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Taboadella, o renascer do Dão com passado e futuro

O respeito pela ancestralidade desta região sente-se no perfil dos vinhos. Destaque-se as castas Encruzado e Touriga Nacional e o apreço pela traça local no casario original a cruzar com o traço orgânico da nova adega erigida em harmonia com a envolvente. Eis a boa nova da família Amorim.


A Wine House da Taboadellla, instalada no antigo celeiro, acolhe a loja e a sala de provas que valem a pena a visita


Repleta de histórias associadas à era dos Romanos e a registos datados de 1255, a Taboadella conquistou a família Amorim logo à primeira. O “encontro” aconteceu no âmbito de uma das habituais visitas de Luísa Amorim e da sua equipa a adegas do mundo e dentro de portas, desta feita, ao Dão, a primeira região classificada de vinhos tranquilos no país, em 1908. 

Resultado: em Junho de 2018 foi adquirida esta propriedade de 48 hectares “encaixada” num vale de um planalto ladeado pelo maciço montanhoso situado em Silvã de Cima, concelho “raiano” pertencente à sub-região de Castendo da Região Demarcada do Dão, no concelho de Satão, distrito de Viseu. 


40 hectares, 25 parcelas, 9 castas

Os 40 hectares ocupam o coração desta propriedade vinhateira da família Amorim, no Dão


No mesmo ano – 2018 – procedeu-se à vindima manual. Puseram de pé uma adega de campanha e adquiriram os equipamentos que, hoje, fazem parte da nova adega. Paralelamente, foram provados vinhos do Dão. Todo o este trabalho tinha uma finalidade: “percebermos que tipo de portefólio [vínico] poderíamos desenhar”, afirma Luísa Amorim, CEO da Quinta Nova de Nossa Senhora do Carmo, no Douro, e da Taboadella. Conclusão? “Tínhamos de também ter a Touriga Nacional e a Encruzado.” 

Ambas constam na vinha plantada entre o Vale do Pereiro e o Vale do Sequeiro, no coração da propriedade delimitada pela mancha florestal predominada por pinheiro bravo, sobreiro, carvalho, cedros, tílias e demais mato de origem mediterrânea. São 40 hectares a ocupar as encostas suaves, com exposição solar orientada para Sul e Poente, e divididos em 25 parcelas em modo de produção integrada. 

Estas parecelas têm, apenas, castas tradicionais portuguesas, como acontece com a propriedade vinhateira da família Amorim, no Douro, e a Herdade Aldeia de Cima, no Alentejo, propriedade de Luísa Amorim. A idade média da vinha é de 30 anos e o solo é substancialmente arenoso. 

Alfrocheiro, Baga, Jaen, Tinta Pinheira, Tinta Roriz completam a lista das variedades de uva tinta a par com a Touriga Nacional; enquanto a Bical, a Cercial e a Encruzado fazem parte da categoria das castas brancas da Taboadella.

De acordo com a filosofia de Luísa Amorim no que à vinha e ao vinho diz respeito, o respeito pela ancestralidade e a sustentabilidade recebem lugar a de destaque. A começar pelo “‘enrelvamento’ total das vinhas, para evitar a erosão e o arrastamento dos solos” através da retenção das águas pluviais, revelou Ana Mota, responsável pelo departamento de viticultura. Some-se os sete microterroirs localizados sob o solo arenoso desta propriedade, os quais permitem uma vasta variedade de nutrientes que, por sua vez, alimentam as plantas da vinha. 


Sustentabilidade, funcionalidade, precisão


A adega, projectada pelo arquitecto Carlos Castanheiro, está integrada na paisagem dominada pela floresta que circunda a Quinta da Taboadella


Madeira e cortiça são os materiais predominantes da adega da Taboadella, obra de arquitectura assinada por Carlos Castanheira, para intensificar a harmonização com a Natureza em redor.


O tapete em metal permite a transferência das massas por gravidade para as cubas colocadas no piso inferior do edifício, comprovando a funcionalidade indispensável nos trabalhos de uma adega


A composição orgânica “mede” 2500 metros quadrados munidos de luz natural e constituídos por áreas distintas. A recepção de uva, munida de equipamento de precisão, é feita no espaço que comunica, através de uma enorme porta de madeira, com o espaço reservado à vinificação. Aqui, a transferência das massas é feita por gravidade, em prol da funcionalidade, por meio do “passadiço” em metal colocado à volta, junto à parede, e do qual se vêm as cubas de cimento, as troncocónicas e as de inox.


A sala das barricas tem capacidade para 500 unidades de 500 litros


Já a sala das barricas – com capacidade máxima para 500 barricas de 500 litros provenientes de seis tanoarias distintas – denota a sua singularidade com o Barrel Top Walk, o passadiço em madeira que permite uma visita diferenciadora. 

