Herdade da Malhadinha Nova : restaurante

Da terra à cozinha, respira-se Alentejo

Na Herdade da Malhadinha Nova, a crescente produção de trigo Barbela é uma ode ao património da região, cuja ligação passa a ser realidade maior à mesa do restaurante desta propriedade, onde a exploração agrícola reúne hortícolas, árvores de fruto, vaca Alentejana, borrego Merino e porco alentejano.  

A produção biológica abrange os 455 hectares da Herdade da Malhadinha Nova, propriedade de exploração agrícola localizada em Albernoa, no concelho de Beja. “São servidos no nosso restaurante os vinhos, o azeite e o mel, cereais variados tais como trigo duro e Barbela, aveia, centeio, cevada, a vaca Alentejana, o borrego Merino e o porco preto, todos com denominação de origem protegida (DOP), e os legumes e frutas das hortas e pomares recuperados na propriedade.” Esta frase inscrita na ementa disponível no Restaurante da Malhadinha explica a preocupação da família Soares no que ao produto diz respeito. Mas vamos por partes.

Comecemos pelo couvert: queijo de Serpa de ovelha, presunto pata negra, manteiga dos Açores com flor de sal de Castro Marim, azeite extra virgem Malhadinha 100% Galega, variedade de azeitona do olival da propriedade, cesto de pão alentejano e pão de trigo Barbela biológico, cujas primeiras sementes foram entregues pelos irmãos Paulino Horta, conhecidos pela produção artesanal de farinha na empresa homónima situada no concelho de Alenquer. “O trigo Barbela começou a ser semeado na Herdade da Malhadinha Nova em 2023, com a sementeira de 500 quilos e uma produção inicial de cerca de três toneladas”, informa João Soares, CEO e fundador da propriedade. Em 2024, a sementeira de três toneladas traduziu-se em cerca de 10 toneladas, enquanto em 2025 a sementeira de 10 toneladas resultou em aproximadamente 60 toneladas. “Esta iniciativa surge no âmbito da aposta na recuperação de variedades antigas portuguesas e na valorização da produção biológica”, esclarece.

A sementeira é idealmente feita em outubro e a variação da produção de trigo Barbela advém, sobretudo, das condições climáticas. “Sendo um cereal menos comum, mais delicado e menos padronizado do que variedades convencionais e com custos de produção muitíssimos superiores, exige maior cuidado em todo o processo”, sublinha João Soares, que, na primeira fase de comercialização do produto, procedeu a uma afincada análise de mercado. Por outro lado, a colheita é desafiante, uma vez que se trata de um cereal com um tamanho mais reduzido e por ser menos homogéneo quando comparado com o trigo convencional. “Isso obriga a maior precisão no momento certo de corte e a uma atenção especial à maquinaria e à regulagem dos equipamentos”.

O trigo Barbela está disponível na loja da Herdade da Malhadinha, espaço contíguo à Taberna, onde são realizadas as provas de vinho, e à recepção, e faz parte da confeção de produtos desenvolvidos na propriedade, “nomeadamente na farinha biológica”. Paralelamente, foram estabelecidas parcerias, “como a colaboração com a Gleba”, onde, além da farinha, também há pão feito a partir deste cereal.

“Trabalhar produtos com identidade própria” foi a premissa para optar por este cereal que esteve à beira da extinção. “Adaptado à terra e ao clima do alentejo com grande valor cultural e gastronómico”, o trigo Barbela representa, para Rita, igualmente CEO e fundadora da Herdade da Malhadinha Nova, e João Soares, a “memória agrícola da região” sustentada numa lógica de sustentabilidade.

Novo capítulo à mesa

Em jeito de conclusão, podemos afirmar que o trigo Barbela conquistou lugar à mesa do Restaurante Malhadinha, agora com um novo chef executivo residente. Chama-se Nuno Serra e é natural de Vila Viçosa. Parte do seu percurso profissional foi desenvolvido nos Países Baixos, de onde regressou recentemente. Passou a fazer parte, este ano, da equipa do Restaurante Malhadinha, para trabalhar ao lado do chef Joachim Koerper (chef consultor), que permanece na Malhadinha há 17 anos. O convite “nasce precisamente dessa combinação entre competência técnica, sensibilidade para o produto e afinidade com um projeto que valoriza a origem, a sustentabilidade e a identidade do Alentejo”, explicou Rita Soares.

“Aceitei o convite para integrar a equipa de cozinha da Herdade da Malhadinha Nova por reconhecer neste projeto uma referência sólida no Alentejo, onde a gastronomia se afirma pela sua identidade, respeito pelo território e atenção ao detalhe. Motivou-me particularmente a forte ligação ao produto, com recurso a ingredientes frescos provenientes da própria horta, que se refletem numa cozinha autêntica, precisa e de grande qualidade, profundamente enraizada na tradição alentejana”, afirmou Nuno Serra. O chef executivo referiu ainda a mais-valia da proximidade com os produtores locais, ação que reforça “uma abordagem sustentável e consciente, alinhada com a valorização do território, da sua cultura gastronómica e das suas tradições. Destaco ainda o reconhecimento pelo trabalho e visão da família Soares, cuja dedicação tem sido fundamental para afirmar este projeto de excelência, sendo, para mim, um privilégio poder contribuir e crescer neste contexto”. 

