Cidade piscatória do Algarve, tem na manta oceânica e nos mercados homónimos o epicentro da gastronomia do Marina Com Noélia, o restaurante deste cinco estrelas. Eis o ponto de partida para viajar pelo passado e entre ilhas povoadas visíveis no horizonte.

Localizada entre as penínsulas arenosas do Ancão e da Manta Rota, no sotavento algarvio, a Ria Formosa está inserida no Parque Natural homónimo, constituído por duas penínsulas, seis barras, cinco ilhas, dunas, sapais, salinas, pinhal e zonas agrícolas. São aproximadamente 18 mil hectares maioritariamente entregues à natureza e lugar de eleição de diversas espécies de aves aquáticas migratórias, seja durante o inverno, seja como uma espécie de pit stop. Sem esquecer os peixes – mais de 60 espécies – nem as atividades associadas à cultura de bivalves, com a produção de ostras como exemplo.
De olhos postos neste santuário natural algarvio estão os Mercados Municipais de Olhão. Cartões de visita da cidade, remontam a 1916, ano da conclusão da construção de ambos os edifícios erguidos na zona ribeirinha, os quais estão suspensos em 88 estacas. Eis um dos modelos da arquitetura portuguesa primada pelo ferro, com o Mercado Poente destinado a pescadores e mariscadores, e o Mercado Nascente ocupado por vendedores de frutas e hortícolas.

É precisamente no Mercado Poente que está centrada a maior parte da ação culinária da chef Noélia Jerónimo, nome indissociável do Restaurante Noélia situado em Cabanas de Tavira.
Nuno Lopes é dos muito poucos pescadores a vender no mercado. A dedicação à pesca começou há 12 anos, com o sogro, proprietário de embarcações Gaivota Destemida. Tem 43 anos e mantém-se fiel a este ofício ligado ao mar.
Tremelga, ferreira, charroco, raia,
mucharra, carapau, sardinha, cavala…
Noélia Jerónimo chama a atenção para o carapau branco mais pequeno, ideal para alimar, e para o caranguejo azul, espécie invasora, a cozinhar apenas com sal. No caso da abrótea, “põe-se sal hoje e come-se amanhã”.
Camarão vermelho, gamba violeta,
atum, biqueirão, verdinhos, peixe-aranha…
E dita outro conselho: para comprar gamba fresca, convém optar por fazê-lo à segunda, quarta e sexta-feira. Segundo a chef algarvia, são estes os dias em que “saem os barcos para apanhar as gambas”, reforça, acrescentando quão saboroso é o espinhaço de atum, assim como o peixe-aranha ou o peixe-porco, a comerem-se fritos, cozidos ou grelhados.
Tamboril, choco, enxarroco, safio, litão…
Do tamboril aproveitam-se os fígados, “para fazer uma espécie de foie gras”, recomenda a nossa cicerone, que aproveita para encomendar as ovas de choco que há numa bancada, a cozinhar com azeite, alho e malagueta, entre outros ingredientes, quem sabe, para servir ao jantar. Sobre o encharroco, em tempos peixe protagonista nas caldeiradas, afirma a probabilidade de o “voltarmos a comer, por causa do preço do peixe”. Quanto ao safio, aconselha a congelar, para o fatiar finamente e o submeter a uma fritura. Já o litão ou pata-roxa, tubarões muito comuns no litoral do país, é vendido seco, para, depois, ser guisado ou entrar numa feijoada.
Entre estrangeiros, locais e turistas nacionais, a multidão preenche os dois mercados, que, ao sábado, se estende ao exterior, com mais bancadas de vendedores, com hortícolas, frutos secos, flores e mais duas mãos cheias de produtos algarvios.
Do mercado para a mesa
A sopa de peixe e a canja de berbigão e coentros iniciam a homenagem prestada ao Atlântico que, todos os dias, renova uma grande parte do sistema lagunar da Ria Formosa, através de canais formados entre as ilhas-barreira, graças ao ciclo das marés. Outro dos produtos que presta homenagem a este santuário é a ostra.
O roteiro gastronómico pelo Algarve prossegue com a muxama de gaspacho de tomate, o tártaro de atum, a cavala alimada e as ovas de choco. Em substituição das amêijoas em prato célebre de norte a sul do país, a chef Noélia Jerónimo opta pelo lingueirão à Bulhão Pato, sem descurar do camarão frito ao alho.

