O hotel-galeria da cidade do Porto

A história do Palacete Severo começa em 1905. Está localizado na antiga rua do Conde, atual rua Ricardo Severo, nome atribuído bem mais tarde no tempo, para prestar homenagem ao homem que projetou a casa portuguesa ideal, a dois passos do início da avenida da Boavista, na cidade do Porto, para a mulher, Francisca Dumont. No entanto, o casal residiu aqui por uns escassos três anos, tendo regressado ao Brasil, país que acolheu o ilustre engenheiro, arquiteto, arqueólogo e escritor lisboeta durante o exílio, devido às convicções republicanas anteriormente manifestadas.

Mais de 100 anos depois, este imóvel classificado como edifício de interesse histórico é objeto de admiração e adquirido, em 2019, por um casal de franceses apreciadores de arte. Face à conjuntura do ano seguinte, o restauro e reabilitação do edifício e dos interiores começaram em 2022. A arquitetura esteve, inicialmente, nas mãos do arquiteto Carlos Prata, passando para o arquiteto Bernardo Abrunhosa de Brito, autor do recente edifício construído de raiz num dos recantos do jardim do Palacete Severo. Assim, em outubro de 2024, renasce como boutique hotel, onde a história, a cultura e a arte do passado se cruzam com o conforto do presente e a interpretação artística na Perspective Galerie. Os interiores contam com a assinatura do designer de interiores Paulo Lobo (leia aqui a entrevista). 

“Os proprietários querem que seja um hotel onde as pessoas se sintam em casa. Houve um trabalho muito minucioso, foi um processo demorado, devido ao projeto de restauro que aqui foi feito. É um hotel-galeria de arte, tem restaurante e tem Spa. A cada dois meses ou dois meses e meio mudamos as obras de arte”, resume o chef Tiago Bonito, responsável pela cozinha deste boutique hotel, a qual se divide pelo gastronómico Éon, o Bistrô e o pequeno-almoço. Já lá iremos.

Entrar no pequeno jardim que rodeia o Palacete Severo é como uma viagem no tempo, extensível ao bar do Bistrô Severo, contíguo à pequena receção deste boutique hotel, onde as madeiras escuras trabalhadas a preceito tomam conta do espaço. Vale o pátio interior especialmente luminoso nos dias soalheiros, onde o mosaico hidráulico original confere beleza a este espaço intimista. Aqui, é servido pequeno-almoço. Enchidos, charcutaria, pães, viennoiserie (quase uma mão cheia de produtos de pastelaria em miniatura), chá, leite, café, compotas e doces de frutos, manteiga, iogurte e outras sugestões à carta fazem parte da primeira refeição matinal. Os clientes dos almoço e dos jantares do Bistrô Severo também elegem esta sala, para saborear os pratos confecionados pelo chef Tiago Bonito.

Já os apreciadores de alta gastronomia preferem o Éon, onde o chef Tiago Bonito (leia aqui a entrevista) eleva a criatividade e a técnica. Mas também onde a beleza conferida pela madeira trabalhada e as janelas testemunham o passado através de uma reabilitação cuidada, de filigrana. A mesma subtileza é demarcada pelo tom verde-azeitona, as madeiras das peças de mobiliário e os tampos das mesas do restaurante.

Da cozinha para os restantes espaços, a arte está no centro deste boutique hotel, graças à Perspective Galerie, dos proprietários da casa. Cada peça está exposta onde menos se espera, como o Spa Severo ou a biblioteca. Os quartos e os restaurantes estão igualmente contemplados com objetos de autor, assim como o bar do Bistrô Severo. A jornada artística de agora, e que está patente até 23 de março de 2026, é feita a uma exposição coletiva intitulada “Imagens para o inverno”. A curadoria é de Laura Castro e os artistas são seis: a britânica Nettie Burnett, os portuenses Filipe Cortez, Diana Costa e Isabel Pavão, Maria Regina Ramos, de Vila Nova de Cerveira, e Susana Piteira.

Os vitrais junto à escadaria exígua desta que foi uma casa de família, são outra forma de arte, pois oferecem uma leitura enigmática, quase secreta, obrigando a uma análise demorada. No piso superior está a biblioteca, igualmente bela, onde o chão, as paredes e o teto remetem para uma viagem ao passado. Sem esquecer a lareira singular e as janelas, que emprestam luz a este espaço destinado à leitura. Ao lado, está a sala de eventos, de tetos e paredes com frescos de outrora redefinidos pelo trabalho exímio de restauro realizado no Palacete Severo. 

Pelos corredores dos três pisos estão distribuídos 11 quartos e suítes. A subtileza de Paulo Lobo é extensível a cada recanto, sem passar a exageros. Cada pormenor é ponderado e implementado de acordo com o savoir-faire do designer de interiores portuense. A experiência é partilhada nos restantes seis quartos instalados no edifício construído de raiz. No piso térreo deste último está o ginásio e o Spa Severo, uma ode ao bem-estar, para corpo e alma.

De volta ao jardim exterior, há recantos que merecem contemplação. Outros há, que oferecem sossego, como as mesas dispostas entre os dois edifícios separados por 120 anos. É o lugar ideal para pôr a conversa em dia e partilhar um chá, bolachas e scones caseiros, enquanto o sol acompanha a estadia. O mergulho na piscina ao ar livre e de água aquecida é imperativo! Tudo está aliado à arte de bem receber, a começar por Joana Almeida, a diretora geral do Palacete Severo.

É ir!

Palacete Severo
© Fotografia: João Pedro Rato

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