versáteis” / José António Lopes

Reabilitar e ampliar, construir de raiz, responder às exigências e à evolução tecnológica, assegurar a higiene, a segurança e o conforto de centenas de empregados fabris, respeitar o meio ambiente, a integração urbanística e a identidade de um edifício. Eis o que há para saber sobre a arquitetura industrial e o grosso do trabalho do arquiteto portuense José António Lopes, que vestiu o papel de cicerone em duas visitas guiadas – uma na semolaria da fábrica da Cerealis e outra na antiga fábrica da Nacional, na Maia.

Fachada posterior do edifício de escritórios da Cerealis, na Maia

Como se começa a trabalhar num projeto na arquitetura industrial pouco tempo depois de concluir o curso na faculdade?
Solicitaram-me a remodelação de uma unidade industrial em edifícios de várias épocas e em que foi preciso construir linhas para unir vários edifícios à face da rua e como correu bem, continuei nesta vertente da arquitetura. É o voto de confiança.

Porém, na faculdade, a projeção de edifícios de grande escala não fazem parte do programa.
Estes edifícios têm programas muito especiais e muito excecionais. Além disso, as faculdades não podem formar os alunos para toda e qualquer situação específica, ou seja, dá as ferramentas para que possam responder como deve responder. Portanto, o nosso papel é conciliador de uma série de circunstâncias, desde logo do desafio do cliente, além de que coordenamos uma equipa muito diversa de profissionais e a arquitetura conjuga uma solução que todos nós usufruímos, um conjunto de muitos profissionais de natureza muito diversa, nestes edifícios em particular. Para além da estranheza de alguns solicitações, como as condicionantes ou as questões de solicitação estrutural, nós temos de recorrer não só à criatividade, mas também ao rigor projetual para, depois, levar a máquina funcionar.

Foi um desafio enorme.
Se falarmos dos outros desafios que vieram a posteriori, não há comparação, sobretudo devido à dificuldade técnica que envolveu – era uma casa em que foi preciso fazer uma cobertura e uma “casca” novas e, como consequência, demolir as fachadas e a cobertura. A grande dificuldade que senti na altura – apesar da faculdade me ter preparado para fazer uma cobertura e uma fachada – foi para o que vinha a seguir: “Sim senhor, os senhores vão fazer isto, mas a fábrica não vai parar.” Portanto, fizemos demolições e construções, e o processo de fabrico, no interior, continuou, sem parar. Fizemos uma espécie de cápsula – a fachada e a cobertura novas – e só depois é que demolimos a cobertura e a fachada antigas. Para essas condições especiais da indústria alimentar eu não estava preparado, portanto, aprendi ‘em direto e ao vivo’. Claro que fui ‘morar’ para cima da fachada, da cobertura e das demolições.

A semolaria da fábrica da Cerealis, na Maia, exigiu, aquando da sua reabilitação, um projeto pensado no futuro

“Não quer dizer que o que se faz agora não seja tão bom que fique definitivo (…) tem a ver, isso sim, com edifícios orgânicos, flexíveis, adaptáveis às solicitações.”

Além disso, num único projeto são sempre registadas várias fases, como o que aconteceu com o edifício que visitámos, a semolaria, na Maia.
Digamos que num edifício industrial, mais do que num comum, nunca se deve considerar que esteja acabado do ponto de vista de que jamais será alterado. Os processos internos de fabrico mudam, exigem condições ambientais ou de contato arquitetónico diferentes; a ampliação é sempre uma possibilidade, ou porque as máquinas são maiores, ou porque há outras necessidades internas. Digamos que são os edifícios industriais são corpos muito versáteis, estão em perfeita sintonia com o que acontece lá dentro, pois pode vir a ser alterado no futuro. Não quer dizer que o que se faz agora não seja tão bom que fique definitivo, também não tem nada a ver com edifícios provisórios; tem a ver com edifícios orgânicos, flexíveis, adaptáveis às solicitações.

Foi também o que aconteceu com a fábrica da Trofa, em que houve a ampliação do edifício antigo com parâmetros de exigência elevados.
O processo de aquisição da Nacional pela Cereais trouxe um conjunto de complexos industriais, alguns deles, muito obsoletos. A Trofa tinha uma novo núcleo de produção de cereais de pequeno-almoço que fazia, em exclusivo, os mais simples num contentor, digamos assim, num edifício muito obsoleto e com muitos problemas. Por força da dinâmica industrial que se queria introduzir naquele conjunto, na primeira fase, desenhou-se uma ampliação exterior – talvez tenhamos quintoplicado a área exterior do edifício existente. Na segunda fase foi feita outra ampliação e, na terceira, registou-se uma ampliação mais pequena devido ao limite do terreno. Neste momento estamos a projetar outras ampliações, mas em terrenos adjacentes. No fundo, estes processos têm sempre muitas fases, com a exceção da semolaria, que foi feita de uma vez só; e a nossa preocupação foi sempre que, no interior, não se sentisse descontinuidade e, no exterior, houvesse harmonia no conjunto.

