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Quando a produção vínica preserva a história de um lugar

A dois passos da Vidigueira, em plena Serra do Mendro, está a Herdade Aldeia de Cima, o novo projecto vínico de Luísa Amorim. São 2400 hectares de terra localizada entre o Alto e o Baixo Alentejo, onde 20 serão reservados a quatro vinhas. A finalidade é produzir vinhos sem castas estrangeiras à mistura e com um perfil que remonta à década de 1980.


Joaquim Faia, viticultor, José Falé, coordenador do projecto, Luísa Amorim e Francisco Rêgo, proprietários, António Cavalheiro, enólogo, Gonçalo Ramos, responsável pela área florestal, e Jorge Alves, enólogo

A história (re)começa em Janeiro de 2017, quando Luísa Amorim, filha mais nova do empresário Américo Amorim decide, com a família, recuperar as ruínas da Herdade Aldeia de Cima, propriedade da família, desde 1994, situada em Santana, a 330 metros de altitude, na freguesia do concelho de Portel.


A traça arquitectónica das casas mantém-se intacta

A reconstrução em taipa e tijolo, e a arquitectura comprovam o respeito pela autenticidade da traça alentejana do casario datado do século XVIII, no cimo do planalto. Daqui, o olhar deixa-se conquistar pela natureza intocável e pela imensa extensão de duas espécies de carvalho: sobro e azinho.

Mas é a paixão pelo vinho que demove Luísa Amorim nesta aventura. A sua memória remete para a década de 1980, quando os néctares eram frescos, elegantes e feitos a partir de castas tradicionais. Desafiou, então, o “seu” enólogo Jorge Alves, para liderar a equipa de enologia, seguindo o seu intuito, missão repartida por António Cavalheiro que, por sua vez, faz a ponte com a viticultura, função desempenhada por Joaquim Faia. A coordenação do projecto de Luísa Amorim e do seu marido – e braço direito –, Francisco Rêgo, está nas mãos de José Falé, engenheiro com provas dadas na gestão de herdades.

Desenhar o vinho em nome do território


Herdade Aldeia de Cima Reserva branco, Alyantiju branco, Herdade Aldeia de Cima Reserva tinto e Alyantiju tinto, tudo da colheita de 2017

Desde então, a “correria” intensa embarcou na feitura do vinho sem adega. Mas eram necessárias uvas. A sua origem tinha de apresentar as mesmas características da Herdade Aldeia de Cima – terroir fresco e de altitude. Foram eleitos três locais que cumpriam os requisitos: Estremoz, Castelo de Vide e Vidigueira. 

Volvido um ano estavam engarrafados os primeiros vinhos. O portefólio vínico é composto por duas referências vínicas disponíveis nas versões branco e tinto: Alyantiju, nome ligado à influência árabe na região; e Herdade Aldeia de Cima, utilizado para o reserva e desenhado em nome do território. 

As garrafas foram rotuladas com imagem inspirada na fachada das casas alentejanas, trabalho que contou com a assinatura do designer Eduardo Aires. As cores escolhidas remetem o verde das folhas dos sobreiros e a terracota dos solos argilosos deste Alentejo tão apreciado por Luísa Amorim.

A primeira vinha da região plantada em patamares


A Vinha dos Alfaiates começa no ponto mais alto da Serra do Mendro

Depois das colheitas de 2017 e 2018 as dissiparam-se as dúvidas. A Vidigueira, sub-região localizada na fronteira entre o Alto e o Baixo Alentejo, foi a que, das três, primou pela diferença, seja pelos solos, seja pelo clima, influências que conferiram o carácter pretendido para os vinhos. As atenções centraram-se, por essa razão, no topo da Serra do Mendro, o qual tem vista sobre esta vila do distrito de Beja. 

