A tradição vínica do Alentejo volta a dar que falar na Herdade Aldeia de Cima

O termo ‘Garrafeira’ apresenta-se em dose dupla no portefólio deste projecto de Luísa Amorim e Francisco Rêgo, localizado na Serra do Mendro. As duas boas novas complementam-se com outro par protagonizado por um branco e um tinto ‘Reserva’.


Herdade Aldeia de Cima é o nome do projecto do casal Luísa Amorim e Francisco Rêgo, onde estão plantadas 12 variedades de uva exclusivamente nacionais. A sua localização, em plena Serra do Mendro, na sub-região da Vidigueira, privilegia do sossego tão característico do Alentejo, região carregada de tradições, que, a pouco e pouco, são recuperadas. Ao mesmo tempo, este lugar beneficia das amplitudes térmicas marcantes, com dias quente e noites frias, graças à altitude, factor igualmente determinante no que concerne à influência do Atlântico, e essa frescura nocturna revela-se nos vinhos, como um atributo determinante. 

É disso exemplo o Herdade Aldeia de Cima Garrafeira tinto 2019 (€90), elaborado a partir das castas Aragonez e Alicante Bouschet, uma estreia no portefólio deste projecto. A designação ‘Garrafeira’ foi concedida a este vinho, porque, nos tintos, o estágio deve durar, no mínimo 30 meses, dos quais 12 deve ser feito em garrafa, e este tinto foi submetido a 12 meses de estágio em balseiro de carvalho francês, seguidos de 18 meses em garrafa, envelhecimento esse que pode continuar, uma vez que denota potencial de guarda.

Apesar do tempo conferido ao envelhecimento do vinho ser um aspecto importante neste processo, é a intemporalidade outra condição maior na feitura deste vinho, que remete para o Alentejo de um passado não muito longínquo. Além disso, a designação ‘Garrafeira’ estava a rarear no léxico vitivinícola desta região.

A segunda colheita do Herdade Aldeia de Cima Garrafeira branco, desta feita de 2020 (€42), é outra boa nova. Feito a partir da casta Antão Vaz, também é elaborado com as castas Arinto e Perrum, este vinho denota uma “mineralidade vivaça”, segundo António Cavalheiro, enólogo residente. O estágio decorreu, na totalidade, durante um período de 18 meses, 12 dos quais em madeira e os restantes seis em garrafa, como manda a cartilha da Comissão Vitivinícola da Região do Alentejo. 

A madeira, previamente seleccionada para os balseiros de carvalho francês, feitos exclusivamente para a adega da Herdade Aldeia de Cima, é outro aspecto importante em todo este processo desta feita, realçado por Luísa Amorim. 

De acordo com Jorge Alves, enólogo responsável por este projecto, “a garrafa é um elementos muito importante”, no que ao “afinamento do vinho” diz respeito, já que os ‘Garrafeira’ só recebem aprovação após o estágio em garrafa. 

No alinhamento dos ‘Reserva’, há a dupla branco e tinto. Herdade Aldeia de Cima Reserva branco 2020 (€16), feito a partir das castas Antão Vaz, Alvarinho, Arinto e Roupeiro, tem na segunda e terceira “o sal e a pimenta” do portefólio de castas da Vidigueira, nas palavras de Jorge Alves. Tal como o Herdade Aldeia de Cima Garrafeira branco 2020, este vinho revela frescura, acidez e sensação de mineralidade muito agradáveis, atributos que também se devem às condições climáticas atrás referidas. 

A mesma quantidade de castas é utilizada na feitura do Herdade Aldeia de Cima Reserva tinto 2019 (€16) – Trincadeira, Alicante Bouschet, Aragonez e Alfrocheiro. “É um vinho altamente alentejano”, para Jorge Alvez e que “remete para aqueles vinhos antes da massificação das castas estrangeiras”, complementa António Carvalheiro. Cabe agora aos mesmos protagonistas repetir a proeza relativamente às colheitas subsequentes, para que esta identidade não se perca.

Brindemos!


+ Herdade Aldeia de Cima
© Fotografia: João Pedro Rato

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