Há clássicos e novas colheitas para explorar no Douro. E mais do que vinhos, falamos de espaços a descobrir
– Há quanto tempo não vamos ao Alto Douro Vinhateiro?
– Há demasiado para não nos lembrarmos.
– O melhor é marcar já. Estamos no princípio do outono e a azáfama da vindima já deve ter terminado. Os vinhos preparam-se para enfrentar o primeiro inverno e os tons castanhos-alaranjados já devem tomar conta da paleta de cores da paisagem.
– Que tal começarmos por Gaia, porto de chegada e de partida, e onde muitos Portos repousam calmamente no interior das caves, enquanto à beira rio o alvoroço reina nas suas margens.
E assim, foi.
A meio da tarde do primeiro dia da semana de meados do décimo mês do ano, diga-se que bastante quente para a época nestas paragens, chegámos ao The Yeatman.

O hotel, plantado em socalcos, é uma varanda com vistas ímpares para o Porto e para o rio Douro. À direita temos o Mosteiro de Santo Agostinho da Serra do Pilar e a centenária Ponte Luís I, construída em estrutura metálica, por onde circula o metro no tabuleiro superior e os automóveis no tabuleiro inferior. Em ambos é possível a circulação pedonal e vibrar com o pôr-do-sol.
Em frente, está a Torre dos Clérigos, a mais alta das muitas igrejas que se vêem no horizonte. Na linha junto ao rio, o casario é marcado pela geometria das janelas das fachadas.
A agitação da zona ribeirinha do Porto acompanha o corropio dos barcos Douro acima, Douro abaixo. No patamar de baixo, do local onde nos encontramos, na margem de Gaia, os velhos cascos de madeira guardam silenciosamente as preciosidades de Vinho do Porto. Nas ruas contrasta o alvoroço. Subindo, encontramos o WOW (World of Wine), criado a partir da renovação de antigos armazéns de Vinho do Porto, que deu origem a um quarteirão cultural constituído por sete museus temáticos, doze restaurantes e bares, lojas, uma escola de vinho e uma galeria de exposições temporárias. Um espaço para toda a família, de aprendizagem e divertimento.
Paredes meias está o The Yeatman, hotel de cinco estrelas aberto há 15 anos, resultado de um arrojado e pioneiro projeto no seu tempo.
O The Yeatman é uma unidade onde se respira vinho. Como embaixador dos vinhos portugueses, cada quarto tem o nome de um produtor associado, um Wine Spa e uma garrafeira, com cerca de 2000 mil referências, que impressiona qualquer amante de vinhos.
Pela garrafeira do The Yeatman rodam cerca de 90.000 mil garrafas por ano. Mas naquele lugar, ainda há espaço para provas sérias e outras mais descontraídas, como despedidas de solteiro, masterclasses ou “consultas” dos sommeliers, para perceberem o perfil do cliente que vai jantar num dos restaurantes do hotel.
A cultura também tem o seu lugar no The Yeatman. Pelas paredes dos corredores e das escadas há muito para descobrir, com destaque para a exposição Marcos da História de Portugal e do Mundo. Outra exposição imperdível é a que explica o ciclo de crescimento do sobreiro e o ciclo de produção da rolha. No The Yeatman existe ainda uma escola para dar formação, que vai do vinho aos chás, aos sommeliers.
O The Yeatman é membro da prestigiada associação Relais & Châteaux e conta com dois restaurantes, o Orangerie e o The Yeatman Gastronomic, ambos com menus desenhados pelo chef Ricardo Costa.
Orangerie
O Orangerie, aberto todos os dias ao almoço e ao jantar, é um restaurante pensado para a família, onde a cozinha de conforto e partilha são os ingredientes principais.
The Yeatman Gastronomic
O The Yeatman Gastronomic, é um restaurante com duas Estrelas Michelin. Liderado pelo chef Ricardo Costa, desde 2010, promete uma viagem sensorial aliando os sabores portugueses aos vinhos criteriosamente selecionados pela diretora de vinhos, Elisabete Fernandes. O menu anual de degustação é fixo, mas há a possibilidade de adicionar um de três suplementos para complementar a experiência. Como é sazonal, há a possibilidade de alteração de alguns momentos ao longo do ano. Para acompanhar, existem dois pairings vínicos e um com bebidas não alcoólicas. Na sala, comanda o Maître D’ Pedro Marques.
Está aberto de terça a sábado com três horários.
Acordar no The Yeatman é, por si só, uma experiência. Apetece ficar ali o resto do dia a contemplar a vista sobre o Porto e o rio Douro. Mas, com a mesma vista há um delicioso pequeno-almoço, um daqueles que recomendamos tomar pelo menos uma vez na vida (está aberto a não hóspedes) e rumar até ao Alto Douro Vinhateiro. A viagem pode ser feita de barco ou de comboio, mas, desta vez, optámos pelo automóvel.
Alto Douro Vinhateiro

O sossego e o charme da Quinta do Panascal e da Quinta Casal de Celeirós
No Alto Douro Vinhateiro podemos serenar em recantos muito tranquilos, onde impera a calma e a exclusividade. Chegar à Quinta do Panascal é sinónimo de reduzir o ritmo. A propriedade está localizada junto à foz do pequeno e sossegado rio Távora, via fluvial alheia ao alvoroço causado pelos barcos que percorrem o Douro.
Quinta do Panascal
Na Quinta do Panascal encontramos um legado cultural de vidas inteiras dedicadas à vinha e ao vinho da região vitivinícola demarcada mais antiga do mundo.
