Mêda: um concelho, duas regiões demarcadas

Beira e Douro desbravam caminhos a diferentes altitudes neste concelho do interior do país integrado em dois territórios vitivinícolas. Foi este o pretexto para celebrar o vinho, com a música e a cultura, no passado sábado, no Castelo de Marialva. A organização esteve nas mãos de seis amigos e do município. 


“Há Beira e Douro”. Eis o nome do evento, que, no dia 23 de Julho, reuniu 28 produtores de vinho da Região Demarcada da Beira Interior e da Região Demarcada do Douro, mais concretamente, da sub-região do Douro Superior, três de mel e dois azeite, o escanção António Lopes, numa acção de iniciação à prova, uma prova vertical da Casa Agrícola Roboredo Madeira (CARM), comentada por João Roboredo, uma prova de azeites, conduzida pelo Professor e Investigador no Instituto Politécnico de Bragança Nuno Rodrigues, e um momento de culinária ao vivo protagonizado por Rui Pedro Cerveira, Professor na Escola Superior de Turismo e Hotelaria, do Instituto Politécnico da Guarda. Onde? No Castelo da Aldeia Histórica de Marialva, no concelho de Mêda. E porquê? “Porque Mêda é um concelho que tem Beira e tem Douro”

A explicação é dada por Fernando Amado, Arquitecto e um dos impulsionadores desta mostra de vinhos do concelho, à semelhança do “Sunset Vínico”, organizado, em 2021, pela Câmara Municipal de Mêda e que teve lugar no Castelo de Marialva. “Tinha de haver uma continuidade, principalmente pelo conceito”, declara Fernando Amado, autor do nome e da imagem do “Há Beira e Douro”. Quanto à escolha do epicentro deste acontecimento, “fazia todo o sentido em associar uma Aldeia Histórica, um monumento, que é o Castelo de Marialva, a uma região com vinhos”, intrinsecamente ligada à agricultura, espinha dorsal da relação socioeconómica de muitas famílias do concelho.


Nos bastidores da organização


Além de Fernando Amado, o primeiro encontro, que decorreu no restaurante Mercado, instalado dentro do edifício homónimo, localizado dentro da cidade de Mêda, contou com Renato Dias, Engenheiro Civil, Carla Tavares Dias, Engenheira de Saúde Ambiental, José Cavalheiro, Engenheiro Agrónomo, e Filipa Silva Amado, Engenheira Agrónoma. “O Luís [Machado] não estava”, acrescenta. “Já não vínhamos cá há 17 anos e este convívio perdeu-se no tempo. Víamo-nos nas festas de Natal, da Páscoa… Agora, regressámos todos a Mêda e pensámos fazer alguma coisa em conjunto”, declara Renato Dias.

As reuniões sucederam-se, sempre em formato informal. “Combinámos ir à Vinho & Eventos, uma garrafeira daqui, de Mêda, que aconselho a conhecer, sentámo-nos lá todos e, já com o Luís [Machado] presente, decidimos apresentar uma proposta à Câmara [Municipal de Mêda]”, esclarece Fernando Amado. Nesta multiplicidade de encontros, “a Filipa é quem teve o papel principal”, avança o Engenheiro Civil. E não só! José Cavalheiro também. Além de partilharem a mesma formação académica, contactam facilmente os produtores de vinhos e sabem de cor a logística necessária, para realizar um evento direccionado a este público. 


“Como sou desta área, era mais fácil para mim.  Acabava por conhecer os produtores, saber mais sobre a parte logística. Como, durante tantos anos, fiz a parte comercial e muitas feiras, sabia o que se quer quando se quer um evento agradável e em condições. Sabia o que era preciso: ter o vinho frio, frapés, saca-rolhas, ter um caixote para as rolhas e caixas pôr as garrafas…”, reforça Filipa Silva Amado, que, juntamente com os restantes elementos deste sexteto, querem “pôr Mêda outra vez no mapa”

“Nós tratámos da parte logística”, afirma Renato Dias, apoio esse enaltecido pela mulher, Carla Dias, sem deixar de enaltecer a beleza do local escolhido, para a realização do “Há Beira e Douro”. “Já vamos, há alguns anos, a eventos como este, tanto no Porto, como em Lisboa, mas não há nada que diferencie os produtores em termos de espaço como Marialva, com o seu castelo, que tem uma envolvente e um ambiente fantásticos. Por isso, achámos que seria ideal para este evento”, conclui o Renato Dias. 