A sala de provas, com uma enorme janela que lhe confere luminosidade, é contígua à varanda, toda em madeira e com igual vista para a vinha e a floresta. 


Um “octeto” vínico para degustar


Villae são os rótulos dos vinhos de lote que dispensam o estágio em madeira


Iniciemos este roteiro pelos Villae (€9,90 cada), vinhos de lote que não foram submetidos a estágio em barricas de madeira. Taboadella Villae Branco 2019 e Taboadella Villae Tinto 2018 “são vinhos de território”, como diz Jorge Alves, o responsável pelo departamento de enologia da Taboadella, função que partilha com Rodrigo Costa, enólogo residente. Ambos denotam frescura e as características das castas a partir das quais são feitos. Encruzado, Bical e Cercial são as variedades de uva que compõem o primeiro; Tinta Roriz, Jaen, Alfrocheiro e Tinta Pinheira fazem parte do segundo, um vinho consensual, seja para enófilos, seja para apreciadores.


Este quarteto de monocastas composto por um branco e três tintos cujos rótulos ostentam as respectivas parcelas, declives, solos, exposição e declives


Os monovarietais reserva (€15,90 cada) são consensuais no que toca à expressão da identidade do Dão. Taboadella Reserva Encruzado 2018 preserva o estilo desta região demarcada e os atributos da casta, com a sua frescura, acidez e complexidade de boca. Taboadella Reserva Alfrocheiro 2018 serve de mote para explicar a origem desta casta proveniente das Astúrias e, em tempos, conhecida no Dão como Tinta Francesa de Viseu. Taboadella Reserva Jaen 2018 é o vinho que se segue, com a explicação acerca da sua proveniência do Noroeste espanhol e que, em território português, permanece apenas no Dão. Taboadella Reserva Touriga Nacional 2018, casta que tem esta região como o seu berço, concretamente na vila de Tourigo, sub-região de Besteiros, em Tondela. 


Os vinhos de topo da gama da Taboadella estão representados pela referência Grande Villae


O carácter clássico do Dão está em evidência nas duas referências Grande Villae da colheita de 2018. O branco (€38) é feito a partir das castas Encruzado e Bical, bem como de vinhas velhas; e o tinto (€38) é feito a partir das variedades de uva Alfrocheiro, Touriga Nacional e Tinta Roriz.


Da Época Romana ao enoturismo


Além dos vinhos da Taboadella, estão à venda produtos da região na loja, que faz parte da vertente de enoturismo da quinta


Já a história da Taboadella adensa-se no tempo. Os vestígios da Época dos Romanos comprovam essa longevidade. O lagar em granito construído junto à vinha não deixa margem para dúvidas, assim como o facto deste lugar ter sido uma Villae Romana, designação utilizada para comunidade agrícola dessa era, sendo a plantação de vinha uma dos ofícios de então.

Os registos datados de 1255 comprovam, por sua vez, a existência de edifícios agrícolas e de casas. Terá passado para a Ordem de Cristo, através da sua doação a cavaleiros fidalgos, e de te recebido foral, no início do século XVI, pelas mãos do Rei D. Manuel I. A pertença a famílias da Nobreza é sustentada pela existência da pedra de armas da casa principal.


Os azulejos da ceramista do Dão, Maria Amparo, foram escolhidos pela arquitecta Ana Vale para revestir uma das paredes da sala de provas da Wine House


Hoje, o antigo celeiro está convertido na Wine House da Taboadellla, edifício onde estão instaladas a loja e a sala de provas aberta aos visitantes. O trabalho de arquitectura é da autoria de Ana Vale e os produtos à venda traduzem-se numa homenagem à região, com os cobertores de papa, produzidos na aldeia de Maçainhas, perto da Guarda, feitos a partir de lá de ovelha churra, ou as mantas em burel, as peças em barro e faiança, e os azulejos moldados por Maria do Amparo, ceramista do Dão, entre outros produtos. Acrescente-se os vinhos da Taboadella a levar para casa e/ou a provar na sala contígua à loja na companhia de tábuas de queijos da Serra da Estrela.

Para 2021, está prevista a abertura de portas do alojamento, a Villae 1255. Instalada na antiga casa senhorial da Taboadella tem o nome de Ana do Vale na assinatura do projecto de interiores. Constituída por oito quartos – sete suites (twin ou duplo) e uma suite com capacidade para seis pessoas –, será alugada em regime de exclusividade e com capacidade total para 20 pessoas.

Até lá, há que esperar, até porque o serviço promete a típica cesta de boas-vindas, vistas à vinha e à adega, bem como a reserva de outras experiências de enoturismo a desfrutar na propriedade a somar às recomendações sobre onde ir e o que visitar na região do Dão.   

Afinal, “o Dão é uma região com um grande passado e um grande futuro”, garante Luísa Amorim.

+ Quinta da Taboadella

© Fotografia: João Pedro Rato

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