Banhos de enxofre, churchkhelas e vinhos ancestrais: três chaves para compreender (e amar) Tbilisi

Tbilisi ou Tifilis, para os mais nostálgicos, para além de ser a capital da Geórgia é também uma das cidades mais underrated da Europa – ao ponto de nem sequer entrar nos rankings das cidades mais undarreted da Europa.


Partindo desta (triste) realidade, que motivos posso eu dar-te para visitá-la sem parecer uma agente de turismo com uma hidden agenda? Como o próprio título indica, existem três ingredientes que fazem deste destino uma verdadeira delícia: os banhos de enxofre, as churchkhelas e os vinhos. Ou, por outras palavras, a história, a gastronomia e a cultura vinícola. Mas antes de começar a revelar as atrações desta pérola do Cáucaso, quero dar-te alguma informação wikipediana. 

Segundo reza a história, Tbilisi foi fundada no século V como um importante centro cultural, político e económico do Cáucaso. Não é de espantar: afinal, a sua localização privilegiada entre o continente europeu e asiático fez com que se estabelecesse como o epicentro de várias rotas económicas, como a célebre rota da seda. A história da cidade – e consequentemente do país – é longa e conturbada. O seu território foi disputado por vários impérios e a URSS chegou mesmo a anexá-lo a princípios do século XIX. Mas, em 1991, a Geórgia conseguiu a independência definitiva, começando a desenvolver-se, pouco a pouco, como um país cheio de encanto… e caráter! 


Basta aterrar no aeroporto de Tbilisi para compreender que se trata de um destino especial. Ou espacial. Porque a não ser que domines um mínimo de russo – nem digo georgiano por motivos óbvios -, o mais provável é que te sintas noutro planeta. Mas também aqui há algo importante a dizer: o povo georgiano é um dos mais hospitalários e amáveis que existe. Por isso não te preocupes: mesmo que só te consigas expressar com gestos, a probabilidade de acabares a beber chacha na casa de um georgiano é bastante alta. 

Banhos de enxofre, a origem de Tbilisi
Tudo começou com a lenda do rei Vakhtang que, numa manhã de caça, deparou-se com umas misteriosas fontes de águas cálidas… Existem muitas versões da história – algumas com um cervo, outras com aves – mas o que todas têm em comum é o desfecho: surpreendido pelas fontes que encontrou na floresta, o rei proclamou que ali deveria erguer-se uma cidade. E assim nasceu Tbilisi, a metrópole dos banhos de enxofre – curiosidade: o próprio nome Tbilisi corresponde, em georgiano, ao adjetivo “quente”. Com esta dádiva natural, era mais que evidente que, para além de uma cidade, ali deveriam edificar-se saunas. E assim foi. As fontes quentes do rei Vakhtang começaram a atrair milhares de turistas ao local, tanto por mera curiosidade como para tratar reumatismo, diabetes, asma e inflamações. Que o diga Marco Polo, Alexandre Dumas e Tchaikovsky.

Atualmente, Abanotubani – que significa, literalmente, o bairro dos banhos – é um dos lugares mais aconchegantes e pitorescos da capital georgiana. E embora maioria dos banhos não seja nem luxuosa nem aromática – lembra-te, estamos a falar de águas sulfurosas cujo cheiro se aproxima ao de um ovo podre -, vale a pena visitar o de Orbeliani, que conta com uma fachada de azulejos bastante aprumada. E já que estamos por aqui, não deixes de anotar a Mesquita Jumah como parada obrigatória nas redondezas. Para além de ser a única mesquita de Tbilisi, é também a única mesquita do mundo onde sunitas e xiitas rezam lado a lado. Disse ou não disse que era um destino espacial?