“Como estivemos todos presentes no evento do ano passado, fomos tentando perceber o que estava menos bem, para tentar melhorar e mudar este ano”, diz Luís Machado, que com Fernando Amado, implementaram, em projecto, a sala de provas, a distribuição dos stands dos produtores e o local onde o DJ actuou durante o evento.

Neste contexto, a complicada gestão inerente aos desníveis e à falta de sombra são nomeados pelo Arquitecto: “nem sempre é fácil, mas fazemos tudo o que é possível, para que assim seja.”  No entanto, o trabalho da organização em consonância com a Câmara Municipal de Mêda, que alinhou na montagem das infraestruturas no local, resultou numa tarde e noite muito bem passadas no “Há Beira e Douro”, no Castelo de Marialva, e num exemplo a seguir.


Granito vs. xisto


Dos 28 produtores de vinho presentes no “Há Beira e Douro”, 12 pertencem à região da Beira Interior – Lúcia e Américo Ferraz Vinhos (Mêda), Casas do Côro (Marialva), Quinta dos Termos (Belmonte), Adega Cooperativa de Pinhel (Pinhel), Casas Altas (Souro Pires), Biaia (Figueira de Castelo Rodrigo), Quinta das Senhoras (Marialva), Aforista (Pinhel), CARM (Almendra) – e 16 são da sub-região do Douro Superior – Quinta Vale d’Aldeia (Mêda), Lucinda Todo Bom (Mêda), ViniLourenço (Mêda), Muxagat (Mêda), Fonte Cerdeira Casa Agrícola Rebelo Afonso (Mêda), Quinta da Sequeira (Vila Nova de Foz Côa), Portugal Boutique Winery, Quinta das Mós (Vila Nova de Foz Côa), Adega cooperativa da Mêda (Mêda), Ramos Pinto, Symington, Quinta do Reguengo (Vila Nova de Foz Côa), Família Silva Branco, Brites Aguiar, Casa da Piáska, Salgados (Vila Nova de Foz Côa), Ramos Pinto (Vila Nova de Foz Côa), Vinhos Móos (Vila Nova de Foz Côa).


Beira Interior e Douro “são duas regiões com altitude, que conseguem mostrar uma diferenciação vincada nos vinhos. São duas regiões tão distintas e tão próximas! A nível de proximidade são contíguas”, esclarece Filipa Silva Amado, Engenheira Agrónoma de formação e uma das impulsionadoras do “Há Beira e Douro”, relativamente ao facto de Mêda ser o concelho do país integrado às duas regiões demarcadas – a Beira Interior e o Douro, criadas, respectivamente, em 1999 e 1756. Aqui, o foco é a sub-região do Douro Superior, a mais peculiar das três sub-regiões durienses e que, após remoção do bloco de granito do Chachão da Valeira, na década de 1790, ficou conhecida como “Novo Douro”, já que aquela operação permitiu a navegação rio acima e, consequentemente, o desenvolvimento agrícola, em particular, da viticultura.


A passagem do solo de granito para o de xisto é determinante nesta separação, assim como a transição subtil da envolvente, que caracteriza a Beira Interior, onde os vinhos são claramente “de altitude” – dentro do contexto paisagista desta região demarcada, podendo ascender aos 850 metros –, para a baixa altitude predominante na sub-região do Douro Superior. É de somar o clima marcado por amplitudes térmicas muito grandes, com dias quentes e secos, e as noites muitos frias, particularmente durante o Verão, cenário que, mesmo assim, dá azo a vinhos diferentes – mais frescos, na Beira Interior, e com mais estrutura e maior complexidade, no Douro Superior. 

