Pedro & Inês, o menu dos 30 anos do Hotel Quinta das Lágrimas

A histórica propriedade de Coimbra celebra três décadas. A comemoração faz-se à mesa, com um desfile de pratos inspirados na herança culinária reinterpretada pelo chef Vítor Dias. Eis o ponto de partida para as festividades dos 700 anos deste pequeno paraíso cultural, a assinalar em 2026.

Disponível até meados da primavera de 2026 no Arcadas, o “Menu Pedro & Inês” é uma ode às receitas emblemáticas do percurso gastronómico da casa-mãe do referido restaurante, o Hotel Quinta das Lágrimas. A unidade de cinco estrelas, localizada na margem sul do rio Mondego, simboliza o património edificado histórico e cultural, desde as artes à mesa, da cidade de Coimbra. Mas há mais um motivo para escrever sobre este lugar único do burgo estudantil em tempos tão enaltecido pela história ligada à Universidade de Coimbra: os 30 anos do Hotel Quinta das Lágrimas.

Celebre-se no Arcadas as três décadas deste legado que “é casa da mesma família há dois séculos”, nas palavras de Cláudia do Vale, a especial cicerone dos Jardins da Quinta das Lágrimas, no âmbito da Fundação Pedro e Inês. A finalidade é revisitar receitas marcantes no que ao percurso gastronómico deste hotel diz respeito, através de um menu integrado na ementa de outono/inverno do espaço de restauração. A reinterpretação é feita por Vítor Dias, que está na Quinta das Lágrimas desde 2000, assumindo a função de chef em 2016.

O primeiro momento, servido após as boas-vindas do chef, é protagonizado pela sopa de peixe, que permanece na ementa do restaurante desde o primeiro dia, segundo Miguel Júdice, administrador do Hotel Quinta das Lágrimas. O prato traduz-se numa homenagem à costa portuguesa, com gamba do Algarve, peixe da lota e choco, aos quais são adicionados as algas e o milho. 

C. L. P. é o nome do momento seguinte. São estas as iniciais de camarão, lavagante e pregado, trio combinado com abóbora, um creme de manteiga e ervas, registo da autoria do chef alemão Joachim Koerper, que trocou o sul de Espanha por Coimbra em 1999. A década seguinte é marcada pela conquista da estrela Michelin a par com a equipa de cozinha e sala do restaurante Arcadas, e já com o chef Albano Lourenço à frente da cozinha.

História à parte, eis o bovino, um rabo de boi estufado e acompanhado por puré de batata trufada, ao gosto do chef alemão, bem como espinafres suados e salteado de cogumelos. Esta combinação de sabores conjuga-se, na perfeição, com a época do ano. O mesmo se diz sobre o clássico leite creme queimado, com gelado de tomilho e crocante de papoila e sésamo, uma sobremesa cuja base é beirã e tem vindo a acompanhar os 30 anos do Hotel Quinta das Lágrimas.

No copo prevalece a sugestão de vinhos das regiões da Bairrada e do Dão, com particular ênfase para as referências Pedro & Inês, produzidas com a chancela da Ribeiro Santo, do produtor e enólogo Carlos Lucas, que, este ano de 2025, celebra 25 anos.

Museu botânico ao vivo

Após a refeição, recomenda-se a visita aos Jardins da Quinta das Lágrimas. São 12 hectares de jardins históricos, património botânico entregue à Fundação D. Inês de Castro, criada em janeiro de 2005. O passeio cinge-se a dois espaços importantes no âmbito de um legado secular preservado. A primeira passagem é feita pela área reservada ao Romantismo, que remonta ao século XIX. Contíguo ao palácio do século XVIII, esta zona ao ar livre é uma mostra proporcionada por exemplares provenientes de várias latitudes, como podocarpus, canforeiras e bambus – estes últimos também estão no jardim japonês –, entre outras, assentes em canteiros de formato arredondado. Mais à frente, o jardim medieval remete a uma viagem mais longa no tempo: século XIV. Escasso em árvores, prima pela geometria dos canteiros, onde estão pequenas hortas de plantas aromáticas. 

Parte do canal de água mandado construir pela Rainha Santa Isabel, padroeira de Coimbra, que residia no Paço Real de Santa Clara-a-Velha constitui apenas uma parte dos registos associados ao jardim medieval, ou não estivesse este localizado junto à Fonte dos Amores, de 1326, local referenciado como o preferido por D. Pedro e D. Inês de Castro, protagonistas da história de amor proibido no âmbito da Coroa Portuguesa.

Mais à frente, a Fonte das Lágrimas, local do documentado assassinato de D. Inês de Castro, entra no Canto III de Os Lusíadas, de Luís de Camões. Este é o motivo pelo qual o anfiteatro, de 2008, se chama Colina de Camões, projeto da autoria da arquiteta paisagista Cristina Castel-Branco, elemento do conselho executivo da Fundação D. Inês de Castro. Este espaço contemporâneo foi distinguido, no mesmo ano, com o Prémio Nacional de Arquitetura Paisagista. A partir de 2009, é o epicentro do Festival das Artes, evento anual realizado na Quinta das Lágrimas, que, em  2026 irá assinalar “700 anos de história documentada da propriedade, com registos que remontam a 1326, um marco que reforça o valor patrimonial e cultural deste espaço singular, profundamente ligado à cidade de Coimbra e às suas tradições”, de acordo com o comunicado. 

É ir!

Hotel Quinta das Lágrimas
© Fotografia: João Pedro Rato

Já recebe a Mutante por e-mail? Subscreva aqui