Pertencente à mais remota unidade geomorfológica da Península Ibérica, património rico em diversidade e biodiversidade, a Serra do Mendro – 1750 hectares – está integrada na Herdade Aldeia de Cima. Após um estudo geológico prévio feito em conjunto com o enólogo, foi plantada, entre Outubro de 2018 e Janeiro de 2019, a Vinha dos Alfaiates, de 14 hectares, no cume desta extensão montanhosa, a 412 metros de altitude, integrado na propriedade.


Esta vinha de altitude constituída por patamares tradicionais de um bardo é a primeira a ser plantada no Alentejo e tem vista sobre a Vidigueira

Atravessado pela Ribeira dos Alfaiates, este relevo acidentado permitiu a implementação de patamares semelhantes aos socalcos do Douro vinhateiro. A composição dos solos ditou a preferência pelas castas tintas. Trincadeira, Aragonês, Alicante Bouschet, Alfrocheiro e Baga foram as eleitas. O Antão Vaz, plantada numa parcela de terra virada a Nascente, é a única variedade de uva branca destes socalcos que, em termos geomorfológicos, se assemelha a um anfiteatro sobre a Vidigueira, composto por 12 parcelas e 18 microterroirs.

Luísa Amorim chama a atenção para a Baga, autóctone da Bairrada, e do Alfrocheiro, do Dão, “duas castas fora do baralho” plantadas propositadamente neste pequeno paraíso. “Entram aqui para dar mais frescura e untuosidade aos vinhos”, esclarece a proprietária ao falar deste projecto que dista cerca de cinco horas de casa. Em 2023 será posta em prática o modo de produção biológico e a vinificação dos primeiros néctares da Vinha dos Alfaiates.

O próximo passo será dado, em 2020, no planalto da Aldeia de Cima, com a plantação da Vinha da Aldeya e a Vinha de Sant’Anna. A diversidade dos solos e as exposições solares são igualmente objecto de estudo, para uma maior precisão na escolha das castas. 

Junto à adega, no planalto do Mendro, está a Vinha da Família. São 0,1 hectares de terra cultivada com 11 castas alentejanas. O objectivo deste terreno plantado de videiras consiste em reproduzir a agricultura antiga, um regresso às origens baseado em experiências, com o propósito de perceber qual a reacção de cada variedade de uva, já que, em redor de cada cepo, está uma peça feita em cortiça granulada, para reter as águas pluviais.

Da vacaria se faz a adega


Os equipamentos instalados na adega comprovam o cruzamento entre o passado e a tecnologia de ponta

Dispostos à entrada do recinto central rodeado pelo edifício em forma de “U”, os dois enormes silos, datados de 1953, não passam despercebidos. Luísa Amorim quer tirar partido de ambos os reservatórios, mas a finalidade ainda é uma incógnita.

O edifício trata-se, por sua vez, do antigo armazém chamado, em tempos, de Ramadas. As paredes grossas caiadas de branco testemunham o respeito pela traça original, bem como a estrutura metálica dividida, no interior, por três alas. Aqui estão instaladas a zona de recepção das uvas, a salas de estágio e a secção de engarrafamento, além do laboratório, do espaço reservado às alfaias agrícolas e dos escritórios.

A produção, realizada sob a supervisão da equipa de enologia, é efectuada com base na mais moderna tecnologia de ponta. Entre ânforas concebidas em Itália e em França, cubas de cimento e balseiros de carvalho, a fermentação e a vinificação da colheita deste ano será, deste modo, sustentada na diversidade de equipamentos à disposição nos dias de hoje.

A Herdade Aldeia de Cima é já o terceiro projecto vínico de Luís Amorim a somar à Quinta Nova de Nossa Senhora do Carmo, propriedade vinhateira localizada no coração do Douro e adquirida pela famólia em 1999, e à Quinta da Taboadela, situada na freguesia de Silvã de Cima, no concelho de Sátão, Região Demarcada do Dão.

Brindemos!

+ Herdade Aldeia de Cima
© Fotografia: João Pedro Rato

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