Churchkhelas e outras iguarias 
Um nome estranho para uma comida ainda mais estranha. Não te deixes iludir pelo seu aspeto de enchido curado: trata-se de uma sobremesa ou, como muitos locais me elucidaram, da versão georgiana do chocolate snickers. Feita com nozes e sumo de uva fervido com farinha, a churchkhela é uma das pérolas gastronómicas de Tbilisi. Passeando pelas ruas do centro, é impossível não acabar por comprar algumas – e de sentir-se estranhamente atraído pelas que exibem tonalidades verde fluorescente. Honestamente, são deliciosas. E perfeitas para repor a energia durante a subida à estátua de Kartlis Deda. Mas há mais… muito mais! Para os fãs do queijo, a Geórgia é um verdadeiro paraíso na terra. O khachapuri, com o seu formato de olho de Hórus, é capaz de enfeitiçar qualquer estômago, sobretudo quando acompanhado de um lemonade Natakhtari – um refrigerante também conhecido como “cream”. Igualmente imperdíveis são os pastéis de achma. E o gebjalia. E o nadughi. Ou um simples aperitivo de queijo sulguni fumado…Honestamente, escrever sobre a gastronomia georgiana é uma verdadeira tortura, sobretudo quando se começa a intuir uma intolerância à lactose. Mas não posso concluir este tópico sem referir um último prato: os kinkhalis! Estes maravilhosos dumplings, que estão geralmente recheados de carne, queijo ou cogumelos, têm uma curiosa – e algo complexa – etiqueta associada. A boa notícia é que é relativamente fácil dominar a técnica ao terceiro kinkhali. Último conselho: para uma full experience, rua Lermontov, restaurante Racha Dukhan. Agradece-me depois.

Vinho georgiano e a cultura qvevri
Agora que já passeamos e enchemos a barriga, talvez seja oportuno fazer uma pausa para relaxar e explorar os míticos vinhos georgianos! Antes de tudo, devo admitir que o tema vinícola foi o que mais me motivou a viajar até à Geórgia. Para os que louvam o Deus Baco, visitar este país representa uma oportunidade única para conhecer “o berço dos primeiros vinhos”, que, apesar de serem consideravelmente diferentes dos europeus, escondem uma essência muito especial. Ou espacial, exato. Mas comecemos por desvendar a cultura qvevri. Em dezembro de 2013, a Unesco declarou que o método qvevri, que conta com mais de 8.000 anos de história, seria elevado a Patrimônio Cultural Intangível da Humanidade. Pelo processo qvevri, as uvas são fermentadas em grandes ânforas de barro enterradas no solo, juntamente com as cascas e os engaços. O resultado? Vinhos com aromas impressionantes e sabores suaves, que se aproximam ao que identificamos atualmente como “vinhos naturais”. Mas num país que possui mais de 500 variedades de uvas com nomes impronunciáveis, seria injusto usar uma descrição tão genérica e pobre. O meu conselho é que tires as conclusões na primeira pessoa, idealmente na rua Erekli II. Lá há um bar chamado Vinoground onde se oferecem degustações de vários de vinhos, entre eles o preferido de Joseph Stalin – curioso, como mínimo. E se este for um tema que te apaixona tanto quanto a mim, não há nada que se compare a um tour pelas terras de Kakheti – a principal região vinícola da Geórgia, localizada a duas horas de Tbilisi. Aqui, a arte de brindar é elevada a níveis que nem o mais castiço avô português poderia alcançar.

E como diria George Clooney: what else?
Tal como podes intuir, Tbilisi é muito mais que churchkhelas, banhos fedorentos e vinhos comunistas. Se realmente decidires dar uma oportunidade a uma das capitais mais underrated do nosso continente, existem muitos outros locais a visitar. As ruas do centro histórico, o teatro Rezo Gabriadz, o teleférico do Forte Narikala, o Meidan Bazaar, a catedral Sameba… já para não falar das pequenas galerias do centro – onde os hipsters aparentemente ainda não chegaram -, o Dry Bridge Market ou o Dezerter Bazaar. Em suma, prepara-te para um cocktail de experiências que te fará colocar Tbilisi no podium das tuas cidades preferidas!

© Fotografia: Raquel Dias
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