A Quinta do Panascal abarca cerca de 70 hectares de área total, dos quais são 50 hectares são de vinha. É a principal propriedade da Fonseca, uma das marcas mais reputadas de Vinho do Porto, nomeadamente de Vintage clássicos. No entanto, nesta casa a inovação também faz parte do seu DNA e o Fonseca Bin 27, lançado na Grã-Bretanha em 1972, é hoje, o primeiro nome que vem à mente dos grandes conhecedores da Fonseca. O Bin 27 é um vinho rico e frutado, elaborado a partir de um lote de vinhos reserva e, segundo a marca, “é vendido em todo o mundo, contando com particular popularidade no mercado norte-americano”.
Na Quinta do Panascal é possível observar as vinhas centenárias que acompanham o relevo bastante escarpado. Na adega, encontramos os lagares de construção típica duriense em granito e os balseiros, por onde passam os vinhos antes de viajarem até às caves, em Gaia.
Histórias que podemos partilhar à mesa. Aqui não existe um restaurante, mas uma cozinha de cariz regional, onde podemos, mediante reserva prévia, comer o tradicional cabrito assado do Douro no forno. Trata-se de um serviço feito à medida e totalmente personalizado, que podemos e devemos harmonizar com grandes vinhos da região.
Depois de um belo repasto, é importante um local para descansar durante a tarde ou pernoitar. Podemos permanecer na Quinta do Panascal ou partir à descoberta do The Manor House Celeirós, que dista cerca de 30 minutos desta propriedade, mais concretamente na aldeia de Celeirós, concelho de Sabrosa.
The Manor House
A Quinta Casal de Celeirós é o local certo para quem procura o contacto com a natureza, em família ou a dois.
A centenária Quinta Casal de Celeirós é um lugar muito tranquilo, onde se respira silêncio. Ao chegarmos, encontramos a Casa das Pipas Restaurant. Com vista para as vinhas, ali podemos saborear uma refeição de inspiração local com a assinatura e criatividade do chef Milton Ferreira, um homem do Douro. Para acompanhar, temos os vinhos do Portal, produzidos nesta propriedade. O restaurante está aberto todos os dias, ao almoço e jantar, para hóspedes e não hóspedes.
Para aquietar temos, à distância de uma curta caminhada pelo meio do vinhedo, o The Manor House, um antigo edifício de apoio à atividade agrícola, que hoje acomoda 12 quartos e espaços comuns para os hóspedes. No exterior, a piscina, ladeada pela vinha, refresca nos dias de calor ou simplesmente convida a relaxar.
A poucos metros encontra-se a Casa do Lagar, com seis quartos e uma suite com kitchenette e sala de estar. A decoração é alusiva à antiga atividade ligada ao lagar. Ao lado desta, há um portão que dá acesso direto à aldeia de Celeirós, ponto de partida para caminhadas e passeios de bicicleta.
Pinhão, o coração palpitante do Alto Douro Vinhateiro
A vila do Pinhão, freguesia do concelho de Alijó, tem estação de comboio e cais fluvial. De comboio, de barco ou de autocarro, ou de viatura própria, é aqui e daqui que chegam e partem muitos dos visitantes das propriedades vinhateiras do Douro. É para uma das mais conhecidas que nos dirigimos.
Quinta da Roêda
A Quinta da Roêda, localizada no coração do Douro Vinhateiro, é visita obrigatória.
A Quinta da Roêda, localizada a dois passos do centro do Pinhão, é a casa de excelência da Croft. Com um centro de visitas dimensionado para receber pequenos e grandes grupos, é ponto de passagem para jovens e menos jovens que querem conhecer mais sobre a história do Vinho do Porto. Ali estão disponíveis programas de visita, provas de vinho e azeite, almoço ou piquenique.
As vinhas estendem-se encosta acima e produzem as uvas que estão base dos conceituados vinhos do Porto da Croft, Vintage, Reserva envelhecidos em madeira e tawnies. Além dos clássicos, a casa tem um espírito inovador e criou, em 2008, o Croft Pink, o primeiro Vinho do Porto rosé. É um vinho simples para refrescar nos dias quentes de verão ou servir como aperitivo, ou base de cocktails.
Para conhecer melhor esta quinta, as vinhas e os vinhos, com os testemunhos de António Magalhães, outrora diretor de vitivinicultura, e David Guimaraens, diretor de enologia, recomendamos a leitura deste artigo publicado aqui na Mutante, em 2018.
Da Quinta da Roêda, regressamos ao Pinhão, onde iremos tomar um cocktail no Library Bar, jantar no Rabelo, e repousar no Vintage House Hotel, não sem antes darmos um passeio de barco no rio Douro ao final da tarde.
Vintage House
O testemunho de que o tempo é um grande aliado.
O edificado do que é hoje o Vintage House foi armazém, adega e, de casa senhorial da Taylor’s, foi transformado em hotel. Podemos dizer que passou por evolução como o Vinho do Porto Vintage.
Nos espaços interiores, de estilo clássico e familiar, reina a luminosidade espelhada no Douro, que corre mesmo em frente. No exterior, os espaçosos jardins e a piscina convidam ao dolce farniente.
O restaurante Rabelo está aberto todos os dias para almoços e jantares, na sala interior ou no extenso terraço exterior. A cozinha é de inspiração regional, também tem a mão do chef Milton Ferreira e merece ser acompanha com os melhores vinhos do Douro.
Um detalhe curioso, o Vintage House Hotel tem acesso direto à estação de comboios do Pinhão e isso faz lembrar-nos que é hora da partida, com o desejo de voltar em breve.




