A evolução tecnológica das máquinas e dos materiais são o testemunho da segurança, da higiene e do bem-estar dos funcionários

A questão da higiene e da segurança, e da qualidade de vida de quem trabalha nestes complexos industriais é também tida em conta no projeto de um arquiteto. Em que medida é feita esta atuação?
É curioso que tenha percecionado isso quando não falei sobre esse assunto na visita que fizemos. Os edifícios, como um todo – máquinas inclusive – responde a dois públicos – o externo e o interno. No primeiro caso, apesar do ruído que é emitido pelas máquinas e de todos os processos complicado que possam ter, os edifícios são inócuos, ou seja, o vizinho não sente a presença da fábrica, porque o ruído não se sente do lado de fora e há uma responsabilidade ambiental, que é muito importante e que responde ao público exterior. Para o público interno a empresa tem, desde há muito anos, políticas internas para que os funcionários tenham todas as condições, não só de higiene e segurança no trabalho, que são inquestionáveis, mas também de conforto. Reparem que visitamos áreas sociais que, noutras empresas, estão renegadas para um corredor ou zonas mais escondidas; ali não. A cantina, onde a empresa disponibiliza o que é necessário a quem levar a comida da casa, está junto à entrada do edifício. Os funcionários têm máquinas de venda automática à disposição nos corredores, para tirarem um café, por exemplo, e todos os complexos têm estacionamento integrado. Ou seja, há toda uma política da empresa que dá resposta ao bem-estar do funcionário.

“A integração faz parte, é uma disciplina do urbanismo que temos de ter em conta, portanto não é o ‘apeteceu-me fazer o desenho assim’.”

Falou do exterior, onde também a integração urbanística se traduz numa outra vertente a ter atenção num projeto desta dimensão.
Tem a ver com o equilíbrio, com o facto de uma pessoa estar à beira de uma fábrica de 30 metros de altura e sentir-se ‘abafada’. A integração faz parte, é uma disciplina do urbanismo que temos de ter em conta, portanto não é o ‘apeteceu-me fazer o desenho assim’. O desenho resulta de muitas variantes, entre as quais está a integração urbanística – além da estética e da funcionalidade. Por exemplo, este edifício [de escritórios, na Maia] é do século XIX, existe desde a fundação da empresa, e vocês viram que permanece com a mesma identidade, que foi respeitada em 2002 quando fiz o projeto para aqui. Por outro lado, o edifício tem uma escala, pelo que, quando se fez a fábrica em frente, esta não foi feita com o dobro da altura para se correlacionar com este edifício – tem a ver com as frentes de rua, a escala, entre outras variáveis a combinar.

Os escritórios da antiga Nacional, em Lisboa, foi outro projeto gigante, em particular por se tratar de um edifício do arquiteto Porfírio Pardal Monteiro. Como é feita a mutação, em larga escala, de um edifício que é património industrial?
Por força do processo industrial, o edifício – uma semolaria – estava muito degradado e tinha centenas de quilos de lixo. Hoje são os escritórios da unidade em Lisboa onde, o que se fez foi conjugar o valor patrimonial do edifício, para que não se perdesse a memória do que era e não se perdesse a autenticidade daquele desenho industrial. O que se conseguiu foi um bom compromisso – quem passa na avenida Infante Dom Henrique continua a ver um edifício de Pardal Monteiro. Por dentro, aproveitou-se o elevador, a caixa de escadas existente e as divisórias são ligeiras, para dar a perceber os pisos eram abertos. Com a lógica de escritórios open space não muito compartimentados, consegui salvaguardar o edifício com o mínimo de intervenção possível.

