Uma casa longe de casa / Solar Egas Moniz

“Era uma vez um pequeno condado, hoje Portugal, ‘construído’ pela coragem e bravura de homens e mulheres que acreditaram num sonho e o tornaram realidade. Esta casa é uma homenagem a um desses homens. Egas Moniz, aio de D. Afonso Henriques, primeiro rei de Portugal.”
Eis as palavras inscritas nos degraus das escadas defronte da porta de entrada da casa agraciada pela arte de bem receber. O Solar Egas Moniz. A concretização de um sonho da família Vinha, reerguido no alto do vale de Paço de Sousa. A norte.

Datada de 1892, a casa que, desde há um ano, acolhe o Solar Egas Moniz, em Paço de Sousa, Penafiel, mantém o traço e a traça de um lar abastado, de paredes grossas, em pedra, para amenizar o frio do inverno e afugentar o calor do verão, com grandes janelas e portas de varandins de ferro forjado da ala antiga, viradas para o jardim que a circunda. De um lado, a piscina descansa ao sabor do vento; ao lado, debaixo de uma cameleira em flor, serena o parque infantil, tradução livre de boas vindas aos mais novos. À porta da entrada, sob a qual o vitral colorido da autoria do artista plástico Ricardo Crista arrebata os tons de uma primavera envergonhada, uma bicicleta antiga deixa adivinhar o gosto por longos passeios pelo campo.

Decoração e tradição

Lá dentro, o chão, forrado a madeira, inspira conforto, sustenta um décor cosy, típico de uma casa de campo, decorado a preceito. A começar na sala contígua à entrada, dominada pelos azuis e brancos, e pela luz do sol onde, numa mesa discreta Iva Vinha, a filha dos proprietários, recebe os hóspedes. Ao lado, o mostruário, a imitar os que outrora acompanhavam as paredes das farmácias, guarda palavras doces bordadas, com primor, em almofadas e recordações para oferecer a quem tanto aprecia a tradição das bordadeiras do norte do país. Nem mesmo o cantinho ornamentado com um cavalo de madeira e uma estante com livros infantis passam despercebidos.

O rústico dita a decoração na luminosa sala de jantar, com uma lareira, ao fundo, rodeada por sofás que convidam a preguiçar após tão longa viagem. Num canto, o antigo lagar dá lugar a uma enoteca, deixa à vista dos hóspedes uma seleção criteriosa de néctares de Baco do país, com especial destaque para os vinhos verdes da região. Do lado de lá da parede de pedra, ao fundo, a sala dos faustosos pequenos almoços recebe, à noite, os jantares da família Vinha, a proprietária do Solar Egas Moniz desde 1995. De dia, o espaço está reservado aos almoços, mediante solicitação prévia, e ao lanche, como o nosso, de boas vindas, onde o chá fez-se acompanhar por uma generosa fatia de bolo de chocolate.

Os valores do aio de D. Afonso Henriques

Nos quartos, o retro rima com um conforto intimista numa aliança clarividente dos tons dominantes e cada um dita um atributo moral associado a Egas Moniz, aio do primeiro rei de Portugal – desengane-se aquele que o confundir com o Nobel da Medicina de 1949. Assim constam na lista dos nomes dos aposentos a lealdade, o altruísmo, a coragem, a humildade, a honra e a sabedoria. Da Lealdade, onde ficámos, realçamos o vitral que preenche de cores várias o pequeno lounge da suite, o mais romântico da ala antiga, no qual está transcrita uma frase de Miguel Esteves Cardoso: “A lealdade é um amor que esquece o mundo.” Da varanda do quarto vemos o Mosteiro do Salvador de Paço de Sousa, a escassos metros do Solar Egas Moniz. Já lá iremos…

Na ala nova, cuja ligação é feita por um corredor, onde há um recanto com chá, café e bebidas para os hóspedes se servirem sempre que quiserem, os quartos apregoam os costumes e as tradições do país, odes ao vira, ao azeite, ao vinho e aos namorados, que ornamentam a cabeceira da cama de cada um dos aposentos. As janelas, imensas, abrem-se para o terraço interior, de onde vemos uma pequena horta biológica que começa a ganhar vida.

Sabores casados com vinhos verdes

A conversa em família faz-nos sentir em casa. A braços com a hospitalidade e a simpatia, Júlio Vinha, o proprietário, apresenta-se, sucedendo-se Conceição Vinha, a mulher, professora aposentada que recebe como ninguém. “Faz de conta que estás a receber os teus amigos”, dissera-lhe a filha, Iva, nos primeiros tempos coincidentes com a abertura do Solar Egas Moniz.

