O sangue novo na joalharia / Dos Santos

Marco e Nuno Santos imergem no mundo das jóias e das pedras preciosas desde a infância. Universo ditado por um legado de savoir-faire, que remonta a 1976, determinante na trajetória de ambos, traçada por um fio condutor dominado pela rima das linhas depuradas do design contemporâneo com a feminilidade da arte e a elegância poética da natureza. Eis a Dos Santos Handcrafted Jewellery. O testemunho da mestria do traço de dois irmãos, gemólogos, nascidos no Porto, a cidade que, em 2008, vê nascer um espaço reservado aos “clássicos do futuro”, a Elements Contemporary Jewellery, onde fomos recebidos e estivemos à conversa com Marco Santos.

A paixão pelas jóias culmina com o percurso profissional do Marco e do Nuno Santos que, apesar da diferença de idades, seguem o mesmo caminho e, anos mais tarde, criam a Elements Contemporary Jewellery.
Essa diferença de idades levou a que eu fizesse a formação mais cedo e, em 2008, acabámos por nos juntar com a Elements aqui no Porto – criada em dezembro de 2008. Começámos a trabalhar com os nomes que queríamos, o António [Bernardo] e a Niessing, os dois expoentes e as nossas referências no mundo do design e, portanto, começamos a sentir a necessidade de materializar as ideias que tínhamos e quisemos, no fundo, batizar as nossas linhas com um nome. A Dos Santos é, no fundo, as peças feitas por nós, as quais possuem essa garantia de qualidade e de origem.

O Marco e o Nuno são gemólogos, uma profissão muito pouco comum dentro de portas.
A ideia de nos profissionalizarmos passava por uma formação ao nível internacional e o curso de gemologia que tirámos nos Estados Unidos foi muito importante, pois temos, acima de tudo, de saber que matérias primas podemos adquirir. Tirámos no Instituto Gemological Institute of America, entidade máxima do mundo de profissionais e de formação de gemólogos e joalheiros. Estamos credenciados e preparados para as exigências que o mercado nos apresenta, além de que há uma palavra chave no sector: confiança. É muito importante garantirmos e conquistarmos a confiança dos nossos clientes.

“O nosso desafio é apresentar nomes menos conhecidos, muito mais difíceis de clarificar.”

A Elements traduz a contemporaneidade do mundo da joalharia e, por conseguinte, o reflexo de uma visão mais “futurista” de ambos. Há um corte umbilical com o passado?
Tudo tem uma evolução e tudo tem um início – a forma de pensar e de trabalhar, as técnicas, a história… A Elements tem, na realidade, muito a ver connosco. A forma como vemos a joalharia no futuro está presente no nosso trabalho e é inevitável que tenhamos um gosto muito ligado às coisas simples, modernas… Diria que procuramos os clássicos do futuro. Por coincidência, percebemos que havia esse vazio no mercado português, consideramos que está muito estático, dominado por marcas/nomes conhecidos no mundo todo. O nosso desafio é apresentar nomes menos conhecidos, muito mais difíceis de clarificar, mas não há maior prazer do que trabalhar com o que se gosta.

Inovação, criatividade e vanguarda são as palavras que definem a Elements e, em simultâneo, a Dos Santos.
Na Dos Santos tentamos incorporar técnicas ancestrais, como a cinzelagem, pelo que não podemos dizer que não estamos propriamente a reinventar. Fazemos peças com um teor romântico mais acentuado e a mais valia destas peças está nas pedras preciosas, até mesmo nas semipreciosas. Não podendo criar gemas de raiz, podemos desenvolver lapidações, formas de obter um resultado final diferente. Temos lapidadores na Europa a fazerem modelos de pedras essencialmente para a Dos Santos, formas essas que são desenhadas por nós.

Um trabalho executado por técnicos alemães.
É na Alemanha que estão concentrados os melhores lapidadores do mundo.

Quais as pedras que integram o portfolio da Dos Santos?
Os diamantes são a nossa pedra favorita. Da família dos quartzos, temos as turmalinas, as águas marinhas e uma outra que estamos a apostar bastante, como a esmeralda, fascinante sob o ponto de vista até das inclusões que tem. É das poucas gemas em que se consegue perceber a origem do globo de onde é extraída.

Tanto o Marco com o Nuno desenham as peças da Dos Santos, muitas das quais são concebidas por encomenda. Mas também há as coleções da marca.
As encomendas são tratadas individualmente, loja a loja. A Dos Santos está organizada por coleções feitas com gemas, diamantes, cinzelagem – esta numa coleção de arte nova –, e outras peças de série inspiradas em elementos da natureza. Agora estamos a explorar o mundo marinho cujas peças serão inspiradas no imaginário subaquático. No fundo, tentamos sempre implementar uma linha condutora em todas as peças.

Os mestres artesãos estão no norte.
Na região norte, sem dúvida, num raio de 100 quilómetros daqui do Porto. Procuramos que a componente made in Portugal seja a maior possível. Só não o é quando falamos em pedras preciosas, porque não existe. De resto, toda a conceção é feita cá.

Perante o desenho de cada peça há, depois, a necessidade de recorrer ao artesão que domine uma técnica específica.
Exatamente. Há coleções que dependem da cinzelagem, as quais são feitas apenas por um que, tecnicamente, está preparado para essa exigência. Quando envolve cravações de micro-brilhantes é feita noutro lado. E são trabalhos que levam o seu tempo.

De onde surgem as inspirações?
Diria que o elemento natureza está sempre presente. Depois há pequenos detalhes que servem de inspiração para a criação das nossas peças. Por exemplo, a coleção da linha Lótus, inspirada nesta flor mitológica, nasceu de um passeio ocasional no Jardim Botânico, um lugar muito especial aqui do Porto. Essa sensibilidade surge, normalmente, de situações inesperadas, fora do nosso ambiente.

“Há uma tendência para a ligar à moda, uma abordagem que não seguimos.”

A joalharia é uma arte…
Sem dúvida. É uma arte decorativa das mais importantes e das primeiras artes associadas ao ser humano. É uma das formas mais ancestrais de ornamento.

… e persiste na quase exclusividade.
Há uma tendência para a ligar à moda, uma abordagem que não seguimos. Procuramos prestar-lhe tributo, vendo-a mais ligada a essa ancestralidade e à forma antiga de como era usada. Aliás, ainda hoje vendemos peças que têm 20, 25 anos, as quais são consideradas um objeto intemporal. Quem investe numa peças desta natureza sabe que, daqui a 20 anos, continuará com vontade de a usar.

A arte do cinzel

Depois da entrevista com Marco Santos, entrecortada por pequenas conversas soltas protagonizadas pelo belo circunscrito em cada peça de joalharia, fomos bater à porta de um mestre da cinzelagem. Ofício ancestral, outrora associado à arte sacra, quase caído no esquecimento, mas assumido com primazia por João Luís, de 37 anos, que concebe peças de joalharia com proficiência. E é no breu (pasta para modelar metal) acamado num tronco de árvore que o artesão cinzela uma peça desenhada pela Dos Santos. Um “trabalho desafiante” para João Luís, não só pelo detalhe, mas também pelo requinte de cada objeto criado por Marco e Nuno Santos e, a posteriori, concebido desde o metal em bruto “até à peça final”. •

+ www.elements.com
© Fotografia: João Pedro Rato com Canon PowerShot G16

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