G de Gouveio e gastronómico

A enóloga Beatriz Cabral de Almeida apresentou a primeira edição desta casta branca a solo com a chancela da Quinta dos Carvalhais, no restaurante Polémico, em Lisboa. A justificação: provar que os vinhos que faz são para acompanhar comida.

“Quando faço um vinho, encho uma pequena garrafa e vou para um restaurante local”

“Quando faço um vinho, encho uma pequena garrafa e vou para um restaurante local”, começa por contar Beatriz Cabral de Almeida, enóloga da Quinta dos Carvalhais, a propriedade vitivinícola de 100 hectares da Sogrape localizada em Mangualde, na região do Dão. E pede um prato de peixe e outro de carne, e verifica se a acerta na combinação. “Se fica bem harmonizado apenas com um prato, volto à Quinta dos Carvalhais e refaço o lote”, revela. Porquê? Porque Beatriz Cabral de Almeida aposta na versatilidade de um vinho. “O facto de terem acidez e frescura, e não serem exuberantes”, permite que os vinhos sejam versáteis à mesa.

Foi o que aconteceu com o Quinta dos Carvalhais Edição Especial Gouveio 2023, uma estreia desta variedade a solo registada na história da propriedade adquirida pela Sogrape em 1998, em resposta à pergunta: “por que não fazer um Gouveio?” A resposta, como se vê, tardou, “porque a casta é muito exuberante”. No entanto, a persistência levou Beatriz Cabral de Almeida a recorrer, maioritariamente, às uvas vindimadas no talhão próximo do lado da propriedade, onde “amadurece mais tarde que nas outras zonas”, justifica, e a uma parte mais quente da vinha, cuja área total ocupa 54 hectares. 

O resultado traduz-se num vinho mais fresco, elegante e equilibrado, que bem ficou com o crudo de lírio dos Açores, com gengibre, ponzu (condimento nipónico simultaneamente cítrico e amargo) e tobiko (ovas de peixe-voador), já depois do tártaro de novilho e raspas de gema de ovo curado, um dos best-sellers do Polémico, restaurante de Campo de Ourique, onde a partilha à mesa é hábito consagrado. E já depois dos pastéis de massa tenra de berbigão e aioli de coentros.

O Quinta dos Carvalhais Edição Especial Gouveio da colheita de 2023 é a prova de que a enóloga e André Guedes, responsável pela componente agrícola da Quinta dos Carvalhais, continuam e realizar experiências, quer na vinha, quer na adega, embora nem todas sejam apresentadas ao consumidor.

Outro dos exemplos é o Quinta dos Carvalhais Edição Especial Reserva Rosé 2023, vinho estagiado, por seis meses, nas barricas onde já tinha repousado o Quinta dos Carvalhais Branco Especial Encruzado, ou o Quinta dos Carvalhais Edição Especial Alfrocheiro. Aliás, tanto o rosé como o Alicante Bouschet foram o par perfeito para as chalotas, massa folhada e burrata.

No fundo, as edições especiais servem para “mostrar o potencial da quinta e da casta num determinado ano”. Por esse motivo, Beatriz Cabral de Almeida adverte para o tempo de estágio, “porque a vinha é um laboratório a céu aberto, daí que o vinho seja sempre diferente” e “o tempo seja um factor tido sempre em conta”.

Quinta dos Carvalhais

© Fotografia: João Pedro Rato

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