Sem esquecer a D. Vitalina, a cozinheira alentejana que está na Herdade da Malhadinha Nova há 26 anos e preserva o receituário tradicional. “Mantém-se, naturalmente, como parte importante da cozinha e da memória gastronómica da casa.”

Com esta boa nova, surge um novo capítulo à mesa da Herdade da Malhadinha, com uma cozinha mais ligada à região alentejana, “mais depurada, mais sóbria e mais centrada na essência e qualidade do produto. A ideia não é romper com o que existe, mas aprofundar uma linguagem culinária mais próxima da terra, da estação e da autenticidade”, enaltece Rita Soares. Os motivos associados a esta mudança resultam da crescente aposta na produção na propriedade. “Há uma vontade clara de tornar essa relação ainda mais visível, coerente e assumida”, salienta a CEO da Herdade da Malhadinha Nova.

No seguimento desta filosofia, as hortas da propriedade têm conquistado espaço no terreno. Tudo é supervisionado pelo engenheiro Lurdino Marques, responsável pela produção agrícola da Herdade da Malhadinha Nova, que conta com o apoio de três elementos. “Entre os hortícolas e frutas produzidos em maior quantidade encontram-se diferentes legumes sazonais, folhas, ervas aromáticas e outros produtos de horta que alimentam diretamente o restaurante. Na produção animal, destacam-se a vaca da raça Alentejana e as ovelhas de raça Merina, numa lógica de respeito pelas raças autóctones e pela identidade do território”, declara Rita Soares. 

Embora em março deste ano de 2026 a produção total tenha ultrapassado os 200 quilos, a CEO da Herdade da Malhadinha Nova assume que ainda não são totalmente autossuficientes. Mas o objetivo não é cingir o circuito produtivo à propriedade, apesar do foco estar no aumento da produção própria. Rita Soares salienta que quer manter “a ligação a fornecedores externos de confiança, sobretudo locais, regionais e com práticas alinhadas com os nossos valores, nomeadamente a proximidade, a qualidade e o respeito pelo modo de produção”.

Em jeito de conclusão, a CEO da Herdade da Malhadinha Nova assegura a aposta contínua “na sustentabilidade, na valorização do território, na produção biológica e em novas parcerias que reforcem a identidade do projeto, sempre com o mesmo propósito: criar experiências autênticas, consistentes e memoráveis”.

Das vinhas ao Spa

Memoráveis e imperdíveis são as atividades disponíveis para os hóspedes da Herdade da Malhadinha Nova, membro da Relais & Châteaux desde setembro de 2020. Os dias passados na propriedade tanto são cúmplices na total entrega ao ócio, como se podem tornar imparáveis. A ocuparem uma área a rondar os 77 hectares (80 hectares no total, se contarmos com a vizinha vinha de Vale Travessos e a vinha da Teixinha, na Serra de São Mamede, em Portalegre), as vinhas, cujos primeiros 20 hectares foram plantados há 25 anos – com Francisca Soares, filha de Rita e João Soares, nascida em 1998, a plantar a primeira cepa –, são o cenário perfeito para passear calmamente ou correr. Passear de buggy – cada suíte tem um à disposição – é outra das alternativas, para fazer o reconhecimento da herdade e ter acesso às zonas onde estão os cavalos e os porcos alentejanos, à maternidade dos animais e ao local do piquenique romântico ou familiar, entre amigos, previamente preparado e decorado a preceito no meio da natureza. BTT é igualmente uma solução. Moto 4 é outra das experiências dedicadas aos mais radicais.

Para quem gosta de mostrar a mestria manual, que tal um workshop de olaria e pintura da respetiva peça, ou de bolachas ou de pintura. Aos mais tradicionais, fica a sugestão de workshop de pastelaria tradicional alentejana. Já agora, desafie a destreza com tiro ao arco com flecha.

Tratando-se de uma propriedade vitivinícola, há provas de vinhos para todos os gostos, incluindo as temáticas, nas quais estão inseridas as verticais. Qualquer uma destas ações permite conhecer os vinhos produzidos na Herdade da Malhadinha Nova, bem como os que são elaborados com uvas provenientes da vinha de Vale Travessos e os que são feitos a partir de uvas colhidas na vinha da Teixinha. A variedade de castas e o exercício de as conhecer melhor consoante o local onde estão plantadas – aqui leia-se a diferença entre as vinhas de altitude e as demais, bem como o factor vinhas velhas – é pretexto maior para saber mais sobre vinho.

E nada melhor que começar o dia a tomar o pequeno-almoço à beira da piscina da country house do Monte da Peceguina, que marca a estreia do projeto de alojamento em 2008, ou da Casa do Ancoradouro, com uma vista diferente sobre a vinha. Mais recatadas são a Casa das Artes e Ofícios, a Casa da Ribeira e a Casa das Pedras – as duas primeiras com piscina, enquanto a terceira dispõe de quatro piscinas privativas, tantas quantas as suítes deste aglomerado construído em betão, ideal para namorar. E terminar o dia no M Wellness Spa, espaço de bem-estar minimalista desenvolvido em conjunto com o atelier Aires Mateus, onde o interior se funde com o verde do exterior.

É ir!