Para comprovar essas diferenças, o escanção António Lopes apresentou seis referências vínicas de ambas as regiões vitivinícolas – Casas do Côro Vinhas Velhas branco 2017 (Casas do Côro, Beira Interior), Casas Altas Chardonnay 2004 (Casas Altas, Beira Interior), Quinta da Biaia tinto 2019 (Quinta da Biaia, Beira Interior), Muxagat branco 2018 (Muxagat, Douro Superior), Quinta dos Romanos Grande Reserva tinto 2017 (Lucinda Todo Bom, Douro Superior) e o histórico Duas Quintas Reserva tinto 1992 (Ramos Pinto, Douro Superior). Uma verdadeira aula de iniciação à prova, com as respectivas notas analisadas ao pormenor, seja no aspecto, seja no nariz, ou no paladar.


João Roboredo, representante da CARM, negócio familiar fundado, na década de 1990, por Celso Madeira, apresentou a prova vertical de CARM Reserva branco das colheitas de 2017 a 2020. Todas foram feitas a partir das castas Códega de Larinho, Rabigato e Viosinho e reflectiram não só as características de cada variedade de uva e do solo, mas também as influências climáticas do respectivo ano, aspecto igualmente preponderante numa prova de vinhos.


E nada melhor do que fazer uma pausa, com um momentode showcooking, com Rui Pedro Cerveira, Professor na Escola Superior de Turismo e Hotelaria do Instituto Politécnico da Guarda e chef na Casa da Escola, restaurante localizado numa aldeia do concelho do Sabugal, a mostrar quão versátil pode ser um produto. Trata-se da raça ovina Churra Mondegueira, um exemplo do património gastronómico da Beira Interior a preservar e a consumir mais vezes, até porque, como bem lembrou, a carne de borrego é a primeira a ser introduzida na alimentação do bebé.


Há azeite e há mel


“Depois decidimos dar a oportunidade a produtores de azeite e de mel da Mêda a estarem também presentes”, esclarece Filipa Silva Amado, referido-se ao cartaz desta primeira edição do “Há Beira e Douro”. A importância do olival, sobretudo de sequeiro, ainda é uma realidade em Mêda, seja do lado da Beira Interior, seja da sub-região do Douro Superior. Além dos produtores de vinho, existe particular preponderância relativamente ao azeite, que esteve representado, no “Há Beira e Douro”, pelo Lagar dos Pinos, de Louriga, no concelho de Mêda, e pelo Vale da Cerdeira, localizado em pleno Douro Superior.

Já a explicação alusiva ao azeite coube a Nuno Rodrigues, Professor e Investigador no Instituto Politécnico de Bragança, onde é conhecido por Azeitólogo. Ou seja, é quem procede às análises sensoriais e químicas deste produto, que se divide em três categorias: azeite Extra Virgem, azeite Virgem e azeite. A sua obtenção é efectuada através do recurso a agentes físicos e mecânicos.

A prova, que deve ser realizada com pequenos copos de vidro azul ou vermelho escuros – “para mascarar a cor do azeite”, uma vez que não é relevante para a análise –, inicia-se com o aquecimento do azeite, colocando o recipiente entre as palmas das mãos, para fazê-lo rodar. “Numa prova oficial, tem de se aquecer o azeite até aos 28° C”, afirma Nuno Rodrigues. Depois há que cheirar, para detectar os aromas. Em seguida, deve-se beber, sorver entre dentes e engolir, de modo, a uma vez mais, descobrir as suas características. 


Em conformidade com tão notável produto, está o mel, com representado por João Ambrósio, Mel da Mêda e Mel do Rui. A sua crescente visibilidade deve-se ao património e à diversidade paisagísticos de Mêda, bem como da Beira Interior e da sub-região do Douro Superior.

Carvalho, sobreiro, castanheiro, cornalheira, entre outras espécies arbóreas. Este cenário campestre é de contemplar da Torre do Relógio, erguida, no século XIX, no cimo do enorme afloramento granítico existente no coração da cidade de Mêda, que, a 1 de Julho de 2023, brindará locais e turistas, com a segunda edição do “Há Beira e Douro”, no âmbito do qual se irá realizar o 16.º Concurso dos Vinhos da Beira Interior.

Brindemos!


+ Há Beira e Douro
© Fotografia: João Pedro Rato

Legenda da foto de entrada: Fernando Amado, Luís Machado, Filipa Silva Amado, Carla Dias e Renato Dias, no Castelo de Marialva, freguesia do concelho de Mêda

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