A Cervejaria Liberdade, em Lisboa, volta a abrir as portas com o mesmo nome, mas num ambiente mais intimista. Na comida reinam os clássicos, a par com algumas novidades, sem reinterpretações criativas e com a tónica no sabor.
Na década de 1960, dá-se início à história da Cervejaria Liberdade, o icónico restaurante do atual Hotel Tivoli Avenida Liberdade, localizado a meio da avenida da Liberdade, em Lisboa. Mas o início deste cinco estrelas remonta a 1933, ano da inauguração, já depois do arquiteto Joaquim Norte Júnior adaptar o edifício oitocentista aqui erguido, o Palacete Rosa Damasceno, em unidade hoteleira. Mais tarde, nos anos 50 do século XX, o arquiteto Porfírio Pardal Monteiro projetou a ampliação do edifício, para que ficasse ligado ao Palacete Liberdade 185.
De volta ao início da história da Cervejaria Liberdade, esta começa com o nome Zodíaco. A abertura aconteceu em 1961, ou seja, aquando da nova fase do Hotel Tivoli, a qual também tem a assinatura de Porfírio Pardal Monteiro. O nome do espaço de restauração de então é inspirado na tapeçaria “Os signos do zodíaco”, da Manufactura de Tapeçarias de Portalegre, da autoria do pintor Jean Lurçat. Esta é apenas uma das vidas do restaurante que passa a Beatriz Costa e, em 2008, a Brasserie Flo, ambos em homenagem à atriz Beatriz Costa. Em 2017, abre as portas como Cervejaria Liberdade. Com a passagem do tempo, e apesar de manter o nome, o mesmo espaço é submetido a uma remodelação, reabrindo ao público e aos hóspedes do Hotel Tivoli Avenida Liberdade em 2025.
Apesar das mudanças substanciais da Cervejaria Liberdade, mantém-se o elo com o passado, através da peça “Os signos do Zoodiáco”. Em tributo ao artista Jean Lurçat, a curadora de arte Felipa Almeida intervém com objetos novos e antigos alusivos à tapeçaria. Já o projeto de interiores é assinado pelo atelier madrileno Vibbes Design, que devolveu amplitude à sala, criando pequenos recantos intimistas dispostos ao longo deste espaço, moldado pela estética moderna. No entanto, permanecem os candeeiros de outros tempos e as janelas de dimensões generosas. Apesar do pé-direito alto, a atmosfera tornou-se mais acolhedora.
Clássicos de tacho



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Ostras do Sado e da ria Formosa
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Camarão, alho, malagueta e coentros
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Tempura de bochechas de bacalhau
A montra de peixes e mariscos frescos disposta à entrada confere a celebração do mar, contribuindo para o novo ambiente da Cervejaria Liberdade. Cada produto está disponível ao quilo, como as ostras do Sado e da ria Formosa. Quanto ao peixe, a escolha pode recair em uma das quatro opções: grelhado, cozido, assado ou à meunière.

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Arroz de marisco
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Perna de pato confitada com arroz de enchidos

À mesa, as entradas convidam a um roteiro de partilha, com o recheio de sapateira, o camarão com alho e malagueta, o rissol de camarão ou as amêijoas à Bulhão Pato. Junte-se os croquetes de novilho, o presunto de porco preto e os peixinhos da horta e está feito o início da refeição. Nos pratos de conforto, entram o bacalhau à lagareiro, o arroz de marisco e o polvo assado são algumas das sugestões nos peixes; nas carnes, há a bochecha de porco e, claro, o bife tártaro à Tivoli ou o bife de lombo de novilho à cervejaria. Tudo preparado pela equipa do chef Miguel Silva. As novidades passam pelo lombo de bacalhau com grão-de-bico e couve-coração, o arroz de peixe, com salicórnia e limão; e a perna de pato confitada e servida com arroz de enchidos.
No capítulo dos vinhos, o escanção Jorge Silva está a tomar conta da reestruturação da carta, que inclui sugestões vínicas de pequenos produtores, por forma a “mostrar aos nossos clientes mais fiéis outras paragens”, mas sem destronar os clássicos. Ao mesmo tempo, são dados passos no sentido de modernizar o serviço neste contexto. Com esta mudança imperou a criação de um espaço dedicado ao vinho e a bebidas espirituosas de topo, o 1933 Wine & Spirits Collection. Está instalado no topo do edifício e privilegia provas comentadas, jantares privados, masterclasses de obras-primas vínicas d’além fronteiras, entre outras experiências.
Um final feliz



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Tarte de maçã caseira
7
Farófias tradiconais
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Bolo de bolacha
Novamente na Cervejaria Liberdade, o final da refeição é outro momento épico desta casa. São 10 sobremesas, entre as quais se destacam os três clássicos: crêpes Suzette, com direito a cozinha de sala, tarte de maçã caseira, feitas de acordo com a receita original, desde o folhado até à espessura das fatias do fruto, e sopa de morangos. “Mas tinha de haver mousse de chocolate e farófias”, afirma Mónica Azevedo, a chef de pastelaria da Cervejaria Liberdade desde janeiro de 2022, embora faça parte da equipa do hotel há oito anos. A mousse de chocolate é feita com cacau 70% e as farófias são as tradicionais.
No topo da lista das preferências está o bolo de bolacha. “As bolachas são feitas cá”, garante a chef pasteleira que, com a equipa, criaram as próprias bolachas, com o mesmo padrão das originais, mas com a palavra cervejaria no centro. “A receita do creme de manteiga é de lá de casa, da avó e da mãe”, revela. O doce da casa é apresentado às camadas, com pedaços grandes de crumble, com flor de sal, e panna cotta, “para dar mais consistência”, justifica Mónica Azevedo.
Bom apetite!