Da cozinha, as iguarias da Beta conquistam de imediato o olfato dos comensais, que se sentam à mesa numa conversa amena condimentada com partilha de saberes à volta da cozinha típica portuguesa, com ênfase no chouriço assado, na açorda de marisco e no Bacalhau à Egas Moniz, o prato da casa, confecionado com apreço e acompanhado pelo vinho verde da região, e das histórias relacionadas com a casa outrora pertencente a agricultores abastados com dinheiros ganhos além mar.

Do outro repasto da noite, também casado com os vinhos da região, as entradas com alheira de Mirandela e as azeitonas são o mote para mais uma conversa sobre os sabores do norte do país, aberto para o mar, de onde o salmão se faz acompanhar com pimento em espetadas, seguido de um caldo verde que apetece quando o frio acompanha o breu ao luar. “É uma troca de saberes”, reforça Conceição Vinha ao falar sobre a partilha de ideias com a Beta, a cozinheira da terra que tão bem sabe levar o genuíno para a mesa, como o prato de vitela. E porque se diz que “o doce nunca amargou”, a refeição termina com uma difícil escolha entre as farófias ou “nuvens” – nome que ouço pronunciar desde a minha infância, pela similar forma das ditas farófias –, o bolo de chocolate e o de cenoura.

Pelo roteiro da história

Na primeira manhã em Vale de Sousa rendemo-nos ao início da história de Portugal, numa visita a três monumentos únicos, datados desde o século X, na companhia de uma guia do património da Rota do Românico. Um caminho marcado pelas memórias do românico envolvidas pela natureza preservada pelo tempo. Porém, a chuva intensa demarca a curteza do roteiro, que começa no Mosteiro do Salvador do Paço de Sousa, a dois passos do Solar Egas Moniz. Um mosteiro beneditino do século X, cuja origem está associada à fundação de uma comunidade monástica, ligado à família dos Ribadouros e edificado com paredes de pedra grossa, dentro das quais está guardado uma das mais belas peças tumulares do país, o túmulo de Egas Moniz, o famoso aio de D. Afonso Henriques e uma das figuras centrais do início da nacionalidade. Ao lado, a Torre Sineira acolhe, hoje, o Centro de Informação da Rota do Românico.

A caminho do Mosteiro de São Pedro de Cête, conhecemos de perto a Ermida de Nossa Senhora do Vale, com uma construção da época manuelina, similar à arquitetura do referido mosteiro, em particular no que toca às pedras de armas. Um exemplar no traço religioso românico em Paredes. Sobre o Mosteiro de São Pedro de Cête, a atmosfera bucólica em redor é realçada pela chuva que se compromete a acompanhar-nos nesta rota pelo legado histórico e religioso da região do Vale de Sousa, tendo sido D. Gonçalo Oveques o fundador deste exemplar da arquitetura românica e gótica. Porém, a Rota do Românico não termina aqui! Pelo contrário, há muito para conhecer, (re)descobrir e explorar nesta vertente do turismo cultural no coração do norte de Portugal, e há que reservar com antecedência.

O despertar dos sentidos

A experiência sensorial dita o bem estar do corpo nas águas sulfurosas das Termas de São Vicente, em Penafiel, datadas do ano 315 d.C.. Um legado da região ditado pelas ruínas do balneário que remonta aos tempos dos romanos, a descoberto no exterior do edifício do início do século XX, reaberto em 2008 e que, no presente, acolhe a nascente, o balneário termal, assim como um pequeno museu, as termas, com salas de tratamentos, e o Spa, destinado às massagens, para momentos relaxantes. A experimentar após longos e insistentes “passeios” pela piscina termal dinâmica, com jacuzzi, cascatas, contra-correntes, cama e banco de aerobanho, hidromassagem sequencial, corredor de marcha…

Aos que preferem uma experiência mais intimista, o Solar Egas Moniz recomenda também a Team Spa, cujo conceito baseia-se no room Spa, uma alternativa para os hotéis de excelência sem Spa, acatada, de certo, pelos hóspedes mais exigentes, e uma experiência que tão bem acalentou a alma após uma longa viagem até Paço de Sousa. Para uma tarde relaxada… O que vos parece? •

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BMW 518d Touring
© Fotografia: João Pedro Rato com Canon EOS 60D

 

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