O culto algarvio no prato firma-se nos arrozes. O caldoso de carabineiro e espargos é uma verdadeira ode à cozinha de Noélia Jerónimo e um tributo sério à região mais a sul de Portugal. Assim como os filetes de peixe galo com xerém de berbigão ou a cataplana de marisco, ou a feijoada de lingueirão.
Afinal, “o Algarve à mesa é tradição, identidade e memória. É uma cozinha profundamente ligada ao mar, à serra e ao barrocal, onde cada prato conta uma história de gerações”, afirma Noélia Jerónimo, que ao xerém de conquilhas ou mariscos, ao polvo à lagareiro, à sardinha assada e ao arroz de lingueirão, por exemplo, acrescenta os “ensopados de borrego da serra”.

Sobre as épocas mais favoráveis para o peixe o marisco, informa que a primavera e o verão são as estações com maior registo de peixe, ou seja, é “quando há maior abundância de sardinha, cavala, atum e peixe costeiro”. O marisco regista maior quantidade no outono e no inverno, “especialmente ostras, amêijoas, perceves e lagostas, que tendem a estar mais cheios e saborosos. Mas a grande vantagem do Algarve é ter excelente peixe e marisco praticamente todo o ano”, sublinha. É este o cenário vivido no Marina com Noélia, onde “procuro mostrar o verdadeiro Algarve à mesa: respeito pelo produto, tradição, autenticidade e os sabores do mar que fazem parte da nossa história”, declara.
Ria adentro

Tamanha beleza da ria, então conhecida a apelidada de Formosa no século XIX, pelo médico e botânico António de Sousa Monteiro, tem duas pequenas ilhas que merecem a visita: Culatra e Armona. Aliás, ambas constam no programa de atividades do Real Marina Hotel & Spa. O acesso é feito pela embarcação da unidade hoteleira e a viagem é conduzida pelo Sr. Gonçalves, o mestre.
Outrora pescador, o Sr. Gonçalves fala sobre a importância da Barra Velha, o canal natural localizado entre as suas ilhas, e dos viveiros de ostras, ou não fossem estes moluscos os protagonistas do itinerário a par com champanhe. Assim são os passeios de barco organizados pelo Real Marina Hotel & Spa, acompanhados pela paisagem de parte do Parque Natural da Ria Formosa e durante os quais há uma explicação sobre o mesmo, bem como acerca das ilhas da Culatra, com cerca de 1000 habitantes, sobretudo pescadores, e da Armona, mais destinada ao veraneio, com casas para arrendar.
O convite para o mergulho é garantido. Por isso, vale o tempo de permanência em cada uma, não só para desfrutar das águas da Ria Formosa, mas também para explorar as praias e percorrer o areal a pé. No regresso, há uma surpresa no barco, para acalentar o estômago. Quem sabe…
A caminho das lendas
Ruas estreitas e casario branco de inspiração mourisca caracterizam o bairro dos pescadores, na mais vetusta zona da cidade de Olhão. A traça dos edifícios alvos expressa a arquitetura cubista, com mirantes e açoteias. Há quem diga que esta linguagem arquitetónica fora trazida, no século XVIII, pelos pescadores que rumaram ao norte de África.
Percorrer as ruas permite observar o património edificado, assim como as instalações que retratam cada uma das cinco lendas de Olhão: do Arraul, no largo João da Carma, que terá recolhido a areia posteriormente transportada para criar os mouchões da rua Formosa; do Menino dos Olhos Grandes, no largo do Carolas, que terá calcorreado o Bairro da Barreta e sido acarinhado por pescadores, mas terá desaparecido; do Mouro Encantado, no largo do Gaibéu, que não sabia brincar; da Floripes, na praça Patrão Joaquim Lopes, versada na beleza desta mulher com meio corpo de sereia; e de Marim, no largo da Fábrica Velha, baseada na paixão entre a jovem Alina e o trovador Abdalá.
O passeio é feito por um guia local do Real Marina Hotel & Spa. Miguel Vitorino, conhecedor das histórias e da história da cidade de Olhão, encaminha os hóspedes pelas primeiras ruas pedonais do país até à Igreja de Nossa Senhora da Soledade, do início do século XVII, e a Igreja Matriz de Nossa Senhora do Rosário, concluída no início do século XVIII. As duas são apenas o começo da Rota das Igrejas, percurso constituído por uma dúzia de templos religiosos erguidos desde tempos remotos da cidade.
Nas traseiras da primeira, está a Casa do Compromisso Marítimo, fundado em 1765. Conhecido como o Edifício da Independência, está associado à independência de Olhão aquando da revolta de 1808 contra as tropas francesas, daí o nome de Vila de Olhão da Restauração, e alberga o Museu Municipal. Em frente, está a Praça da Restauração, para assinalar este capítulo histórico desta cidade que também ela é uma janela aberta para a Ria Formosa.
É ir!
+ Real Marina Hotel & Spa
© Fotografia João Pedro Rato










