A cumplicidade entre o vinho e a gastronomia / Enoteca da Cartuxa

No n.º 15 da rua Vasco da Gama, em pleno centro histórico de Évora, criam-se experiências à mesa entre vivas ao legado de Baco da Adega da Cartuxa e à cozinha alentejana com a assinatura do chef Vítor Sobral.

A arquitetura de interiores conta com a assinatura da dupla João Mota e Sofia Duarte

Ao património cultural e vítivinícola da Fundação Eugénio de Almeida junta-se, agora, o legado da cozinha típica do Alentejo, graças à nova Enoteca da Cartuxa que se divide em espaços distintos e contíguos, desde a sala de entrada à sala semi-exterior, preparada para receber grupos de amigos e encontros de famílias que elegem a mesa como principal ponto de encontro, passando pela loja, pela sala das ilhas, pela esplanada e pelo pátio

Com o abrir de portas a 4 de julho, Adega da Cartuxa é, neste espaço enogastronómico, o prato forte da casa cuja arquitetura de interiores resulta do trabalho da dupla João Mota e Sofia Duarte que, através do traço, deu azo a linhas depuradas dominadas pelo branco, recriando o ambiente de uma taberna, desta feita, com uma envolvente contemporânea e informal, onde as cores e as formas do mobiliário alentejano marcam presença – sem alusão ao detalhe das flores típicas das peças –, assim como a loiça, o talher e demais objetos que complementam as experiências à mesas despojadas, por sua vez, de toalha, para que seja dada a mui merecida contemplação aos tampos feitos a partir de mármore de Estremoz, onde também são colocadas as bases de cortiça onde é colocado o talher.

De olhos postos na cozinha onde o chef ultima os preparativos para o repasto

A decoração é complementada pelos tons diversos das referências vínicas da Adega da Cartuxa, desde o cítrico mais pálida de um EA ou de um Foral de Évora, ao vermelho tinto de um Cartuxa Reserva, de um Scala Coeli (vinho que deve o seu nome ao Mosteiro de Santa Maria de Scala Coeli, mais conhecido por Mosteiro da Cartuxa, situado a poucos metros da Quinta de Valbom e onde se encontram os monges cartuxos) Reserva ou de um Pêra Manca, que povoam, em linha reta, as prateleiras atrás do balcão, perfeito para petiscar ou iniciar o repasto composto pelas iguarias de Vítor Sobral, o chef consultor nascido perto de Melides, no litoral alentejano e, por conseguinte, um profundo conhecedor dos sabores típicos da cozinha da região..

“Pretendemos que seja a versão atual do Alentejo, uma interpretação da gastronomia tradicional alentejana”, afirmou José Martins Ginó, diretor comercial e de marketing da Adega Cartuxa, quando falou acerca da cozinha da Enoteca da Cartuxa, “um espaço aberto à cidade” e a todos que a visitam.

Lulas salteadas, malagueta, tomilho, limão e cogumelos acompanhado por um Cartuxa branco Colheita 2014

Por conseguinte, estão abertas as honras para degustar queijos e enchidos da região alentejana, como o requeijão de ovelha, azeite e alecrim, o queijo de cabra de meia cura, a tábua de paio do cachaço, ou a de paio do lombo, ou o pratão de enchidos paio do lombo, o qual é composto por paio do lombo, paiola, paio do cachaço, farinheira. E porque quem não arrisca… petisca, o melhor é eleger o que suscita maior curiosidade, entre os cogumelos gratinados, queijo de ovelha e hortelã, o polvo tépido, tomate, cebola e coentros, ou as lulas salteadas, malagueta, tomilho, limão e cogumelos – para degustar a par com o Cartuxa branco Colheita 2014, feito a partir das castas Arinto, Antão Vaz e Roupeito –, o atum corado, curgete e orégãos e os bem-vindos ovos mexidos, farinheira e salsa.

Farinheira corada, favas, gengibre e pimento

Ou quem não arrisca, tão bem petisca entre o beiço de porco de coentrada, os pézinhos de borrego, cenoura, grão e hortelã, as suculentas bochechas de porco, pimentão da horta, cogumelos e farofa ou a farinheira corada, favas, gengibre e pimento.

