Alenquer é um serpentear de vinhas a perder de vista

A relação com a cultura do vinho é secular. Prova disso, são as quintas históricas, preservadas pela passagem do tempo, testemunho da notória e notável mudança nos vinhos produzidos neste concelho integrado na região vitivinícola de Lisboa.


À semelhança do ecletismo inerente a este território, Alenquer, vila com história a conhecer, entre conventos, igrejas, casas senhoriais e adegas, denota, por si só, uma dicotomia a explorar. Exemplo disso são as castas brancas a ganharam escala nas vinhas localizadas a Oeste. Aqui, a influência marítima é mais marcante e determinante na frescura e na acidez do vinho.

No entanto, são as variedades de uva tinta que predominam no vinhedo deste concelho, com a Serra de Montejunto, de 666 metros de altitude, a formar uma barreira natural, que obriga a acalentar os ventos provenientes do Atlântico, apesar de, no copo, mostrarem uma elegância ímpar.


Singularidades de uma quinta senhorial


A Quinta de Dom Carlos, de D. Frederico da Cunha, Conde da Caparica e Marquês de Valada, e representante da 13.ª geração dos Cunhas, é um desses exemplos. Aqui, o vinho tinto supera, em larga escala, a produção vínica desta propriedade situada em Meca, no concelho de Alenquer. Pertencente à família da Cunha desde 1570, ano em que foi instituído o morgado homónimo, tem vinha desde o século XVI. Os seus atuais 44 hectares estão inseridos nos 70 hectares de área total desta quinta, cuja vinha velha foi plantada na década de 1990, quando foi restruturada. A apota baseou-se nas castas estrangeiras – Cabernet Sauvignon, Syrah, Petit Verdot e Merlot, nas tintas; Viognier, nas brancas –, sem descurar das nacionais, lista ocupada pela Arinto, nas brancas, e a Touriga Nacional, nas tintas.

Outra reviravolta aconteceu em 2004, com a reabilitação da casa senhorial, a mando do seu actual proprietário. O edifício – datado de 1650 e projectado por D. Manuel da Cunha, clérigo e arquitecto, no qual viveu, no início do século XIX, o Cardeal Patriarca de Lisboa D. Carlos da Cunha – manteve a sua traça original. A Sala Rothschild é “a cereja no topo do bolo” resultante deste trabalho de recuperação. O nome está associado ao pavimento constituído por azulejos azuis e verdes, da Aleluia Cerâmicas, em Aveiro, separados por fileiras em pedra mármore, resultante de uma visita ao Château Lafite Rothschild, em Bordéus, França, por parte de D. Frederico da Cunha. 

Sem esquecer a Sala da Tapeçaria, onde está uma das cinco tapeçarias mandadas fazer no século XVI, com o brasão da família dos Cunhas. Das restantes quatro peças, uma está no Paço Ducal de Vila Viçosa. Segundo Assunção da Cunha, filha do proprietário, “três foram saqueadas pelas tropas de Napoleão”, aquando das invasões francesas, ocorridas no início do século XIX. Estas foram recuperadas, sendo que uma está em Nova Iorque, outra pode ser contemplada no Museu de Arte Antiga e outra pertence à Fundação Ricardo Espírito Santo e Silva.


Apesar da adega – construída entre as décadas de 1930 e 1940 – estar desactivada, as uvas vindimadas nesta quinta continuaram a ser vinificadas, processo que ocorre, desde 2021, na Adega Mãe, produtor de Torres Vedras, e feito “de acordo com o perfil clássico de Bordéus”, reforça o escanção Pedro Moreira. Marquês de Valada e Quinta de D. Carlos são as referências do portefólio vínico desta casa. Cabernet Sauvignon é a casta bandeira, dando corpo a monovarietais e lotes de vinhos deste produtor de Alenquer.


De volta à casa, esta é constituída por dez suites e tem capacidade para 23 pessoas. A estadia passa apenas pelo seu arrendamento total, que inclui pequeno-almoço. As refeições são confeccionadas apenas mediante pedido prévio. De futuro, estão previstas as provas vínicas, com vinhos da família da Cunha, degustação essa, que poderá vir a ser complementada por um almoço.