Em que moldes se procede à transformação de um edifício industrial antigo num outro dotado de tecnologia de ponta e com resposta para as exigências dos dias de hoje?
É um pouco uma mudança de paradigma. Quando começamos a fazer estes edifícios – agora já temos outros que nos servem de referência , em particular esta semolaria que visitamos, que parece um laboratório, todo branco por dentro –, as referências que tínhamos eram edifícios escuros, fechados… Foi preciso ‘inventar’ um bocadinho, ter em conta o que se fazia pela Europa fora, numa ótica de adequação de novos processos, e tudo isto resultou em conjugação com novas máquinas – aqui os fornecedores tiveram um papel importante, porque tinham máquinas com tecnologia de ponta, com menos tubos, que podiam estar suspensas no teto e que vibram menos. Ou seja, beneficiámos muito da evolução tecnológica, nomeadamente dos materiais, que permitiram com que fizéssemos pisos contínuos sem juntas nem tijoleiras, de modo a que haja uma maior higiene. Como é que se passa de paradigma para o outro? Pondo um pouco de ambição no projeto e mostrá-lo ao cliente, dizendo ‘e se fosse assim?’

“(…) o que sai do meu trabalho é o meu trabalho específico e a conjugação do trabalho das restantes especialidades, pelo que o resultado é a conjugação do trabalho de todos.”

Do princípio ao fim, o trabalho do arquiteto é articulado com outras disciplinas.
Quer na forma como se resolvem estes programas especiais, quer no diálogo conjunto com outras disciplinas, com outros técnicos e/ou projetistas, a experiência conta muito. A escola ensina-nos a nossa disciplina, mas ensina-nos pouco no que toca à forma como nos relacionamos com o cliente e com os colegas de trabalho de outras especialidades, com os fornecedores, com os operários das obras… Isto tem a ver com a experiência. Obviamente que trabalho com pessoas que confio porque, no fundo, todos reportam a mim, ou seja, o que sai do meu trabalho é o meu trabalho específico e a conjugação do trabalho das restantes especialidades, pelo que o resultado é a conjugação do trabalho de todos.

O que mudou neste tipo de arquitetura nestes últimos anos?
Foi sobretudo a maneira em como o edifício é cada vez menos violento, quer do ponto de vista ambiental, quer do ponto de vista volumétrico e relacional com os públicos interno e externo. Acho que a indústria tem vindo, por força do sistema, a ser mais amigável e tem vindo a mudar a relação urbanística.

A temperatura e o grau de humidade têm de garantir que a produção de massas na fábrica da Maia decorra de acordo com as exigências estabelecidas na indústria alimentar, até porque as máquinas trabalham 24 sobre 24 horas

Industrial vs. a moradia comum: São mundos diferentes dentro da própria arquitetura?
São complexidades diferentes. Quando desenho uma casa para alguém não vou fazê-la como se fosse para mim, no entanto tenho de a fazer, e nem sempre o cliente consegue explicar o que quer. Os clientes das unidades industriais sabem exatamente o que querem, porque têm know how e o apport do mercado, do fornecedor da máquina. Ou seja, têm muito mais condicionantes no início do projeto, por isso, sabem o que querem e dizem “arquiteto, tenho estas máquinas, mas fica a saber que, o sítio onde a máquina ficar tem de ter a temperatura x, grau de humidade y, renovações de ar no caudal z e não pode acontecer isto, nem isto…” No entanto, é muito mais complicado do que fazer um edifício de apartamentos.

Construção de raiz ou reabilitação. O que lhe dá mais gozo fazer?
Fiz uma pós-graduação em reabilitação e património arquitetónico. Gosto muito de pegar em edifícios antigos, porque têm muito mais identidade e beneficiamos muito do que o edifício tem, como o [Convento do] Beato. Qualquer coisa que se faça no Beato – que é um imóvel de interesse público extraordinário – fizemos o arranjo de um pórtico, reabilitámos cantarias… O pouco que se faz num edifício destes devolve-lhe o dobro porque, de repente, começa a brilhar, a viver de novo, e passa a ser usado. É muito gratificante trabalhar com um edifício que já tem uma personalidade – não quer dizer que quando é feito de raiz não seja interessante, mas um edifício antigo tem outro gosto e não é pelo romantismo, mas sim pelo património. Pego, uma vez mais, no Convento do Beato como exemplo, o qual ficou muito danificado com o incêndio, razão pela qual tivemos de recorrer a uma equipa de arqueólogos especializados em reconstrução que numeraram e fotografaram as pedrinhas todas – muitas pedras do edifício desfizeram-se aquando do incêndio, porque estavam quentes e, com a água de apagar o incêndio, partiram-se – e reconstruíram os arcos – alguns não estão completos porque houve pedaços que se desfizeram completamente. Deste trabalho não quero autoria quero, isso sim, que o arco esteja lá de novo, porque o património devolve-nos o trabalho de alguém que já não está cá há muitos anos ou que é feito por um desconhecido. Ou seja, a identidade tem lá estar, porque faz parte de um corpo e esse corpo é o edifício. •

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© Fotografia: João Pedro Rato

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