Açorda de camarão, tomate e coentros

Entretanto, para quem quiser passar para um prato “a sério”, há que preparar o estômago e a alma, pois há seis sugestões a aguardar o pedido para um repasto mais demorado. Apenas para abrir o apetite, fica a memorável açorda de camarão, tomate e coentros, que vai à mesa no tacho.

Vitela no forno com creme de nabos, amêndoas torradas, redução de vinho tinto e cenoura

E a vitela no forno, cozinhada a baixa temperatura e mui agradável ao paladar, com creme de nabos, amêndoas torradas, redução de vinho tinto e cenoura, mas também há migas de lombinhos de porco de “vinha d’alhos” ou o lombo de bacalhau, puré de grão, cebola roxa avinagrada, azeite e salsa.

Na harmonização com a vitela no forno fica a sugestão: Cartuxa Colheita tinto 2012.

O pudim de azeite é uma das iguarias doces eleitas por Vítor Sobral

Em suma, nos pratos dá-se destaque às ervas aromáticas, além de que as sobremesas, cingidas aos doces típicos do Alentejo, têm menos açúcar do que as receitas tradicionais, como o pudim de azeite, no qual o sabor cítrico contrastou bem com o do ingrediente principal.

Do lado de Baco, está aberto o portefólio vínico da Adega da Cartuxa, dos quais quatro brancos e quatro tintos estarão disponíveis para servir a copo, quartetos esses que serão mudados a cada semana ou a cada mês, segundo Donatília Vivas que, desde setembro de 2015, faz parte da equipa da Fundação Eugénio de Almeida e, agora, assumiu a gestão da Enoteca da Cartuxa. A copo estará, inclusive, o Pêra Manca nas referências branco e Reserva, uma vez que o Pêra Manca tinto está reservado para as provas, sendo servido num copo especial, com o tamanho que é o mais adequado para Donatília Vivas.

Passemos à loja. Aqui há azeite do Lagar da Cartuxa, presuntos e enchidos produzidos nas herdades da Fundação Eugénio de Almeida, entre uma seleção de produtos da região, como o sabão de leite de burra, as bolachas, as ervas aromáticas, as compotas, os queijos, e muito mais, como os chocolates com recheio de vinho. E há os vinhos da Adega da Cartuxa expostos também na sala contígua, a qual abre caminho para o espaço semi-exterior, com o pavimento empedrado, uma vez que esta parte da enoteca fora, em tempos, uma passagem pedestre entre o casario da cidade que é Património da Humanidade e, a partir de agora, tem mais um bom motivo para ser (re)visitada.

Roteiro vínico

O espumante Cartuxa Bruto rosé 2013 é um bom pretexto de boas vindas ao enoturismo da Fundação Eugénio de Almeida

No périplo pela cidade, inclua a visita ao espaço destinado ao enoturismo da Fundação Eugénio de Almeida, na Quinta de Valbom, para fazer provas de vinhos e de azeite, acompanhadas de presunto da Cartuxa ou de queijos, enchidos e compotas com o selo da Cartuxa, e conhecer a antiga adega da Cartuxa.

A adega centenária está na Quinta de Valbom

Denominado de centro de estágio dos melhores vinhos da produção, este espaço pertenceu, entre os séculos XVI e XVII, aos jesuítas, que lecionavam na Universidade de Évora e, em finais do século XIX, foi adquirido pela família de José Maria Eugénio de Almeida e iniciada a exploração vitivinícola. Em 1963, Vasco Maria Eugénio de Almeida criou a Fundação Eugénio de Almeida que, hoje, soma um total de 6500 hectares – entre vinhedos, azeite, montado, cortiça, plantação de cereais –, além de um património cultural que merece ser descoberto, do qual fazem parte o Palácio dos Condes de Basto, o Museu das Carruagens, o Paço de São Miguel, o Arquivo e Biblioteca Eugénio de Almeida, o Inventário Artístico da Arquidiocese de Évora e o Fórum Eugénio de Almeida, vizinho da Enoteca da Cartuxa de portas abertas de segunda a sábado, entre as 11 e as 21 horas (a cozinha funciona entre as 12 e as 20 horas), para petiscar ao almoço, durante a tarde e o jantar e/ou optar por um repasto mais “a sério”.

A ir. Bom apetite! •

+ Cartuxa
© Fotografia: João Pedro Rato
Legenda da foto de entrada: A sala reservada para grupos

Partilhe com os amigos: