De Estremoz a Mirandela, a viagem [virtual] faz-se de copo na mão / Costa Boal

Este roteiro imaginário realiza-se à mesa, na companhia de Baco, com a estreia do produtor e do enólogo no Alentejo e a persistente vontade de esmiuçar o terroir, através da feitura de vinhos de parcela, em Trás-os-Montes.


A cultura da vinha e do vinho da Costa Boal, fundada em 2009, advém de um legado de pequenos produtores estabelecidos no Douro, património vitivinícola que, desde 2004, está nas mãos de António Boal. No entanto, é na região de Trás-os-Montes que, em 2011, mostra quanto vale no que à produção de vinhos diz respeito, com Paulo Nunes, desde o início, na enologia. 

Inicia investimentos na mais antiga região demarcada do mundo, recupera, em 2014, a adega da família, na aldeia de Cabêda, no concelho de Alijó, na sub-região do Cima Corgo, e passa a ter um centro de vinificação no concelho transmontano de Mirandela. Mais tarde, António Boal ruma ao Alentejo, para comprar, em 2021, a Herdade dos Cardeais, propriedade vinhateira situada no concelho de Estremoz, distrito de Évora. Eis o resultado de “um namoro de meia duzia de  anos na região”, que leva o produtor, bem como o enólogo, a estrearem-se na produção de vinho, a partir de uvas próprias, em terras além Tejo.

António Boal justifica a razão pela qual a escolha recai em Estremoz: “porque esta sub-região não é o Alentejo generalista que conhecemos. Tem um terroir muito específico e um lado histórico, que valida essas particularidades (…) com processos de maturação mais equilibrados e vindimas mais tardias comparativamente com outras zonas do Alentejo e com vinhos de frescura e equilíbrio surpreendentes.”


“Foi uma aprendizagem”, diz Paulo Nunes, remetendo para o facto de que “todas as vinificações foram feitas em função das castas e dos solos”. O enólogo aborda ainda a questão da amplitude térmica, “com noites mais frescas”, mesmo no Verão, como se de um outro Alentejo se tratasse. A vinha, de dez hectares, tem plantadas as castas Antão Vaz, Arinto, Fernão Pires e Roupeiro, nas brancas, e Aragonez, Alicante Bouschet, Cabernet Sauvigon, Petit Verdot e Syrah, nas tintas; e a adega, que já existia na propriedade, “está completamente equipada”, acrescenta António Boal.

Apesar do stock de vinhos, das colheitas de 2018 a 2020, com que ficou nas suas mãos aquando da compra desta herdade, António Boal avança com o Monte dos Cardeais Reserva branco 2021 (€12), “o primeiro vinho feito de raíz por nós”, afirma o enólogo. Antão Vaz e Chardonnay são as castas usadas neste lote revelador do aroma frutado e caracterizado pela frescura típicos de ambas e que tão bem se conjugam neste vinho, embora precise de mais tempo, para que fique mais elegante. Do lado das variedades de uva tinta, está o Monte dos Cardeais Reserva tinto 2019 (€12). Feito a partir de Alicante Bouschet e Syrah, denota a elegância, que incita à repetição.

Na lista de novidades vínicas da Herdade dos Cardeais previstas para este ano estão o Monte dos Cardeais Grande Reserva branco 2021 e o Monte dos Cardeais Grande Reserva tinto 2018.

Do Alentejo, partimos directamente para a região vitivinícola de Trás-os-Montes. “Vamos mudar quase de Continente, tal é a diferença entre os seus vinhos que aqui temos”, adianta Paulo Nunes. À chegada, serve-se Palácio dos Távoras Tinta Gorda 2021 (€35), a segunda edição do vinho feito a partir desta casta de uma vinha com 140 anos, no planalto mirandês. “este vinho traz, uma vez mais, o reverso do estereótipo associado a Trás-os-Montes”, continua o enólogo. Quanto ao vinho, está mais equilibrado e elegante do que o da colheita de 2020, devido ao equilíbrio encontrado entre a quantidade de engaço usado na vinificação e os taninos próprios desta casta tinta.

Palácio dos Távoras Vinhas Velhas branco 2021 (€30) é feito a partir de castas autóctones da região vindimadas em três parcelas de vinha com cepas, cuja média de idade ronda os 60 anos e uma produção limitada a 2.666 garrafas. A frescura e a sensação de mineralidade estão presentes neste branco, com a acidez apetecível para este Verão. 


Na “lógica da parcela”, à qual o enólogo da Costa Boal associa à “lógica de qualidade”, consta o Palácio dos Távoras Gold Edition branco 2019 (€95), novidade absoluta no portefólio deste produtor. Limitado a 666 garrafas, resulta dos atributos “da parcela dentro da parcela”. Para Paulo Nunes, estes vinhos reflectem o terroir, o trabalho de viticultura, e resultam de “um trabalho de enologia de risco máximo”, até poeque “o conhecimento é aberto, mas a uva não é comprável”. Por isso, “nunca a parcela, o terroir foi tão diferenciador para o futuro”. Outro dos aspectos a considerar é a precisão na escolha da barrica, “produzida propositadamente para este vinho”, ou não revelasse este tinto a virtude de ter a madeira bem integrada. Palácio dos Távoras Gold Edition tinto 2019 (€80), com apenas 1.150 garrafas e feito a partir de uvas colhidas em vinhas velhas, revela um carácter igualmente sério e, ao mesmo tempo, agradável.

Elaborado com uvas provenientes de vinhas velhas com cerca de 60 anos, Palácio dos Távoras Vinhas Velhas tinto 2019 (€30), revela boa acidez e e alguma elegância, mas promete evoluir se guardado mais tempo em garrafa. O mesmo se pode dizer acerca de Palácio dos Távoras Alicante Bouschet 2019 (€35), cujas composição inclui outras castas presentes nas vinhas velhas de onde foram vindimadas, sendo aquela variedade de uva tinta – criada, no século XIX, por Louis e Henri Bouschet, respectivamente, pai e filho – e muito comum em Trás-os-Montes. 


Touriga Franca (casta predominante), Touriga Nacional e Tinta Roriz são as três variedades de uva que fazem parte da composição do Costa Boal Vintage Port 2020 (€60). Com uma produção de 1.200 garrafas, apresenta acidez e uma sensação de mineralidade fora de série, além da complexidade que se exige de um vinho desta categoria.

Brindemos!


+ Costa Boal
© Fotografia: João Pedro Rato

+ Legenda da foto de entrada: Paulo Nunes e António Boal, respectivamente, enólogo e produtor

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