“Lisboa é o berço da Casa Santos Lima”


Quem o diz é Luís Almada, que, há nove anos, desempenha a função de administrador deste produtor de Alenquer. Criada no final do século XIX, por Joaquim Santos Lima, tem na Quinta da Boavista, situada na Aldeia Galega da Merceana, a sede desta empresa familiar, que já vai na quinta geração. 

A restruturação das vinhas, a par com a melhoria do encepamento “feito com castas. adaptadas ao terroir e que tivessem visibilidade além fronteiras”, nas palavras de Luís Almada, a reabilitação e modernização das áreas afectas à produção vínica e o engarrafamento dos primeiros vinhos – em 1996 foram comercializados os primeiros vinhos engarrafados, como Quinta da Espiga, Quinta das Setencostas, Palha-Canas – marcaram a entrada de José Santos Lima Oliveira da Silva, bisneto do fundador, na década de 1990. Empreendedor por natureza, tem vindo a apostar em tecnologia de ponta nas adegas, bem como na melhoria das condições dos serviços, na Quinta da Boavista, com cerca de 300 hectares de vinha, onde estão plantadas 50 castas nacionais e estrangeiras.


Esta diversidade permite que a Casa Santos Lima tenha “uma das maiores colecções de monovarietais”, o que “permite mostrar as diferenças das castas no copo”, acrescenta o nosso anfitrião. Essas diferenças são igualmente visíveis na vinha ampelográfica, plantada junto ao edifício principal. Neste estão instaladas a sala de barricas, mostruário de barricas de carvalho francês, húngaro, americano e português; a adega, onde as castas entram uma a uma, “para termos a flexibilidade de fazer o lote que queremos”; e a loja, com espaço reservado a provas vínicas, de onde se avistam as vinhas, e que também é museu, constituído por objectos antigos, que remontam ao passado desta empresa.


O programa de enoturismo consiste em começar pela loja, para conhecer a história da Casa Santos Lima, seguindo-se um passeio pela vinha ampelográfica, chamada de Jardim das Castas, pela adega e pela sala de barricas. Escolha uma das quatro provas, sendo que a primeira é dedicada aos vinhos produzidos na região vitivinícola de Lisboa, e faça a prova de olhos postos no vinhedo. Ou aproveite o dia, para explorar a vinha, através de um passeio de buggy, para melhor conhecer as castas, de charrete, na companhia de dois guias especializados, ou de bicicleta, com amigos e/ou em família.

Além de Lisboa, a Casa Santos Lima está presente em outras seis regiões vitivinícolas – Açores, Alentejo, Algarve, Dão, Douro e Vinhos Verdes – e exporta cerca da sua produção para 55 países dos cinco continentes.


Educar o vinho, com engenho e arte


Eis a velha máxima de José Bento dos Santos, engenheiro químico de formação, actual presidente da Academia Portuguesa de Gastronomia e presidente da Academia Portuguesa de Gastronomia proprietário da Quinta do Monte d’Oiro, situada em Ventosa, freguesia do concelho de Alenquer, desde 1986. Do mar, esta propriedade vitivinícola dista “20 quilómetros em linha recta” e a “cinco quilómetros da Serra de Montejunto”, afirma o filho, Francisco Bento do Santos, que, desde 2012, tem nas mãos a responsabilidade em relação à vinha e ao vinho.

As parecenças com Côte du Rhöne, em França, “é uma feliz coincidência”, já que é uma das regiões mais apreciadas pelo pai e foi determinante na escolha das castas Syrah e Viognier há mais de três décadas, as quais deram início a este negócio familiar, na altura, com dois hectares de vinha. Aliás, foi precisamente o primeiro vinho da Quinta do Monte d’Oiro, da colheita de 1997, feito a partir da variedade de uva Syrah, que esta propriedade conquista reconhecimento fora de portas. 


Hoje, com a vinha a totalizar 30 hectares, esta casta tinta continua a ser a mais querida, ou não houvesse, só nesta propriedade, dez parcelas distintas de Syrah. Basta perguntar a Francisco Bento dos Santos onde está plantada, que logo indica os respectivos talhões, alguns dos quais plantados de formas diferentes. Estas variações dependem de vários factores, como a exposição solar, o tipo de solo – se tem mais ou menos calcário –, o pH, entre outros. Comum a toda a vinha, com certificação em modo biológico desde 2015, é o vento. “O vento é fundamental para controlo das doenças”, porque seca a humidade acumulada ao longo da noite e que permanece durante a manhã. Por outro lado, determina a boa maturação e a sanidade das uvas, e potencia a conservação da acidez.


Para já, os brancos e os rosés têm certificação biológico, estreia que remonta a 2017. No ano seguinte, foi a vez do rebranding dos rótulos, com ‘Quinta do Monte d’Oiro’. 

A adega permanece um laboratório de experiências, dado o rigor associado à vinificação, por parte de Graça Gonçalves, enóloga residente – que conta com a colaboração pontual do enólogo francês Grégory Viennois – do, que incide na separação das casta, à semelhança do que acontece na vinha, logística que obriga a uma colecção de cubas de inox de tamanhos vários. As barricas de carvalho têm a sua própria sala, onde prevalece a escuridão, onde o vinho estagia, ou como diz Francisco Bento dos Santos, seja submetido a uma elevage (‘educação’, em francês), arte indissociável à capacidade de criar.


Os vinhos estão à prova em sala própria, na companhia de produtos “o mais locais possível” e regionais, desde queijo e enchidos, passando por compotas e marmelada. Também é possível solicitar refeição. Tudo se realiza mediante reserva prévia.


Dormir em plena Natureza e comer o que é da terra


Entre quintas de Alenquer, o predomínio das vinhas é uma constante, paisagem que convida a ver de perto a Serra de Montejunto. No sopé desta que é paisagem protegida desde 1999, está instalado o Sóis Montejunto Eco Lodge, alojamento constituído por oito domos geodésicos. Quatro estão destinados a famílias, e outro tanto é desfrutado por casais. 

A ruralidade é marcante e simultaneamente apaziguadora, além de que é palco de uma mão cheia de actividades criadas para os hóspedes. Alugar de bicicletas é uma opção, seja para quem gosta de passear tranquilamente pela Natureza, seja para os mais radicais, que podem experimentar os trilhos da Serra de Montejunto. Corrida e escalada complementam o programa. 


Faça uma paragem no Páteo Velho. A tradição e as memórias regem a cozinha deste restaurante situado na freguesia da Atalaia. Para começar, os ovos rotos são imperativos, assim como os estaladiços peixinhos da horta. Wellington de perdiz com puré de castanhas e cogumelos salteados é um clássico, assim como a codorniz ligeiramente fumada e bem acompanha por um puré de cherovia e legumes.

Os vinhos são maioritariamente de produtores de Alenquer, prova de que os há para todos os gostos e ao ecletismo da região vitivinícola de Lisboa está igualmente presente neste concelho.


De volta ao Sóis Montejunto Eco Lodge, o pastoreio e a produção de queijo feito a partir de leite de ovelha são outras sugestões a considerar. Consulte a recepção do Sóis Montejunto Eco Lodge, para descobrir onde estão os moinhos de vento, que continuam fiéis à prática da moagem dos cereais, e saboreie o pão. Roteiros não faltam! Nem mesmo os que levam os hóspedes a conhecer os produtores de vinho do concelho de Alenquer e da região dos Vinhos de Lisboa.

É ir!


+ Comissão Vitivinícola da Região de Lisboa/Vinhos de Lisboa
+ Câmara Municipal de Alenquer
+ Festival Alma do Vinho

© Fotografia: João Pedro Rato

A Mutante realizou este roteiro a convite dos Vinhos de Lisboa e da Câmara Municipal de Alenquer, no âmbito do Festival Alma do Vinho de Alenquer

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